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Ana Canosa

Dona Ilka: segredos da vida sexual de uma mulher da terceira idade

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Imagem: Getty Images
Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

22/12/2020 15h06

A Dona Ilka tem hoje 85 anos. Como a expressiva maioria das mulheres nessa faixa etária, ela foi criada nos padrões rígidos da educação e bons costumes. Filha de pais húngaros, que emigraram para o Brasil no final da década de 50, passou boa parte da sua adolescência vivendo os horrores da dominação nazista em seu país.

Foi no Brasil que ela conheceu o amor e a sexualidade. Se casou aos 28 anos, teve duas filhas, 3 netos e uma porção de namorados após a viuvez. Seu marido faleceu quando ela tinha 45 anos, na flor da idade. Como ela era secretária de uma clínica odontológica, chamava a atenção com seus cabelos dourados e olhos azuis. As filhas já estavam acostumadas a ver a mãe sair, aos finais de semana, mas ela, por respeito ao marido falecido, nunca assumiu compromisso sério nem dormiu fora de casa, até que cada filha tivesse a própria moradia.

Ela me conta que alguns bons pretendentes interromperam a relação justamente porque ela não os assumia para a família. Ela dizia que não queria macular a imagem do marido falecido, mas no fundo estava mesmo era desfrutando de uma liberdade que nunca tivera. Não queria alguém com quem deveria se preocupar, a lhe controlar horário. Tinha se descoberto uma mulher que adorava variação sexual.

Ilka foi minha paciente há mais ou menos 8 anos. Com disposição invejável, estava querendo entender como podia ajudar na ejaculação precoce do parceiro da época, o Nelson. Certo dia, ela chegou no consultório e me disse: você vai gostar da novidade - Nelson finalmente foi apresentado à família. Explico.

Como todos nós, Ilka também desfrutava das maravilhas do smartphone, descobrira o Facebook e se conectou com as amigas do condomínio, familiares, primos que ficaram na Hungria e que ela não via fazia tempo, pacientes da clínica de odontologia.

Dias antes da nossa consulta, a filha mais velha ligou para ela num domingo:

- "Mãe, o que é aquela foto no seu Facebook?"

- "Que foto minha filha? A do Felipinho de chupeta? Vocês e essa mania de não dar chupeta para criança..."

- "Não mãe, tem um homem nu na sua página do Facebook! Abra pelo amor de Deus seu Facebook e veja."

Ilka abriu seu perfil e a filha tinha razão. O pior é que ela não sabia como fazer para apagar a foto. As amigas já estavam comentando: "Nossa Ilka, o que é isso?", "Ilka do céu, que pouca vergonha!".

Ela ligou para a filha pedindo ajuda, desesperada. Não conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo: falar no telefone e acessar a rede social, e a filha teve que correr para a casa da mãe para resolver o problema. Nesse intervalo, a família já estava toda em polvorosa, comentando o ocorrido na mesa do almoço dominical.

Maria Carolina chegou esbaforida. Ilka, fingindo demência, pediu que a filha anotasse em um papel o passo a passo para excluir a foto para que ela mesma fizesse isso depois. "Não tenho ideia de como isso foi parar aí, deve ser vírus", falou dissimulada. "Mãe, fala a verdade, dá aqui o celular que eu apago a foto, preciso entrar no seu perfil." "Faz assim filha, você vai me dizendo como faz que eu mesma faço." Foi aí que a Maria Carolina gelou por dentro. Conhecia bem a mãe para saber que tinha caroço naquele angu.

A sexualidade na terceira idade é mais impactante para os filhos do que para os idosos. Claro que a resposta sexual fica mais lenta, provavelmente é preciso lançar mão de recursos como medicamentos, lubrificantes, hormônios, mas isso se consegue fácil. Difícil é ter que renunciar a imagem dessexualizada dos próprios pais.

Sem jeito de esconder da filha quem era o dono daquele nu no seu perfil, pela primeira vez llka abriu seu coração para Maria Carolina.

Contou que lá nos idos de 1959, depois que a família conseguiu se instalar na cidade, ela conheceu o Nelson, filho do açougueiro que morava na mesma rua. Eles começaram uma tórrida história de amor juvenil, debaixo da mangueira da vizinha.

Foi debaixo da mangueira que ela beijou pela primeira vez, que experimentou a quentura da excitação que lhe bambeou as pernas, que se deixou levar pelo encantamento do entumescimento do pênis de Nelson quando o tomou pelas mãos.

Um pouco mais velho e um tantinho mais experiente, ele era um rapaz que adorava uma boa esfregação, Ele e Ilka eram curiosos demais, desejantes demais, jovens demais, alegres demais e não demorou para Ilka perder a virgindade com o vizinho.

Por sorte e proteção divina, Ilka não engravidou durante o ano que encontrou Nelson na casa da vizinha, que um dia levantou antes do esperado e acabou flagrando os dois fazendo amor no jardim. Foi um escândalo familiar, e Ilka nunca mais viu Nelson, até pouco tempo atrás, quando o neto lhe ajudou a criar o perfil na rede social.

Ilka tinha reencontrado Nelson, também viúvo, e eles fizeram como todos: trocaram mensagens no público, depois no privado, passaram para ligações telefônicas até resolverem se reencontrar e viver um amor de verão. Como ele tinha ido visitar a filha no Rio, estavam fazendo sexting pelo Whatsapp. E ele mandou um nude para ela, que sem querer, foi parar no Facebook. Na época, ela tinha 77 anos e trocava nudes com o primeiro namoradinho.