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Ana Canosa

Um casal que não faz sexo deve partir para uma relação não-monogâmica?

Relacionamento aberto não resolve todas as questões mas pode ajudar uma vida conjugal em crise - Shutterstock
Relacionamento aberto não resolve todas as questões mas pode ajudar uma vida conjugal em crise Imagem: Shutterstock
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

30/12/2020 09h48

Tenho 41 anos e minha esposa 42 anos, tivemos uma conversa há pouco mais de um mês em que ela falou que não quer mais fazer sexo comigo —e já não fazemos há mais de um ano. Propus a nossa separação, pois não só o sexo faz falta, mas também o estarmos juntos, sairmos juntos, beijos, abraços. Mas ela disse que não vai tomar nenhuma atitude com respeito a isso, que não quer que eu saia de casa. Não consigo viver como irmão dela, não temos nenhum contato mais, inclusive montei outro quarto para mim em nossa casa. Cada um vive no seu mundo. Essa situação está me corroendo, pois sempre quis ter uma vida saudável, cuidar dos nossos dois filhos (10 e 12 anos) e envelhecer juntos.

Entendo que a sua situação não seja simples. É fácil para quem está de fora dizer: "separe-se e vá se abrir para outras experiências", mas e o que você faz com seu projeto de vida? Com a ideia de envelhecer ao lado de sua parceira e filhos? Com o sonho de ter uma vida tranquila, onde tudo funciona?

Pois não está dando certo, sinto informar. Não é porque ela não quer mais transar aos 42 anos: ela é livre para desejar ou não fazer sexo com você. O problema está no fato de que o desejo de ambos não se encontra e isso lhe faz sofrer.

Lendo seu e-mail, destaca-se a vontade dela. Ela não quer mais sexo, ela não quer separar, ela não quer que você saia de casa. Ao menos do seu ponto de vista, é o desejo dela que prevalece nas decisões do casal. Enquanto você sofre, a relação é orientada por ela. É assim em outros aspectos da relação também? Em caso positivo, avalie o que você acaba ganhando com isso, pois me parece enredado na posição de coadjuvante.

Você não disse se conversaram sobre a possibilidade de abrir a relação, tornarem-se não-monogâmicos. Acredite, é a solução para alguns casais que vivem situações semelhantes. Eu sei que não resolve tudo, até porque o fato de ter a possibilidade de fazer sexo com outras pessoas pode não resolver a situação de "conviver como irmãos" com a sua parceira.

Terá que avaliar se o que mais lhe incomoda diante dessa possibilidade é o seu tesão por ela que será frustrado, se é a tristeza de não ter a tríade sexo-afeto-parceria no casamento ou o medo de que ela também resolva fazer sexo com outras pessoas. Se vocês não falaram sobre isso, sugiro que comecem. Se já falaram e ela simplesmente não aceitou, daí a coisa está mesmo ficando feia para o seu lado.

Como me faltam dados sobre por qual razão ela se fechou para a vida sexual conjugal, eu só posso supor que ela esteja cansada de um sexo ruim; que ela esteja ressentida porque você foi infiel; que ela tenha se descoberto assexual e cansou de fazer sexo "por obrigação"; que ela está te punindo por outras questões conjugais; que ela esteja passando por algum momento psíquico bem difícil ou tomando algum medicamento que inibe a libido; que ela seja abusiva e está minando a sua autoestima; que ela nunca na verdade teve muita química sexual com você e agora resolveu assumir isso. Quem sabe ela se apaixonou por alguém ou simplesmente perdeu o tesão por você?

Seja qual for a questão, tenho ainda duas observações a fazer. A primeira é que talvez seja você quem não queira se separar, embora já tenha oferecido como solução. Você já mudou de quarto, então está legitimando o novo contrato conjugal sem sexo. Espero que você tenha boas razões para fazer isso, como uma vida incrível com ela, cheia de afeto, verdade, companheirismo, aconchego e motivação. Do contrário está se acovardando, ocupando o lugar do não-desejado, aprisionado, carente. Nesse caso, reflita porque acredita que merece viver assim. E olha, eu sempre digo que estou de mãos dadas com os covardes, todos somos, para uma coisa ou outra na vida. Então, após avaliar tudo o que envolve a sua covardia, tome uma decisão. O que não dá é viver angustiado, implorando por migalhas.

Eu sei que a conveniência do casamento faz parte e toda relação afetiva a tem, que somos acomodados, temos preguiça de começar tudo de novo, mas tem hora que nem as benesses do casamento contém a avalanche de um desejo represado.

Minha segunda observação vai de encontro às escolhas: vocês já fizeram uma terapia de casal? Uma terapia sexual? Já abriram os corações, os medos, as mágoas, os desejos, passaram a vida a conjugal a limpo? Imagino que essa seja a única orientação certeira que eu possa lhe dar!

Nós podemos viver sem sexo e isso não é exatamente "não saudável". Pode não ser tão divertido. Concordo e sei que um sexo bem feito entre os casais ativa a intimidade e eleva a autoestima, além de fazer bem para o corpo. Mas outros prazeres têm substituído a atividade sexual entre humanos. Pesquisas mostram que estamos fazendo menos sexo que nossos antepassados e profissionais que avaliam tendências apostam que no futuro a relação sexual entre as pessoas será um evento "especial", em detrimento à masturbação, que acontecerá com maior frequência. Desconstrua a ideia de que vocês precisam fazer sexo para ser um "casal saudável", coloque na balança o prazer da vida cotidiana e a história de vocês. Se o que sobrar é um profundo vazio que lhe corrói, talvez seja interessante você subverter a ordem que se apresenta e colocar seu ser desejante em ação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.