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Ana Canosa

Casal abre mão da monogamia e enfrenta os altos e baixos da relação aberta

Existe fórmula ideal para um casamento dar certo? - 1001nights/Getty Images
Existe fórmula ideal para um casamento dar certo? Imagem: 1001nights/Getty Images
Ana Canosa Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Canosa

Colunista de Universa

16/01/2021 16h43

Cristiane tem 40 anos e é casada com Steve, 42. Juntos tiveram 2 filhos, João e Alex. São casados há 15 anos, viveram em 4 países diferentes por causa do trabalho dele, o que não favoreceu que Cristiane conseguisse desenvolver a sua carreira profissional.

O casamento foi acometido pelos problemas de sempre, um certo descuido com a relação, necessidades individuais não satisfeitas, interesses que mudam com o tempo, além de terem diferenças culturais importantes, sem contar todas as a adaptações difíceis, comuns na vida de expatriados. Cristiane confessa que pensou na separação algumas vezes, mas reconhece que, o fato de ser filha de pais separados provocou nela uma certa necessidade de fazer o casamento dar certo, a "qualquer custo".

Quando voltaram para o Brasil, há mais ou menos 5 anos, resolveram abrir um negócio no litoral. Como os filhos estavam entrando no ensino fundamental pensaram que seria interessante que eles estudassem na capital. Então, decidiram que Cristiane iria morar em São Paulo com os dois e Steve ficaria gerenciando o negócio no litoral, subindo a serra aos finais de semana.

Os planos são sempre ótimos, mas na prática nem sempre funcionam - ela me disse. Cristiane percebeu que estava mais feliz sem o marido do lado e que vivia muito bem, obrigada!

Há quem diga que morar em casas separadas, pode enfraquecer um relacionamento; outros apostam no contrário para resguardar o espaço das individualidades e manter o interesse no outro. Eu já vi as duas coisas acontecerem e acho que menos tem a ver com a coabitação e mais com a intimidade afetiva construída.

Em alguns períodos de uma relação, ou você mergulha na crise conjugal para sair dela mais fortalecido, seja para separar-se ou não, ou se fecha no seu mundo interior, aumentando o risco do afastamento afetivo.

Steve que amava Cristiane que amava Luiz...

Foi aí que Luiz entrou na história. Um homem 20 anos mais velho, também casado, mas adepto do amor livre, por quem Cristiane se apaixonou. Passaram a se relacionar clandestinamente, mas Luiz tinha o ideal de todos viverem uma grande família, com os envolvidos se respeitando e amando com liberdade e respeito, uma ideia estranha para ela na época.

Depois de um ano vivendo esse amor especial na clandestinidade, Cristiane pediu a separação e Steve, que cresceu em um ambiente conservador, ficou inconformado. Precisou de algum tempo para aceitar a ideia de ser um homem divorciado e livre. Mas foi quando finalmente os dois achavam que tinham conseguido resolver transgredir a herança dos valores familiares, que o maior representante da "lei familiar" se interpôs entre eles: o pai de Cristiane, que havia sido o maior investidor financeiro do negócio deles, ameaçou desfazer tudo.

Mais do que a tristeza de enterrar um plano que estava aos poucos se concretizando com muito esforço, Cristiane foi pega por um fantasma conhecido: ela estava abandonando o marido como a mãe fizera com seu pai, para ir embora "com outro homem", embora ninguém ainda soubesse da existência de Luiz. Incapaz de ser protagonista da herança imagética da mãe frívola, que colocou o próprio prazer em perspectiva, em detrimento a manutenção da família tradicional brasileira, como uma boa menina Cristiane voltou atrás e ela e Steve resolveram manter o casamento, dessa vez no modo: "relação aberta".

Passaram um ano as mil maravilhas, até que Steve se encantou por uma moça, 20 anos mais nova e rompeu acordos importantes, como o de evitar exposição. Foi muito mais transgressor, apresentando-a para amigos em comum. Cristiane se viu experimentando todos os sentimentos ridicularmente humanos, embora ela mesma estivesse também nos braços de Luiz. Ciúme, raiva, vergonha, medo.

Não dá para achar que, educados na proposta monogâmica de relacionamento, da noite para o dia você ficará feliz por ver sua parceria encantada por alguém. É preciso se lançar com ousadia, por um terreno movediço e experimentar todo tipo de contradição, para manter o elo de confiança e intimidade emocional.

Cristiane e Steve vivem juntos até hoje, mantendo o casamento, embora também se relacionem com outras pessoas. Quando estão bem e felizes, são capazes de reverenciar a chance que deram ao casamento, a ousadia de Cristiane ter colocado em xeque a monogamia, e experimentarem outras possibilidades, sem ter rompido de maneira abrupta. Por outro lado, quando eles têm problemas, é ela quem leva a culpa, por ter colocado em xeque a monogamia.

Ela sabe que ainda não encontraram uma maneira ideal de viverem e que essa história ainda não terminou. Por outro lado, reconhece que hoje ela e o marido estão mais próximos e íntimos do que nunca, pois reverenciaram com coragem a história que construíram, enfrentando a vulnerabilidade que é a maior característica do amor.