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240 milhões de anos depois: cientistas descobrem caso de câncer mais antigo

Câncer foi descoberto em fóssil de réptil - Brian Engh via The New York Times
Câncer foi descoberto em fóssil de réptil Imagem: Brian Engh via The New York Times

Asher Elbein

23/02/2019 04h00

Por certo, o paciente nunca soube de onde vinha aquela dor, nem por que sua perna esquerda havia parado de funcionar. O diagnóstico chegou 240 milhões anos mais tarde, quando um fêmur foi achado no leito de um antigo lago na Alemanha, com um dos lados marcado por um tumor maligno.

O câncer raramente aparece em registros fósseis, e sua história entre os vertebrados é mal compreendida. No início deste mês, um artigo de uma equipe de pesquisadores em "JAMA Oncology" descreveu o fêmur como o mais antigo caso conhecido de câncer em um indivíduo do grupo amniota, que inclui répteis, aves e mamíferos.

Os cânceres modernos são frequentemente diagnosticados por meio de exames de tecidos moles ou biópsias, o que dificulta encontrá-los em fósseis frios e duros. Nesse caso, é preciso ter sorte.

"No que se refere à nossa compreensão do câncer no passado, estamos realmente apenas no início", disse Michaela Binder, bioarqueóloga do Instituto Arqueológico Austríaco, que pesquisa o câncer em humanos antigos. "Ninguém se dedica a estudar o câncer em tartarugas antigas ou em fósseis de mamutes, porque temos pouquíssimas evidências."

A descoberta do fêmur foi um golpe de sorte. Originalmente coletado por Rainer Schoch, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, o osso pertencia a um animal de cauda longa, chamado Pappochelys, um parente sem casco das tartarugas modernas.

O fêmur e seu crescimento irregular chamaram a atenção de Yara Haridy, ex-aluna de medicina e hoje paleontóloga do Museu de História Natural, em Berlim.

Segundo Haridy, enquanto muitos paleontólogos procuram os restos mais limpos - ou pelo menos mais representativos -, as marcas deixadas por doenças e lesões também podem explicar um pouco da vida dos animais antigos. O estudo de tais fósseis é chamado de paleopatologia, e combina aspectos modernos da medicina forense e de práticas médicas.

"Faço basicamente um processo de eliminação, que é como os diagnósticos em seres humanos funcionam. Você vai da possibilidade mais geral para diagnósticos mais específicos e realmente estranhos", disse Haridy.

Ela e seus colegas trouxeram o fêmur para o dr. Patrick Asbach, radiologista no Charité, um hospital universitário em Berlim. Examinando uma microtomografia computadorizada do osso, os pesquisadores passaram por uma lista de verificação das possíveis causas.

"Se você olhasse por fora, poderia facilmente pensar que este era um osso incorretamente curado. Inicialmente, achei que o animal tinha uma cabeça femoral quebrada ou algum tipo severo de problema na tíbia", disse Haridy.

Os ferimentos curados são o tipo mais comum de patologia fóssil; contudo, os exames mostraram que, sob o crescimento, o osso estava intacto. Então Haridy considerou outras possibilidades. Uma anomalia congênita existiria de ambos os lados do fêmur, não de um só. E, mesmo que o atrito e a pressão excessiva possam causar crescimento ósseo, o fêmur é protegido por músculos.

Sobrou apenas a possibilidade de doença. Mas a maioria das doenças desgasta o osso em vez de aumentá-lo, ou leva a infecções que afetam camadas inferiores.

Os tumores benignos podem às vezes crescer nos ossos, mas tendem a se originar na cartilagem e têm um aspecto completamente diferente: "Eles ou produzem um monte de cartilagem ou começam a realmente reabsorver o osso", disse Haridy.

A equipe identificou o inchamento como um osteossarcoma, um tipo de câncer ósseo encontrado também nos seres humanos. De acordo com a Organização Nacional para Doenças Raras, de 750 a mil casos são diagnosticados nos Estados Unidos anualmente.

A falta de evidências de câncer pré-histórico chegou a levar os pesquisadores a especular que a doença seria um fenômeno moderno relacionado com a vida pouco saudável, ambientes cheios de poluentes ou maior expectativa de vida. Outros especialistas sugeriram a presença possível de um gene supressor de tumores nos vertebrados, cuja falha permitiria que os tumores benignos acabassem se tornando metástases. Porém, com a ausência de evidências fósseis, não havia nenhuma prova.

Além da incerteza, algumas linhagens animais parecem menos suscetíveis ao câncer que outras: crocodilos e alguns outros répteis, juntamente com tubarões e ratos-toupeira, raramente são incomodados pela doença, e os tumores dos invertebrados não se assemelham muito aos dos vertebrados.

Ainda assim, há outros achados recentes que sugerem a antiguidade do câncer. Em 2001, uma equipe de paleontólogos russos identificou um possível osteossarcoma craniano em um anfíbio do início do período Triássico, enquanto um tumor benigno de mandíbula de um precursor de mamíferos de 255 milhões de anos foi relatado em 2016.

"O que torna isso muito legal é que agora entendemos que o câncer é basicamente um interruptor profundamente enraizado que pode ser ligado ou desligado", disse Haridy. "Não é algo que aconteceu recentemente em nossa evolução. Não é algo que aconteceu no início da história da humanidade, ou mesmo na história dos mamíferos."