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Magia, anzóis e DNA: o que médico da floresta que desvendou mistério no fundo do rio Amazonas pode ensinar à ciência

Mônica Vasconcelos

Da BBC News Brasil. em Londres

31/08/2019 12h37

Eram dez horas de uma noite de domingo em Santarém. Um médico admirava a lua cheia, refletida nas águas calmas do rio Tapajós, quando o telefone tocou.

"Doutor, aqui é o Augusto Sena, o Guto. Vamos ali em Oriximiná buscar uma paciente de dez anos de idade que sofreu um acidente? O avião está pronto e vou decolar em trinta minutos. O senhor pode dar essa ajuda?"

Guto era um piloto experiente e o médico tinha total confiança nele. Mas... como estaria a paciente? E o avião, estaria autorizado a voar à noite? Seria adequado para o transporte médico?

Inútil ponderar sobre isso. Ele sabia que o velho Guto iria buscar a criança a qualquer custo, com ou sem sua ajuda.

"Tudo bem, Augusto, vamos lá."

A história acima, verídica, é contada no livro Paradô: Histórias Vividas por um Neurocirurgião da Amazônia, escrito por Erik Jennings Simões - o médico que atende ao telefonema do piloto Guto.

Publicado em tiragem modesta (1 mil exemplares), já aguardando segunda edição, o livro reúne casos vividos pelo médico ou relatados a ele, além de reflexões pessoais sobre a medicina e a vida na Amazônia. O efeito geral é de uma porta se abrindo para um mundo de riqueza e diversidade, praticamente desconhecido pela maioria dos brasileiros.

Erik, de 50 anos, é um entre cinco neurocirurgiões atendendo mais de 1 milhão de pessoas distribuídas por uma área superior a 500 mil quilômetros quadrados. Nessa região, caberia um país como a Espanha.

Na reportagem a seguir, o médico comenta algumas das crônicas do livro e compartilha com a BBC News Brasil soluções que encontrou para o desafio de cuidar da saúde do povo do Baixo Amazonas. Entre elas, aprender a falar tupi guarani e adaptar anzóis para uso como instrumento cirúrgico.

E, se você ficar conosco até o final da reportagem, vai saber como foi que, com a ajuda dos povos da floresta, Erik Jennings literalmente pescou das águas do rio seu próprio tio.

Saúde na Amazônia: o neurocirurgião que ficou em Santarém

O sobrenome de Erik Jennings vem de seus antepassados, americanos confederados (escravocratas sulistas) derrotados na Guerra Civil dos EUA que se refugiaram em Santarém em 1867.

Ele conta que a família era humilde, de pai eletricista e mãe costureira.

"Nasci na beira do rio (Tapajós), vivia contemplando o rio, observando a vida que ele gerava, a conexão com os ribeirinhos, os pescadores", diz.

"Cresci vendo a natureza ameaçada por interesses econômicos, via que o rio poderia mudar, ser agredido. Sentia paixão pelo rio e por seus povos."

Quando jovem, Erik estudou Medicina na Universidade Federal do Pará e fez especialização em neurocirurgia no hospital Santa Marcelina, em São Paulo. Fez estágio em cirurgia de coluna na Suíça e, recentemente, foi médico visitante na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Mas desde 1999 exerce a profissão em Santarém, profundamente integrado na vida da comunidade.

"Sabe doutor, eu estou tão feliz agora, cuidando de suas mãos, porque foram as mesmas mãos que cuidaram de mim e salvaram a minha vida cinco anos atrás."

Foi o que disse ao médico a manicure com nome de princesa, Leide Dai, na crônica "Fazendo as Unhas".

Outro exemplo de como a vida do médico se mistura à do povo da região é a crônica "Vento Que Traz o Bem". Nela, Erik conta como foi resgatado do meio do rio Tapajós, sob forte correnteza, por um barqueiro que descia pelo rio com sua família e suprimentos. Erik praticava kite surf, um esporte aquático em que o praticante se movimenta sobre uma prancha conectado a uma espécie de pipa (em inglês, kite) movida pelo vento, quando houve um problema:

"O kite esvaziou e não sei o que teria sido de mim se vocês não tivessem me socorrido", disse Erik, sentado dentro do barco, à família que o resgatara.

"Mas mulher, não foi esse doutor que cuidou de nosso primeiro filho há quinze anos?", perguntou então o caboclo Nivaldo à esposa.

Banhada pelo Tapajós, Santarém, com 300 mil habitantes, fica próxima à divisa entre Amazonas e Pará - os dois maiores Estados do Brasil.

É uma das regiões mais belas do mundo, mas para a saúde, traz desafios, diz à BBC News Brasil Hebert Moreschi, administrador do Hospital Regional do Baixo Amazonas do Pará, um dos hospitais da cidade. São quatro ao todo, dois deles públicos.

"Somos o núcleo urbano de uma região composta por 20 municípios do oeste do Pará. Atendemos também à população ribeirinha - descendentes de escravos que fugiram das lavouras do café, migraram para cá e fizeram suas comunidades nas proximidades do rio. E atendemos à população nativa", explica o administrador. "É uma população muito flutuante, de mensuração difícil. São em torno de 1,2 milhão de pessoas".

