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Ana Canosa

Convivendo com o tesãozinho: o drama que atinge alguns recém-casados

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

03/11/2020 04h00

Henrique tem 34 anos, é simpático, conversador e reflexivo, acometido por um transtorno ansioso que recentemente lhe tirou o chão. Ele se queixa de desejo sexual hipoativo, ou seja, falta de vontade de transar. Além disso, está sofrendo com uma perda de ereção, que resolveu acontecer logo depois da sua despedida de solteiro, pouco tempo antes do casamento.

A festa do casório, há dois anos, foi quase que inteiramente produzida por ele, já que a noiva, na época, andava ocupada com o trabalho e tinha dificuldade de estar presente nas reuniões com os fornecedores. Mas de jeito nenhum isso foi um problema, pois ele ama um evento e a festa foi do jeito que eles sonharam.

Henrique e Luciana estão juntos há bastante tempo e tem uma relação de intimidade emocional e uma convivência bastante gostosa. Porém, embora o sexo entre eles seja satisfatório e de qualidade, começaram a ter uma diminuição na frequência, aquela coisa básica que acomete os casais quando passam a coabitar, até que foi ficando uma raridade e passou a ser "o" problema do casal.

Não que Luciana pressione Henrique. Ela gosta de sexo, tem desejo, mas não está "desesperada", embora tenha convicção que não quer um casamento sem sexo. Aliás, ela me diz que, mais do que sexo, ela adora abraçar e beijar, se enroscar no sofá com o marido. Mas como o sexo virou uma questão, eles também pararam de namorar e ela não sabe mais o que fazer: se avançar, ele pode se intimidar; se recuar, ele também não vem.

Para não se alarmar, lança mão do que apendeu sobre si mesma quando viveu uma fase difícil diante de um desesperador "nada", um grande esvaziamento emocional, que ela conheceu na adolescência, elaborou e aprendeu a administrar e que hoje não lhe desespera mais.

Ela entende que o marido possa estar muito assustado com a própria angústia, que ele é muito ansioso e que a broxada de dois anos atrás talvez o tenha tirado totalmente do prumo. Mas tudo tem limite, né, minha gente, e ela sugeriu que Henrique buscasse ajuda.

Pior do que o problema é como a gente pensa e fala do problema. Uma baixa de desejo, dependendo da pessoa, pode simplesmente ser encarada como uma fase. Para outra, representar a falência de um casamento. Henrique é o tipo da pessoa que, ao deparar-se com um conflito, começa a questionar a razão da existência e perde a bússola.

Ao procurar ajuda especializada, ele tinha dezenas de dúvidas: se era homossexual, mesmo não tendo nenhum desejo por homens, se não gostava mais de Luciana, mesmo a amando, se não tinha mais desejo por ela, embora a achasse extremamente atraente, se queria ser solteiro, mesmo que apreciasse demasiadamente a vida de casado.

Colocava lente de aumento em qualquer situação mais usual e, ao não encontrar lógica, tornava o pensamento uma obsessão. Minha pergunta para ele, logo no início do trabalho era: "Até onde você precisa ir para se convencer de si mesmo?" Como qualquer pessoa ansiosa, não dava tempo para processar sensações e emoções sem entrar no turbilhão.

Esquadrinhamos sua experiência sexual, que não era nula, mas também não era muita e descobrimos um jovem com iniciação sexual aos 19 anos e uma broxada fenomenal, que lhe rendeu vergonha e a espera de um ano até a próxima tentativa, que também não foi lá grande coisa.

Ele precisou de um tempo de intimidade com a namorada da época para se livrar do problema. Sim, pode ser que a broxada dias antes do casamento com Luciana, tenha acionado a maldição. Mas foi só a cereja do bolo para disparar os pensamentos tortos e afastá-lo de vez de toda e qualquer tentativa de sexo, que já estava decaindo antes disso.

Henrique é movido por eventos. Sua energia está no grupo de amigos, no planejamento de viagens, na promoção que ele terá, no salário que vai ganhar. Até quando está descansando sua cabeça não para de planejar. O sexo sempre aconteceu dentro de um contexto dinâmico. Quando ia para uma balada, por exemplo, ele não tinha como objetivo encontrar uma parceira sexual, mas ouvir música, estar com os amigos, conversar, dançar.

O sexo, quando acontecia, era consequência de tudo isso. O problema foi que, seu último grande evento fora a própria festa do casamento, e daí a vida entrou no modo adulto de ser. Sim, ele ama a rotina e o aconchego do casamento, ele reconhece que está tudo bem e o problema não é falta de desejo na parceira.

Como ele está sempre um passo depois e agora o depois é um grande ponto de interrogação, já que não tem um grande evento pela frente, o "nada" o angustia. Henrique não sabe reconhecer e valorizar o tesãozinho do dia a dia, o sexo preguiçoso, o ritmo inconstante dos casais: ora muito, ora pouco e tudo bem.

Mas o que nos ajudou nessa descoberta do caminho da sua pulsão sexual foi que ele passou um final de semana às voltas com o casamento de uma grande amiga, cuja cerimônia ele mesmo conduziu. Seu tesão ressurgiu a mil, assim que começou a se ocupar das coisas, vencendo o receio de "ter que transar" quando chegaram ao local. Dormiram no hotel do evento e fizeram sexo não só uma mas três vezes durante o final de semana. Diz ele que Luciana chegou a sentir saudades de recusar.

Mas o que eu achei especial foi que, ao assistirem ao casamento da amiga, Henrique e Luciana inconscientemente refizeram os próprios votos, fazendo sexo novamente como quem diz para o outro: está tudo bem, eu te desejo e escolho você de novo.

Espero que essa experiência finalmente o convença.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.