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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fantasias sexuais: nem todo mundo está pronto para realizá-las

Realizar uma fantasia sexual pode ser frustrante, já que o imaginário pode sempre superar a realidade. - Pixabay
Realizar uma fantasia sexual pode ser frustrante, já que o imaginário pode sempre superar a realidade. Imagem: Pixabay
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

03/04/2021 04h00

Álvaro e Sandra se relacionam há 13 anos, mas só moraram juntos durante 6 anos. Tem uma filha de 10 anos. Como toda relação longa, eles tiveram altos e baixos, sendo que nos últimos dois anos viveram a fase mais crítica e, diante disso, acabaram decidindo pela separação. Ainda moraram juntos por um período, e em setembro de 2020, Álvaro resolveu sair de casa.

No começo ele se sentia orgulhoso e ao mesmo tempo com raiva. Aproveitou a recém-solteirice para se aventurar no mundo liberal pela internet. Álvaro se julga aberto e curioso e compreende que o senso comum só conhece um fragmento desse universo e que ainda existe muito preconceito sobre as práticas ménage, swing, troca de casal, etc. No entanto, verdade seja dita, ele mesmo nunca foi para as vias de fato, garantindo uma certa 'segurança" diante da tela do computador.

A maior parte de nós tem fantasias sexuais. Elas são ferramentas para que o desejo sexual se manifeste; tem relação com nossas vivências pessoais e por aquilo que consumimos a partir do meio ambiente.

Realizar uma fantasia sexual pode ser frustrante, já que o imaginário permite modelar as cenas especificamente com o que cada um acha mais interessante e a vida real pode não ser assim tão incrível.

Sem contar os inúmeros sentimentos que advém da experiência, nem sempre fáceis de acomodar.

Mas há muitas pessoas que são bem flexíveis, ousadas e curiosas, e vão alimentando o seu dicionário erótico com experiências concretas, mesmo que elas não sejam tão prazerosas. Parece que Sandra faz parte do segundo time. Como ela também tem muita curiosidade nesse mundo liberal, quando separados, buscou, pesquisou, se cadastrou em uma rede social especifica, mas não conseguiu realizar algumas fantasias como ir à casa de swing, fazer troca de casal, devido a pandemia.

A separação fez Álvaro refletir muito sobre a vida, seu futuro, e não demorou muito a decidir que gostaria de voltar com Sandra, mas sob uma nova perspectiva: a de reverem crenças e valores. Os dois começaram a "ficar" novamente em janeiro desde anos, mas ainda sem morar junto novamente.

Eles têm boa química sexual; Sandra é mais "carnal", adora se exibir e experimentar, Álvaro é mais sentimental, gosta da troca de energias no sexo, uma vibe mais "espiritual". Fizeram 2 lives transando para as pessoas assistirem, que ele achou uma experiência nova, legal, mas que não o "arrepiou".

Acontece que a Sandra quer ir para as vias de fato e ele não se sente emocionalmente disponível para isso, um dilema muito comum nesses casos.

Na minha experiência, partir para o formato não monogâmico funciona, desde que ambos estejam convencidos de prós e contras; nunca acontece sem medo de que a relação não aguente, pois expõe fragilidades e desejos. Além disso, o casal deve se aventurar com entusiasmo, mas é o cuidado com a relação e com os sentimentos dos envolvidos que garante a manutenção do relacionamento. Fazer isso no momento de vulnerabilidade gera muito mais ansiedade.

Sugiro que Álvaro continue a acolher o desejo de Sandra, no sentido de compreender como natural, algo que faz parte do erotismo dela. No entanto, isso não significa que precisa vivenciá-lo. É claro que a relação não monogâmica é uma ideia que também o agrada, e a troca de casais o estimula, como fantasia. Mas a concretização não o excita tanto.

Ele pode até se dispor a testar a experiência, na prática, estabelecendo limites e regras com a parceira. É um processo, no qual os casais devem ter liberdade para expor suas emoções e nada precisa ser definido como uma mudança definitiva, de antemão. Pessoas que achavam que não iam "dar conta" da vivência podem se surpreender positivamente, da mesma maneira que outras que apostam que vão adorar, podem achar tudo muito estranho e perderem o interesse. Em se tratando de amor e sexo, nada está garantido.

Mas nas nossas sessões eu chamo a atenção de Álvaro para o que o dilema também pode estar explicitando, para além da sexualidade: já que, segundo ele, eles têm "gênios totalmente opostos", não seria esse só mais um dos conflitos que vivenciaram durante todos os tempos da relação? Ou seja, estariam os dois arrumando uma maneira de verificar se essa reaproximação vale mesmo a pena, reproduzindo os antigos conflitos de convivência, quando uma ideia diferente vira uma negociação sem fim?

No final das contas, nunca é fácil renunciar a um relacionamento, especialmente os com filhos. A gente se acomoda no conhecido e se apega a história construída. Resta saber se Álvaro e Sandra conseguem mobilizar a relação e trazer o novo - mesmo que isso não signifique necessariamente concretizar fantasias, mas abrir uma comunicação e flexibilizar modos distintos de pensar as coisas da vida. Os limites só serão percebidos, mais que com a vivência, com o exercício da empatia e autoconhecimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL