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Ana Canosa

Ele quer ser penetrado pela mulher, mas teme o preconceito dela

South_agency/Getty Images/iStockphoto
Imagem: South_agency/Getty Images/iStockphoto
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

22/10/2020 04h00

Tenho 41 anos, casado há 7 anos, hétero. Gosto de ler e aprender sobre sexo e acredito que a busca do prazer melhora nossa relação com o mundo e nossa intimidade no casamento. Eu, por curiosidade e buscando prazer, comprei e usei um massageador de próstata, e tive um orgasmo incrível. Queria dividir isso com minha esposa e até mesmo usar o massageador com ela, mas tenho vergonha e receio de que ela pode me achar gay ou julgar que nossa relação não está satisfatória (e é ótima !!!). Mas quero poder falar isso com ela. (ela tem uns dez toys dela e usamos na nossa transa). Como abordar este tema com minha esposa?


Eu entendo o seu receio. Embora a anatomia do ânus e do reto seja a mesma para homens e mulheres e saibamos que é uma região cheia de terminações nervosas, bastante excitável quando estimulada, falar sobre o assunto ainda é difícil, sobretudo para os homens.

O nojo, como uma emoção instintiva, é o principal aspecto restritivo. Eu gostaria que você levasse em conta esse ponto ao conversar com ela, pois conheço muitas mulheres e homens que não se sentem à vontade para favorecer uma penetração anal independentemente da orientação sexual, mais por uma aversão à prática.

Agora, avaliemos a prática anal sob o ponto de vista social. Certamente que passará pela cabeça da sua companheira que você pode ser gay. Difícil a gente estar livre do atravessamento cultural que associa o penetrado ao papel de submissão sexual delegado às mulheres, para isso é preciso fazer esforços e vencer barreiras.

Homens gays são constantemente entendidos, na sociedade heteronormativa, como "mulherzinhas", fruto do preconceito e da ignorância. Primeiro que atração sexual (desejo por alguém) não é o mesmo que identidade de gênero (sentir-se como); segundo que enganam-se os que acham que o sexo anal é a prática exclusiva entre homens que fazem sexo com homens (muitos não curtem); terceiro que passividade e atividade tem menos relação com ser penetrado e penetrar, mas com um conjunto de comportamentos e sentidos, o que esbarra na torta visão sobre privilégios do que chamamos de masculinidade hegemônica.

Homens demoram a perceber que a sexualidade masculina também está submetida às ordens do patriarcado: as crenças giram em torno de terem que ser desejantes acima de tudo, de que não devem recusar sexo em nenhuma situação, não podem broxar, não podem ser "passivos", blá, blá, blá. Uma chatice sem tamanho. Qualquer discussão nesse sentido em uma roda de homens cis heterossexuais já vira piada de gay e não vai adiante.

E lembremos que a sua companheira também está inserida nessa cultura e que portanto, ela pode demorar um pouco até dissociar entre você sentir-se atraído por homens e vontade de fazer o pegging (nome da prática em que homens hétero desejam ser penetrados com dildos por suas parceiras), mesmo que você deixe claro que a deseja. Há uma diferença enorme entre querer que seja ela ou que seja um homem a assumir a ação.

Ao conversar com sua esposa, se assim você decidir e no caso dela ser exclusivamente heterossexual, inverta a situação: pergunte se ela gostaria de que fosse uma mulher que lhe fizesse sexo oral ou brincasse com os vibradores no corpo dela. É a mesmíssima coisa. E se ela ainda admitir que a ideia de uma mulher brincar com ela sexualmente a agrada, mais um motivo para questionarem juntos porque a sua sexualidade deve estar restrita a convenções sobre orientação sexual e a dela não.

De maneira muitíssimo estranha e inconsistente, boa parte dos homens deseja fazer sexo anal, como penetrante, mas faz questão de recusar o contrário, mesmo que tenha vontade. Daqui do meu lado, fico pensando: ou tem consciência que o sexo anal pode doer, caso não seja realizado com cuidado, ou tem medo de gostar e o receio de ser considerado gay grita dentro do peito.

Além disso a função recreativa da próstata é um tema controverso. Não há consenso científico de que a estimulação prostática por si só provoque prazer, embora haja uma centena de relatos como o seu garantindo que, durante a penetração, a próstata seria esse órgão responsável por um plus de prazer quando tocada, e que, depois de certo tempo de prática com seus estimuladores, provoca orgasmos intensos.

Por outro lado, como há escassez de estudos específicos, muitos especialistas dizem que isso é fruto do prazer geral da penetração de toda a região do ânus e reto, e não da glândula em si.

Como prazer sexual envolve várias dimensões, principalmente a motivação para sentir prazer, pode ser um conjunto de coisas, o que aproxima mais ainda a ideia de que homens e mulheres teriam sensações assemelhadas nas práticas penetrativas anais, portanto se concebemos a ideia de que mulheres podem curtir, porque homens não poderiam?

Aliás, você traz outro aspecto bem interessante para dialogar com sua esposa: se a mulher pode ter vários toys para estimular suas diferentes regiões genitais, por que raios então você não tem o mesmo direito?

Por fim, meu caro, partilho com você, com tristeza no coração, da indignação de como um casal que se dá bem na vida e na cama, se limitará à essa experiência de prazer por puro preconceito. Sugiro que você, inclusive, observe se a sua resistência em conversar com ela não é muito mais o seu medo de ser considerado gay, como você mesmo disse, mas projetado nela. Será que de verdade ela vai ficar assim tão incomodada?

Vai que a sua esposa adora uma novidade e está disponível para experimentar? Em caso negativo, tenha paciência, pois é legítimo que ela ache estranho, que se sinta esquisita, que não esteja acostumada, que sinta até um pouco de nojo, mas não desista de colocar seu ponto de vista e dê-lhe tempo para se acostumar com a ideia. Afinal, havemos de ter motivos suficientes para justificar porque vale a pena a intimidade sexual no casamento.

Quer que Ana Canosa analise sua dúvida em sua coluna? Mande perguntas para universa@uol.com.br com o assunto #sexoterapia. Mantemos o anonimato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.