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Você seria capaz de fazer mal a alguém para obedecer a uma ordem?

Que tipo de ordem você é capaz de obedecer? Depende de quem ordena e do contexto - Getty Images/iStockphoto
Que tipo de ordem você é capaz de obedecer? Depende de quem ordena e do contexto Imagem: Getty Images/iStockphoto

Cristiane Capuchinho

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/06/2019 04h00Atualizada em 10/06/2019 09h15

Até onde pessoas comuns são capazes de ir para obedecer às ordens de uma autoridade? Elas podem fazer mal ao outro por obediência?

Em 1961, o ex-oficial nazista Adolf Eichmann foi a julgamento em Jerusalém por seu papel central na logística do extermínio de milhões de judeus em campos de concentração na Alemanha. Diante da corte, Eichmann alegava que era apenas um funcionário obedecendo a ordens e, por isso, não deveria ser responsabilizado pelas decisões. O argumento de obediência cega não livrou Eichmann de punição, e o alemão foi condenado à morte.

No início dos anos 1960, o psicólogo Stanley Milgram convidou pessoas a fazerem parte de um experimento científico na Universidade de Yale. A pesquisa era uma tentativa de colocar em teste a obediência à autoridade sobre valores éticos.

Os envolvidos pensavam participar de uma pesquisa que testaria a memória de alunos diante de eletrochoques. O suposto aluno deveria rememorar combinações de palavras. A cada resposta errada, os participantes -que tinham o papel de professores-- deveriam aplicar choques cada vez mais fortes no aluno que estava em outra sala. As tensões aplicadas variavam entre 15v (leves) e 450v (gravíssimos).

O "aluno", na verdade, era alguém que fazia parte da equipe de pesquisa e não recebia choques, mas fazia barulhos e gritava como se estivesse realmente sendo eletrocutado. Ou seja, os participantes do experimento acreditavam que os choques funcionavam.

Em uma sala com o pesquisador, o participante dava o comando para eletrochoques no "aluno" que estava em outra sala - Reprodução
Em uma sala com o pesquisador, o participante dava o comando para eletrochoques no "aluno" que estava em outra sala
Imagem: Reprodução

Nesta situação, quantas pessoas chegaram aos níveis mais altos de eletrochoque? A maioria (65%) dos 40 participantes aplicou os choques mais fortes. E mais, todos os participantes aplicaram choques de, ao menos, 300 volts -o que era descrito em uma mensagem na máquina como choque intenso.

Após a aplicação do choque de 300 volts, a "vítima" chutava a parede e não respondia mais às perguntas de alternativas múltiplas. Mesmo assim, 26 participantes continuaram a aplicar descargas cada vez mais intensas até o limite de 450 volts.

Assustador? Os participantes dos controversos experimentos de Milgram entravam no que se chama de estado agêntico, em que a pessoa acredita estar apenas executando ordens sem ter responsabilidade por suas consequências.

Quando o participante tentava interromper os choques, ele recebia uma série de estímulos verbais ditos por um pesquisador para que continuasse. E, nesta situação, a maioria foi até o final.

Em vídeos do experimento, é possível ver que os participantes sentiam mal-estar em participar do teste - Reprodução
Em vídeos do experimento, é possível ver que os participantes sentiam mal-estar em participar do teste
Imagem: Reprodução

Obediência à autoridade

De volta à questão principal, a que tipo de ordem você é capaz de obedecer mesmo se isso significar o mal do outro? Essa resposta, conforme pesquisadores de psicologia social, depende de quem dá a ordem e em qual contexto.

Os experimentos de Milgram foram feito na universidade de Yale, respeitada entidade de pesquisa e de conhecimento, o que já garante certa autoridade aos pesquisadores.

Como explica Milgram em seu artigo de 1963, os participantes acreditavam que os choques eram doloridos, mas não perigosos. Além disso, continua o pesquisador, os participantes assumiam que os efeitos da tensão elétrica são momentâneos e os resultados da pesquisa científica são duradouros.

Milgram repetiu o experimento com pequenas diferenças ao menos 21 vezes, com 740 participantes. Considerando todos os experimentos, 43,6% dos participantes infligiram choques das mais altas tensões em suas vítimas.

Em 2014, pesquisadores da Universidade de Melbourne usaram os dados de todos os experimentos para tentar definir os fatores que mais influenciaram os participantes a continuarem a dar choques em seus "alunos" no nível mais alto de tensão (450 v).

O artigo com a revisão de dados, publicado na revista PLos One, destacou como fatores que influenciavam na decisão de aceitar as ordens, ou se negar a obedecê-las, pontos como a clareza das ordens, a legitimidade do pesquisador que conduzia o experimento, a proximidade e a intimidade entre que o participante e o "aluno" e a distância entre o participante e o pesquisador.

Os experimentos feitos por Milgram na década de 1960 são questionados hoje em relação à ética de pesquisa, já que os participantes se sentiam mal e passavam por grande estresse por estarem causando dor com choques perigosos em um desconhecido --ainda que sentissem isso, muitos decidiam continuar.

Um experimento similar provavelmente não fosse aceito hoje por comissões de ética das universidades. No entanto, em 2015, pesquisadores poloneses refizeram um experimento similar ao de Milgram, com tensões de voltagem menos intensa, e o resultado foi que a maioria dos 80 participantes aceitaram dar os choques mais fortes em seus alunos obedecendo às ordens do pesquisador.

Mais de 50 anos após o Holocausto, cidadãos comuns ainda parecem dispostos a fazer o mal a outro quando recebe ordens de alguém considerado uma autoridade.

A banalidade do mal

A história de Eichmann e a participação de cidadãos comuns no Holocausto foram objeto de estudo da filósofa Hannah Arendt, em seu livro "Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal" (Companhia das Letras).

O controverso experimento de Milgram virou o filme "O experimento de Milgram", lançado em 2015, e disponível na Netflix.

Fontes: Rafael Pecly Wolter, professor de psicologia social da Universidade Federal do Espírito Santo; "Métodos de Pesquisa em Ciências do Comportamento", de Paul C. Cozby (Editora Atlas); "Would You Deliver an Electric Shock in 2015? Obedience in the Experimental Paradigm Developed by Stanley Milgram in the 50 Years Following the Original Studies", de Dariusz Dolinski, Tomasz Grzyb e Michal Folwarczny.

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