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Ana Canosa

Ele transou com várias na quarentena, mas gostou mesmo da que lhe disse não

EyeEm/Getty Images
Imagem: EyeEm/Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

07/07/2020 04h00Atualizada em 07/07/2020 14h48

André e Joana me procuraram porque eles estão sem sexo faz mais de ano. Ela tem um perfil reativo: obstinada, com senso de responsabilidade aguçado, pouco carinhosa e racional. Já André adora um romance, contato físico e está sempre pensando no relacionamento. Joana tem maior dificuldade de fazer sexo.

Para ela, que sofreu com o jeito muito tímido e foi iniciar a vida sexual já na casa dos 20 anos, o sexo é um enfrentamento de barreiras: começa na expressão do desejo, que ela não sabe fazer, segue no contato físico, que ela tem aflição, passa pela vergonha do corpo nu, que ela tenta esconder e chega no medo de perder o controle, que a faz ter dificuldade de se entregar para o prazer.

André se sente traído: onde está aquela mulher que fazia sexo no início da relação? "Não existe, ou talvez exista lá dentro de mim, em algum lugar que eu não sei bem onde."

Verdade seja dita: Joana nunca foi a mais desejante das mulheres, mas, ao menos no começo, ela não era tão resistente. Nos contou que ela tentava cumprir um script pois sabia que era isso que esperavam dela. Mas depois, quando a relação se estabilizou, ela foi se "desobrigando".

André passou os últimos anos tentando de tudo: conversas, seduções, cenários românticos, pegadas calorosas, silêncios intermináveis, tristezas profundas, até que começou a ter ataques de raiva por qualquer assunto banal. A terapia foi a cartada final.

Trabalhamos bastante sobre o significado do sexo para cada um deles, a história familiar, as vivências anteriores. Os medos, as motivações. Fizeram exercícios de aproximação sexual e Joana chegou mesmo, em uma transa, a segurar com orgulho o membro do marido, curtindo todo o significado erótico da cena.

Mas, aos poucos ela foi fazendo como no início da relação com André: passou a aproveitar qualquer justificativa cotidiana para não se envolver mais no processo.

Como o casal vive bem, cuidam um do outro e se sentem felizes, para resolver o impasse decidiram abrir a relação, principalmente para favorecer o sexo para André. Chegou a pandemia e, já que o marido é médico, Joana se mudou para a casa da mãe, em outra cidade. André, dando de ombros para as restrições físicas, resolveu aproveitar a situação.

Usando apps de encontros, fez mais sexo nos últimos dois meses do que nos últimos dois anos. Foi exercitando seu poder de sedução, avaliando o quanto se sentia desejado e capaz de fazer sexo casual.

De mulheres casadas, divorciadas, mais jovens e mais velhas ele foi me contando o que estava achando da experiência. Arrumou defeito para cada uma delas, ou físico ou de personalidade ou criticou o comportamento sexual. Teve a que já chegou tirando a roupa e ele achou atrevida demais, a que pediu para ir ao banheiro e vomitou de tão alcoolizada que estava. Teve a que exigiu que ele lhe pagasse o Uber já que ele meio sem tesão, se recusou a transar.

Teve uma que, a certa altura do campeonato, tirou da bolsa uma cinta-pau para penetrá-lo sem dó nem piedade. Teve a que uivou tanto durante o sexo que deixou o condomínio em polvorosa, provocou uma reunião extraordinária via zoom e acabou em uma multa bem salgada (inveja, André, inveja) Ah, e teve uma que tinha se banhado de álcool gel aromatizado, cujo odor penetrou nas suas narinas e afetou seu olfato por dias.

"Mas não teve nenhuma experiência interessante?", perguntei. "Sim, uma mulher meio enigmática, tímida e complexa", com quem ele ficou algumas horas conversando. Havia nela um olhar sem jeito e envergonhado. Chegaram a roçar os joelhos no sofá, mas na hora que ele sugeriu com o corpo um avanço singelo, ela botou a culpa na pandemia e foi embora.

"Você está me dizendo que a única que lhe chamou verdadeiramente a atenção foi justamente a que não fez sexo com você?", perguntei

Ah, André, você é a prova viva de que, nas queixas sexuais dos casais, o problema nunca está em um deles apenas. Ao se deparar com a percepção de que se interessa mesmo por quem lhe recusa o sexo, nos resta investigar se ele não é a coisa mais importante da sua vida, ou se é a recusa que te move e te põe a passar o resto da vida mendigando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.