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Ana Canosa

Ela rompeu com a igreja, mudou sua relação com o prazer e virou sexóloga

Religiões professam ideais sobre o comportamento das pessoas, nas mais diversas esferas, entre elas, a sexualidade - microgen/Getty Images/iStockphoto
Religiões professam ideais sobre o comportamento das pessoas, nas mais diversas esferas, entre elas, a sexualidade Imagem: microgen/Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

08/12/2020 04h00

Lucy tem 34 anos, é psicóloga e sexóloga. Depois que passou a compreender os processos psíquicos, aprendeu a ouvir as pessoas em suas mais profundas necessidades e aprofundou-se nos estudos sobre sexualidade, viu desabar suas crenças mais comuns sobre normalidade. Ela aprendeu que nenhum sintoma pode ser interpretado com superficialidade.

Além disso, Lucy se viu obrigada a romper com alguns dogmas da religião que seguia, já que passaram a não fazer mais nenhum sentido em sua vida.

Eu entendo que as religiões professam ideais sobre o comportamento das pessoas, nas mais diversas esferas, entre elas, a sexualidade, não tem muito jeito. Cabe aos fiéis refletir que parte cabe na sua vida e no seu projeto pessoal. Caberia aos religiosos leituras contextuais com profundidade sobre o que de fato é importante professar nesse campo, a partir de textos antigos. Infelizmente sabemos o quanto muitas religiões viraram campo de debates políticos e hegemônicos, onde a disciplinarização dos corpos serve ao preconceito, à desigualdade, à crueldade e à ignorância.

Foi numa religião bastante repressiva quanto ao comportamento sexual, principalmente feminino, que Lucy incorporou a terrível mania de controle do prazer. No entanto, após descobrir-se como um ser desejante, compreendeu que não cabia mais num enquadramento tão sufocante. Foi assim que acabou experimentando o sexo antes do casamento e enveredando para uma profissão "questionável", segundo os padrões esperados por todos à sua volta.

Mediar prazer e contenção é uma tarefa de todos, mas cada um a realiza de forma peculiar, a partir de uma lógica pessoal, nem sempre tão fácil de se compreender estando ela entranhada no pensamento e condicionada aos gatilhos diários. Há quem se entregue ao desejo com avidez, ao menor sinal, outros o refreiam sob justificativas diversas e há os que procuram resolver os dilemas por caminhos mais complexos.

Roberto, por exemplo, é adepto de outra filosofia espiritual, e carrega também em si alguns grilhões. Em outras vidas, diz-se que foi rei, escritor, professor. Mentor nato, responsável por cada palavra proferida e por uma missão engendrada na lógica da boa atitude, Roberto interiorizou uma educação baseada no binarismo, que avalia tudo sob a perspectiva do certo e do errado e, portanto, da punição para os equívocos da existência.

Para piorar o quadro, tanto Lucy quanto Roberto são "casados com os pais" e, além de morar com eles, vivem o drama próprio de quem teme insurgir-se contra as expectativas familiares. Cuidar da família é um valor importante mas sacrificar a liberdade pessoal em nome apenas da manutenção de expectativas alheias pode servir apenas para garantir a ilusão de que se está no caminho certo.

Lucy não só se especializou em sexualidade humana para ajudar pacientes a também desconstruir padrões, como se especializou num tipo de "subversão": do mesmo modo que auxilia pessoas desesperadas - quando enfrentam dilemas morais - a buscar compreensão, tomou o namorado como alvo do seu "trabalho" pessoal. Segundo ela, passados os três primeiros meses de relacionamento nos quais eles fizeram muito sexo e práticas consideradas "duvidosas" sob a lente do tal sexo "normativo", o namorado encaretou. Como vivem com suas famílias, o sexo acontece pouco e, quando ocorre, é cheio de não-me-toque; fale baixo que a mãe vai ouvir; isso não, aquilo também não.

Ela me descreve como dá um jeito de deitar-se com o bumbum arrebitado bem no campo de visão do namorado - e, como quem não quer nada, diz estar exausta, esperando - é óbvio -, que ele venha cansá-la mais um pouquinho. Ela se diverte quando ele começa a tentar conter o impulso por meio de um "fale baixo", "agora não"... E ela - sempre manhosa - vai conseguindo dele o que deseja, na esperança de resgatar o homem "transudo" que ele já foi um dia.

É curioso como Lucy se apropriou do conflito aprendido na Igreja e como, agora, se vê do outro lado, numa missão exatamente contrária. Com os não-me- toque do namorado, ela acaba também garantindo o controle do seu próprio tesão. Sabe Deus - se ela fosse totalmente livre -, onde iria parar!