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Ana Canosa

Aos 39, nunca tive relacionamento sério; por que não tenho sorte no amor?

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

24/12/2020 04h00

Pergunta da leitora: Tenho 39 anos e ainda não conseguir um relacionamento sério com ninguém. Às vezes me pergunto se sofro de excesso de amor próprio mas sempre acho que foi a pessoa que perdeu a oportunidade de estar ao meu lado. Quando começo a me interessar, sempre acontece algo, a pessoa mente ou tem valores com os quais eu não concordo. Tem sido assim desde os meus 14 anos. Existe explicação para essa minha falta de sorte no amor?

Parece mesmo sorte a gente encontrar alguém com quem tenhamos química sexual, valores em comum, facilidade no convívio e, ainda por cima, disponibilidade para um compromisso. Além disso, uma família acolhedora e que saiba respeitar limites. Ah, e que tenha também amigos educados, interessantes e bem humorados. De preferência, que a pessoa tenha a mesma religião e seja livre de traumas do passado. Que tenha estabilidade financeira e sucesso profissional. Saúde boa, sem vícios. Não é pedir muito, certo?

Nunca estamos livres da idealização amorosa e que bom! Sem ela a vida, já difícil, ficaria pior. Quando alguém diz que não devemos ter expectativas sobre as pessoas pelas quais nos encantamos à primeira vista, esquece que é a fantasia de encontrar a tal "felicidade" que também nos dá motivação para continuar a caminhada

O amor erótico, aquele que começa pela paixão, passa mesmo por esse processo de idealização, frustração e escolha. Primeiro a explosão dos sentidos, o amalgamento das identidades, o tesão louco, a euforia. Depois, a decepção de perceber o outro como ele realmente é.

Por último, o amor é um ato da sua vontade: decide-se continuar ou não amando o outro, desidealizado, inteiro, com sua luz e sua sombra. Essa é a parte mais difícil, pois o amor precisa se converter em ação. É bem mais fácil dizer eu te amo do que de fato movimentar-se para fazer o outro feliz.

Sim, a vida pode lhe ter apresentado pessoas que não sejam honestas ou empáticas. Mas isso diz respeito a elas, não a você. Você acha que não teve sorte, mas talvez só não tenha tido coragem. Quando diz que algo acontece ou que perde o interesse, o quanto de fato tem curiosidade sobre o outro e disponibilidade para uma relação de compromisso?

Porque dá um trabalho danado e muita gente não está disponível para isso. É como iniciar uma relação com alguém que já namora ou é casado e ficar reclamando que a pessoa não se separa, com dó de si mesma. Esse padrão ambivalente - eu desejo, mas tenho medo da intimidade - se apresenta de vários modos, inclusive na "falta de sorte" no amor.

Quando você diz que isso acontece desde os seus 14 anos, fase do início da adolescência, a difícil passagem para o mundo adulto, me soa como um lamento, como se você ainda estivesse vivenciando o luto da fase anterior, onde temos mais garantias sobre o amor. Eu sei que nem todos temos a sorte de nascer em famílias amorosas, mas como você frisou o fato de ter amor-próprio desenvolvido, me sugere que é bem possível que você tenha sido uma pessoa investida de amor familiar.

Claro que amar a si mesmo é a garantia de preservar a autonomia e aguentar desilusões. No entanto, amar demasiadamente a si mesmo pode fazer com que você faça mais projeções do que idealizações. Na projeção você só consegue se enxergar: o outro é a sua própria imagem, desdobrada. Alguém que espelhe o quão incrível você é. E daí não é amor, porque nem dá tempo de desenvolvê-lo, é só um apaixonamento de si mesmo.

Vale a pena fazer essa reflexão. Seria preciso sair dessa redoma dos seus 14 anos, para enfrentar o mundo, a avaliação dos outros, as rejeições e a insegurança de estabelecer uma relação de intimidade com alguém. Amores adultos sempre vão refletir partes menos interessantes de nós mesmos.

Eu sei que na cultura atual, relações de compromisso são mais difíceis de acontecer, pois há muita liberdade e as personalidades são mais egocentradas. Muitas pessoas não se mostram dispostas a colocar a mão na massa para fazer uma relação amorosa funcionar. Nem acho que precisam, viver solteiro e feliz é uma possibilidade legítima.

O problema está na ambivalência do desejo. Parafraseando a Ester Perel, não dá para ter risco no que é seguro, mistério no que é familiar, novidade no que é duradouro. O interessante é que ao pensar que o compromisso amoroso é só a segunda parte - seguro, familiar, duradouro - o que pode ser considerado chato à primeira vista, a estabilidade acaba sendo sentida só na vivência do próprio eu: só é seguro, familiar e duradouro se eu estiver encerrado em mim mesmo.

Para além das pessoas menos interessantes e mentirosas que você esbarrou na vida, avalie se não é isso que está acontecendo com você.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.