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Saiba como lidar com a mania de comer para aliviar problemas emocionais

Lilian Ferreira

Do UOL Ciência e Saúde<br>Em São Paulo

22/09/2010 12h00

Para quem não resiste e devora o prato cheio de sua comida favorita é difícil entender como alguém consegue parar ao primeiro sinal de saciedade. Comer só quando estiver com fome, sem extrapolar nas quantidades, é a receita para não engordar. Mas como fazer quando a comida domina sua vida?

É comum ouvir a expressão “cabeça de gordo” quando se fala de hábitos e pensamentos que levam ao comer compulsivo, por hábito ou para descarregar as emoções. “Muitas pessoas fazem dieta a vida inteira e depois voltam a engordar. O problema é que a causa do ganho de peso não foi cortada, mas sim seu efeito, apenas com redução das calorias consumidas”, diz o neuropsiquiatra Sidney Chioro.

Médicos concordam que a má relação com a comida é uma das causas da obesidade. “O excesso de dietas pode ser resultado de não se trabalhar os comportamentos. Nossa sociedade dá muita importância para a questão da alimentação, para a magreza. Isso gera um comportamento obsessivo com a comida. Uma mente gorda pode existir em alguém que não come, mas só pensa em comida”, explica o psiquiatra argentino Maximo Ravenna.

Pare um minuto e pense: você costuma comer sem saber o motivo, apenas porque não tem nada o que fazer, ou porque está ansioso ou triste?

“O estresse, a baixa autoestima, a depressão, a perda de interesse e prazer em situações cotidianas e a ansiedade são manifestações psicológicas desencadeadoras da obesidade”, acrescenta Luciana Ferreira Ângelo, responsável pelo departamento de psicologia da Sociedade Brasileira de Hipertensão.

Já o psiquiatra Adriano Segal, coordenador do Departamento de Psiquiatria da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), afirma que a obesidade é uma doença grave e que a sua incidência não pode ser vista como uma consequência de aspectos psicológicos. “Dá trabalho, mas o fato é que a quantidade de comida tem que ser igual ou menor ao que a pessoa gasta. Se for maior, é suficiente para ganhar peso. Independente de quanto você come”.

Apesar dos cuidados, especialistas ensinam que também é importante encarar a alimentação como algo natural, prazeroso e saudável, em vez de encará-la como uma solução para problemas, principalmente emocionais.

A psicanalista inglesa Susie Orbach aconselha, em seu livro “Sobre a comida: reaprenda a comer e mude sua vida”, a descobrir por que você come quando não está com fome. Esta é uma das chaves para ter o peso adequado. Ela também indica só comer quando estiver com fome, comer o alimento pelo qual seu corpo sente fome (sem restrições que só acabam aumentando a vontade de comer), saborear cada bocado e sentir seu gosto, e parar de comer no instante que identificar que seu organismo já está saciado.

Desordem no organismo

O comer errado leva a uma desorganização de todo o organismo. “O impulso de comer leva a pessoa comer do jeito que engorda. Aí, então, ela não forma saliva e secreções digestivas suficientes. Todo o aparelho digestivo passa a funcionar errado”, explica o Chioro, que aplica uma técnica de projeções para superar a compulsão por comida.

Ravenna, que também tem uma técnica própria para combater o comer emocional, aponta que o paladar se acostuma e vira “dependente” de certos tipos de alimentos. “Estudos comprovam que alimentos calóricos têm um poder muito forte no cérebro, similar ao das drogas, o que favorece o vício e um comportamento obsessivo. Uma pessoa que bombardeia seu corpo durante muito tempo com comidas calóricas gera um condicionamento dos neurotransmissores. Aí, ela perde a noção do que é a fome”.

“Eliminei 33 kg apenas prestando mais atenção nas minhas ansiedades. Identificando o que queria no momento em que atacava a comida. Sem saber por quê, eu acabava indo para a geladeira”, relata a veterinária Janaína Santos.

Segundo Chioro, se a pessoa comer pela fome biológica, controlada pelo hipotálamo, ela vai ser magra. O problema é quando o sistema límbico entra em ação na formação das emoções, que desde cedo são atreladas à alimentação.

“As pessoas aprendem a relacionar a comida como algo de bom que ela está se dando, um presente. As emoções devem ser trabalhadas como emoções e não descontadas na alimentação, que tem outra função biológica”, diz Ângelo.

E o problema aparece quando isto passa a ser um hábito, destaca o argentino. Lembra do copo de água com açúcar para acalmar ou do delicioso bolo da vovó? O doce passa a ser visto como algo que acalma, reconforta e é a ele que você vai recorrer quando estiver mal. Ou vai comer tanto bolo na busca daquela sensação boa que você tinha quando era criança.

Triste porque está gordo, gordo porque está triste

Este é um bordão de Ravenna. Ele diz que a pessoa come para se acalmar ou porque está triste e acaba engordando, e aí come mais ainda porque sua autoimagem é prejudicada, o que diminui a autoestima. O primeiro passo para sair deste ciclo é pensar na função da comida em sua vida. Ela está suprindo a fome ou algum outro problema? “É comum as pessoas escolherem alguns alimentos e abusarem apenas deles como chocolate, pizza ou refrigerante. Elas acreditam que só aquele alimento as podem tranqüilizar”, lembra a psicóloga.

Tirar da comida o foco da sua vida e questionar hábitos também ajudam. “A comida para o obeso passa a ser um tema sempre presente nas conversas. Você pode estar preocupado com o que comer ou que não deve comer, mas sua vida acaba se baseando apenas nisso, em pensamentos reiterados sobre comida”, alerta Ravenna.

Adailton Sparaviezi sabe bem o que é isso. “Eu ia ao cinema e não pensava no filme que ia ver, só queria saber da pipoca e da coca-cola”, conta o ex-obeso que emagreceu 45 kg em 2 anos com o método de Chioro. Ele diz que as principais lições foram identificar quando estava saciado e parar de comer e quando estava comendo por hábito e não por fome.

Alguma mudança em seu cardápio? Sim, o churrasco. “Antes eu não comia para não engordar, agora eu sei que eu posso comer um pouco que não tem problema”.