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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'1ª prefeita de Boston deve ser comemorada, mas também gerar indignação'

Michelle Wu, eleita prefeita de Boston, nos EUA - Divulgação/Instagram/@wutrain
Michelle Wu, eleita prefeita de Boston, nos EUA Imagem: Divulgação/Instagram/@wutrain
Hannah Maruci Aflalo

Hannah Maruci Aflalo

Doutoranda e mestre em Ciência Política pela USP, professora de Ciência Política na UFRJ e co-fundadora d'A Tenda das Candidatas

Colaboração para Universa

05/11/2021 04h00

Nessa semana, chamou a atenção mundial a eleição da primeira prefeita para governar a cidade de Boston (EUA), Michelle Wu, de origem taiwanesa, após 200 anos consecutivos de homens brancos ocupando essa posição, o que deve ser comemorado.

No entanto, também deveria gerar indignação uma cidade de tamanha magnitude internacional ter sua primeira mulher eleita apenas em 2021. A ausência na política de mulheres e de grupos minorizados em geral é, ao mesmo tempo, causa e consequência da violência política de gênero e raça.

Elas estão em baixíssima porcentagem porque o caminho para chegar lá é tortuoso e marcado pela violência política. O fato de estarem em baixa proporção perpetua a ideia de que esse não é o lugar delas, alimentando, assim, a violência que as expulsa desse ambiente.

A violência política atinge todas as mulheres. Da decisão de participar da política e desafiar acreditando que aquele é seu lugar, passando pela campanha, pelas eleições e, também, após serem eleitas.

Essa violência assume inúmeras formas, das mais óbvias e desprezíveis — como xingamentos, ameaças, agressões físicas e até o feminicídio político — às mais sutis, mas nem por isso menos danosas, como o descrédito, o desencorajamento, a falta de investimento político e financeiro.

Esse último, que fala sobre investimento, se dá principalmente por uma instituição que deveria ser promotora das candidaturas de mulheres: os partidos políticos.

'Partidos ainda enxergam mulheres como laranjas'

Atendo-nos ao momento da campanha, trago a experiência de ter formado 300 mulheres e mentorado 10 nas eleições de 2020. O que posso afirmar, sem medo, é que a falta de investimento financeiro e político é uma violência gravíssima desenvolvida sistematicamente por parte dos partidos políticos.

Isto porque essa ausência esconde uma manipulação emocional prévia, quando o partido necessita daquelas mulheres para cumprir as cotas, ainda tão baixas, de 30% em sua lista de candidaturas. Nesse momento, são prometidos mundos e fundos, que depois são esquecidos pelos dirigentes partidários, em sua maioria homens brancos, no período de campanhas.

Não são esquecidos por elas, que estão ali como verdadeiras candidatas, lutando para participar de forma digna da competição eleitoral. Mas, na prática, elas são enxergadas pelo partido como laranjas.

O dinheiro não entra, o apoio não vem, a mulher não é eleita e sai da competição traumatizada e, muitas vezes, com dívidas contraídas com base na esperança de que aquele dinheiro iria entrar.

O que isso diz pra essa mulher? Que a política não é o lugar dela e que foi um erro acreditar no contrário. Por isso, ressalto que a violência política é a principal barreira à participação de mulheres na política institucional.

Mulheres negras e trans são mais atingidas por violência

A violência política não atinge a todas as mulheres de forma igual. O marcador de gênero se relaciona com o de raça, de forma a tornar a violência ainda mais avassaladora. É por isso que precisamos, a todo o momento, fazermos a nós mesmas e aos nossos interlocutores a pergunta, simples mas crucial, enunciada por Patricia Hill Collins: "A que mulher você se refere?".

Se 2020 trouxe um novo recorde de mulheres negras e trans eleitas, trouxe também o recorde no índice de violência contra essas mesmas mulheres.

Pesquisa do Instituto Marielle Franco, feita com mulheres negras e divulgada em dezembro de 2020, entrevistou 142 mulheres negras de 21 estados em todas as regiões do Brasil e de 16 partidos. Do total, 80% das candidatas negras sofreram violência virtual, 60% sofreram violência moral ou psicológica e 50% sofreram violência institucional.

Das entrevistadas pela pesquisa, 18% receberam comentários e/ou mensagens racistas ou sexistas em suas redes sociais, por e-mail ou aplicativos de mensagens, e 8% foram vítimas de ataques com conteúdo racista durante transmissões virtuais.

Vimos mulheres negras solicitando escolta por terem suas vidas ameaçadas pelo simples fato de estarem fazendo aquilo para o que foram eleitas. Assim como vimos o silenciamento de Marielle Franco inúmeras vezes antes de seu assassinato.

Entre as mulheres trans, em menos de dois anos, vimos a casa de uma vereadora ser alvejada com tiros, outras deixando o país por causa de ameaças de morte e o silenciamento delas como parlamentares eleitas.

Não podemos assistir a essa situação esperando o pior acontecer. Nós sabemos aonde essa violência política chega e o que ela leva no caminho. Ela culmina na eliminação das mulheres, principalmente negras e trans, da política institucional, e essa eliminação pode se dar, como já presenciamos, por meio da morte dessas mulheres.

Mais trans, indígenas e com deficiência

Precisamos eleger mais mulheres negras, trans, indígenas para que ocupem esses lugares que são seus. Estamos trabalhando para isso, mas elegê-las não é o suficiente. Precisamos garantir sua segurança, precisamos garantir que poderão legislar e governar sem interferências por seu gênero e raça, que poderão falar enquanto eleitas.

Mais do que isso, precisamos garantir que estejam vivas, que não temam o tempo inteiro por sua segurança e de suas famílias. Precisamos não apenas de leis que reconheçam a violência política de gênero e de raça, mas de práticas que se oponham a isso não apenas na política, mas em toda nossa estrutura social, que é racista, machista e transfóbica.

Por isso, precisamos urgentemente que essas mulheres façam parte da formulação de ambientes como esse para que possamos agir ativamente contra a violência política de gênero. Essas mulheres precisam ser ouvidas, essas mulheres precisam estar aqui.

Assim, reitero a necessidade de se trazer o ponto de vista mais importante e crucial para tratar desse tema: a visão das candidatas, das mulheres eleitas, das mulheres negras, trans, indígenas e com deficiência, que são as mulheres que nós treinamos e queremos ver na política.

A Tenda das Candidatas é uma organização que atua para capacitar e formar mulheres, sobretudo negras, indígenas e LBTQIA+, para a política. A aula magna de lançamento da formação que irá capacitar 102 lideranças de todos os estados do país ocorreu no dia 4 de novembro, com a presença de Anielle Franco, e pode ser assistida por meio desse link.

*Hanna Maruci Aflalo é doutoranda e mestre em Ciência Política pela USP, professora de Ciência Política na UFRJ e co-fundadora de A Tenda das Candidatas. O texto acima foi adaptado de sua fala na audiência pública "Violência Política Contra a Mulher", realizada pelo Conselho Nacional do Ministério Público, no dia 4 de novembro de 2021.