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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como descobrir traições melhorou a vida sexual de um casal junto há 28 anos

AnnaStills/Getty Images/iStockphoto
Imagem: AnnaStills/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

27/08/2021 04h00

Corina tem 54 anos, casada há 28 com um homem com quem partilha uma história de ótimos momentos sexuais, e outros nem tanto - afastamentos que a vida se encarrega a provocar. Como todo casal que vai envelhecendo sexualmente bem, e que tem bom convívio, passaram a revelar desejos - e também, infidelidades. Isso, depois que eles já se escolheram, várias vezes, a cada crise conjugal.

O amadurecimento nos faz olhar para nossa sexualidade de um jeito mais livre. Já não existe o normal, o correto. Existe um sujeito sexual que é único; múltiplo; pode ter prazer em uma relação tradicional; ao mesmo tempo, gozar realizando um fetiche.

Quando você pensa que a vida pode lhe dar mais 20 ou 30 anos saudáveis, faz sentido desquerer os desejos usuais, ou parte deles, para querer novamente e genuinamente os inventados, que antes residiam no território da vergonha.

A princípio José contou que três vezes procurou garotas de programa no período que ficaram sem transar; depois o número subiu para 4, mas a conta verdadeira era: 1 garota de programa, uma secretária, duas amigas. João tem um perfil sedutor.

Alto, e segundo Corina, com voz macia e quente, costuma seduzir balconistas, atendentes de lojas, a moça do pedágio. Faz as mocinhas sorrirem e "se abrirem" para ele; está sempre levemente inclinado no balcão, fazendo um gracejo inteligente.

Para Corina, que já havia também beijado dois homens em um bar, em ocasiões diferentes, as infidelidades de José faziam parte de um arranjo possível, nos hiatos da convivência íntima a dois. Foi honesta também sobre os beijos segredados até então.

Mas eis que essa abertura e afrouxamento da censura, que estava ancorada na instituição casamento, na empatia com o parceiro e na avaliação de uma vida sexual satisfatória com José, abriu as comportas do desejo de Corina.

Durante a pandemia resolveu usar um app pra mulheres casadas. No perfil, a frase de abertura de Corina era: mulher casada que precisa de sexo. Nas preferências: uma aventura, sexo casual. No dia seguinte, de tarde, já tinha um monte de caras pedindo para que ala abrisse seu álbum privado - mais de vinte. Foi selecionando. Os mais próximos: um descendente de árabes, um afro-brasileiro, um engenheiro. Idades entre 35 e 60. Cinco dia depois, compunham sua "rede" oito homens. Migrando para o WhatsApp, fotos de pênis duros ou gozando.

Enquanto isso, excitada, Corina fazia sexo com José todas as noites, e às vezes de manhã. Pedia para ele tirar fotos e filmar. Isso lhe serviu para ver de perto sua própria vagina, lábios, tudo. Ela recortava, ampliava e ia se vendo gostosa, desejante. E, claro, mandava para os homens pelo WhatsApp.

Quatro dos eleitos lhe chamaram atenção. O árabe, casado, que adora enviar nudes e vídeos de sexo tântrico. Depois que Corina enviou um vídeo para ele, fazendo sexo com o marido, ele parou de falar com ela. Passados uns dias perguntou o porquê; ele respondeu que "eu era muito pra ele, não dou conta", conta.

O engenheiro se tornou mais amigo do que qualquer outra coisa. Tinha troca de fotos, mas conversavam muito, e Corina usava as experiências sexuais que ele lhe contava como ideias para fazer sexo com José. O moreno casado, com barba aparada, 42 anos, disse que gosta de ser dominador; quando Corina sugeriu a fantasia de sexo a três, incluindo José, negou. O afro-brasileiro: relação que foi ficando cada vez mais séria. Carente, a esposa fazia sexo "mecânico" com ele. A troca via WhatsApp foi se intensificando, até que chegaram ao motel.

Toda essa experiência intensa, escalonada, de homens desejando Corina, tornou o sexo uma espécie de fissura, adição. Contou para José - menos sobre o encontro real no motel - mostrou fotos, vídeos e áudios, o que também o excitou muito.

Mas conhecer a experiência desejante das parcerias pode ser excitante e angustiante ao mesmo tempo. Por mais racional que seja acolher a vontade alheia, nem sempre o resultado emocional é capaz de ser tão generoso. José fez uma busca e apreensão no celular de Corina e descobriu muito mais do que ela havia decidido compartilhar com ele. Ficou raivoso.

Descobrir o histórico da infidelidade conjugal digital é uma bomba, porque todas as nuances e fantasias estão lá, escancaradas. Diálogos jamais imaginados. Práticas antes impensáveis, datas, percepção de intensidade, confidências, fotos, vídeos. Mesmo com toda a boa-vontade do mundo, é preciso muita maturidade para não jogar para o alto uma relação de amor.

Mas Corina e José são desse tipo de casal que enfrenta dissabores. De lá para cá, passaram por todo tipo de fase: crise, briga, sexo, tesão, que vocês possam imaginar. Conversaram muito, brigaram e fizeram as pazes inúmeras vezes. Estão, mais uma vez, decidindo recasar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL