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Ana Canosa

A 1ª vez que ela viu pênis do namorado foi com sonda na uretra -e deu match

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Imagem: Getty Images
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Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

27/10/2020 04h00

Márcia tem 63 anos, três ex-maridos, filhos e netos. Sempre foi independente e generosa, do tipo mãezona, disponível para ouvir e ajudar quem precisa. Não se formou médica à toa. Dotada de um bom humor invejável, faz o cotidiano parecer simples, pois sempre ri das próprias dificuldades. Encara o envelhecimento com naturalidade, é uma mulher linda, com cabelos prateados que lhe emolduram o rosto sorridente. Boa de papo, arrumou um date com uma amiga da aula de pilates, que tinha um parente que era "o seu número". Não que Márcia estivesse atrás de um parceiro, mas não era mulher de recusar um chamego, ainda mais se o pretendente era assim tão bem recomendado.

Um ano se passou até que Henrique, 74, viesse visitar a amiga do pilates e finalmente pudesse conhecer Márcia. A propaganda de ambos já tinha sido feita e, ela foi tomada por pensamentos do tipo: e agora, onde eu coloco a minha barriga, as minhas rugas? Henrique telefonou e eles tiveram uma conversa alegre e agradável. Marcaram um jantar.

Embora os amores da terceira idade sejam menos idealizados, ainda assim é uma delícia ser tomado por uma expectativa diferente que não seja o nascimento de mais um neto. Quem não gosta de se sentir interessante e desejado?

No dia do encontro, Márcia colocou um vestido de flores e um colar vermelho. Ela, que é dotada de um apelo sexual brejeiro, passou a manhã caçando dentro das bolsas uma carteira mais bonitinha, melhor do que a surrada do dia a dia. Imagina o que o homem ia pensar quando ela sacasse a carteira para pagar metade da conta do restaurante?

Meia hora antes do horário combinado, o Henrique ligou. Disse com pesar que teria que cancelar o encontro, pois estava com a urina "trancada", não conseguia fazer xixi de jeito nenhum e ia para o pronto-socorro. Quando a Márcia soube que ele ia sozinho, se ofereceu para acompanhar, como médica podia ajudar.

Combinaram de se encontrarem no centro da cidade, cada qual no seu próprio carro, que ela não era mulher de sair no carro de desconhecido. Quando viu aquele velhinho magrinho, de barbinha branca, vestindo bermuda e uma camiseta básica bem branquinha, mas com a gola toda puidinha, e incríveis botas de fazendeiro nos pés, seus olhos brilharam mais do que tudo.

Por que nos atraímos sexualmente por uma determinada pessoa é um mistério. O fato é que existem três mecanismos básicos da atração sexual: há quem se encante pelo tipo físico, quem se encante com o "jeito de ser" do outro e os que se apaixonam pelo intelecto. Márcia foi arrebatada pela maneira despojada de Henrique e ali toda e qualquer defesa se desfez.

Partiram para o pronto-socorro. Combinaram que, se alguém perguntasse, Márcia se faria passar por sua irmã. Não só acompanhou Henrique, mas, como médica, foi autorizada a entrar na sala de procedimentos e acompanhar o momento em que passaram a sonda pela uretra do homem, para liberar-lhe a urina. Que maneira, minha gente, de conhecer o pênis de um pretendente no primeiro encontro.

Se tem uma coisa boa na maturidade é libertar-se do julgamento alheio. Não dá para esperar que uma relação sexual nessa fase da vida seja sem desafios. Às vezes é a coluna ou o joelho que atrapalham, a parede fina da vagina que dói, outras é a ereção que não se sustenta. Sem contar as medicações, não é mesmo?

Mas a sexualidade na terceira idade pode ter uma grife de sabedoria, que não deve deixar-se perturbar por possíveis entraves corporais em seu natural processo de envelhecimento. À medida que amadurecemos compreendemos que o sexo não é só resposta do corpo, mas também do espírito e da criatividade humana.

Henrique saiu lépido e faceiro do hospital, aliviado que estava e decidiram seguir para jantar. Engataram um romance, vivido a distância, pois ele morava em outra cidade. Viam-se a cada 4 meses e desfrutavam da companhia um do outro por uma semana. Acometido por um câncer de próstata, por isso a dificuldade de urinar, Henrique passou por uma operação e, infelizmente, passou a ter problemas com a ereção.

Mas como não eram um casal de se intimidar com esse tipo de coisa, amavam-se sobre os lençóis, abusando de carícias, abraços e beijos. Ela sempre me disse que ele fazia um sexo oral incrível o que a deixava completamente satisfeita. Mas, com o avançar da idade ele começou também a ficar esquecido e lentificado, mas a sábia Márcia aproveita os momentos de prosa e o aconchego dos cochilos depois do almoço. Aliás, o maior problema que ela via nele, era o fato de ele adormecer várias vezes ao dia.

Chegou um dia a dormir fazendo sexo oral nela, prática que ela passou a evitar nos últimos encontros, com medo de que, numa dessas, ele lhe mordesse o clitóris. Nunca se sabe.