Por ser uma região remota, o serviço é de alta complexidade, diz o administrador.

Ele conta que o acesso por terra é difícil, já que as estradas são de barro e, quando chove, viram um lamaçal. Nesse caso, até caminhões grandes ficam parados, esperando socorro. Segundo Moreschi, por essas dificuldades logísticas, os materiais para o hospital vão de caminhão até Belém e de lá são transportados de barco. Os mais estratégicos chegam de avião.

Antes, era comum pacientes da região serem transferidos para grandes cidades para receber tratamento, conta Moreschi. Não mais.

"Hoje, podem ser atendidos pelo Erik e pela equipe dele", explica. "Operam tumores e fazem cirurgias de coluna, por exemplo."

"Ele é extremamente conceituado, tecnicamente excelente. Poderia estar atuando em qualquer lugar do mundo, mas por opção, quis ficar na região de origem dele."

Erik diz que se sente mais realizado em Santarém. Na cidade grande, pondera, é mais difícil ver o valor social do seu trabalho.

Por outro lado, as exigências sobre ele e seus colegas são maiores do que nas grandes capitais brasileiras.

"A Amazônia é um dos piores lugares do mundo na relação médico por habitante. Nos igualamos a países subsaarianos", diz o médico.

Quando começou a trabalhar na região, em 1999, era o único neurocirurgião para 950 mil pessoas. Vinte anos depois, a proporção é de um neuro para cada 300 mil. Hoje, Erik forma neurocirurgiões por meio de um programa de residência médica oferecido pelo hospital. Isso deve contribuir para que a região alcance a média recomendada, de um especialista para cada 100 mil habitantes, diz.

No início não faltavam só médicos.

"Eu improvisava com anzóis para puxar a pele (em cirurgias), o anzol servia como afastador da pele, para criar uma abertura."

Erik relembra o dia em que foi à loja de pesca procurar o anzol. Depois de ver as opções, ele perguntou ao vendedor se não havia um outro tipo de anzol, para que ele pudesse cortar a ponta.

O vendedor não entendeu nada, conta o médico. "Rapaz, você vai querer o anzol para cortar a ponta?"

Erik explica que precisava fazer essa adaptação para que o anzol não perfurasse a pele do paciente. Depois de construído manualmente, o "instrumento cirúrgico" era esterilizado.

"Hoje em dia não precisa, o hospital está bem moderno", diz.

Mas nem tudo mudou na Amazônia.

Cadê a pista?

Começamos a sobrevoar a cidade de Oriximiná. Foi quando lembrei de um pequeno detalhe:

"Augusto, cadê a pista?"

"Está ali na frente, doutor. Bem na nossa proa", respondeu o Augusto, já preparando o avião para o pouso.

"Mas ... Augusto, aquilo não é uma pista. É uma rua! Tá cheio de carros lá embaixo."

"Fique tranquilo. É que essa pista não tem iluminação alguma para pouso à noite. Aí veio todo mundo da cidade para iluminar a pista com os carros."

Olhei com mais atenção e vi dezenas de carros de um lado e de outro da pista de pouso da pequena cidade, todos com seus faróis acessos e pisca-alerta ligados. Todos com um só objetivo: iluminar a pista para nosso avião pousar e pegar aquela paciente. Vi famílias com crianças do lado de seus carros, olhando para o avião. Em seus rostos, um misto de ansiedade e alegria de ver o socorro chegar."

O livro de Erik Jennings traz vários casos de pilotos destemidos fazendo resgates aparentemente impossíveis de pacientes no meio da selva. Também há histórias de ribeirinhos remando por horas, e até dias, para levar um paciente ao hospital em Santarém. Situações assim são corriqueiras, diz Erik.

"Mês passado, tinha uma criança quase morrendo. Me ligaram, disseram que o Samu não ia, tinha problemas na lancha. Fui lá à noite, buscar a criança. Demorou uma hora para chegar, outra para vir, mas como conheço bem os rios, foi tranquilo. Ela era da mesma comunidade do Nivaldo." (O homem que resgatou Erik do rio.)

"Dizem que sou maluco, indo pegar a criança aí não sei onde. Mas sei o que estou fazendo, conheço os perigos do caminho. São riscos calculados."

A saúde de uma população não pode, no entanto, depender da boa vontade de alguns cidadãos.

Em entrevista à BBC News Brasil, o procurador do Ministério Público Federal do Pará Camões Boaventura reclama da falta de cuidado do poder público com o povo da Amazônia.

"Viver na Amazônia é peculiar por si só, mas os desafios da floresta são mais destacados não pela floresta em si, mas pelas ameaças e violências que a Amazônia e os amazônidas sofrem", diz.

Desmatamento, barragens hidrelétricas, garimpos ilegais, desassistência do poder público, enumera Boaventura, são apenas algumas das violências sofridas pelo povo da região.

Vento que traz o bem

Na crônica "Vento que Traz o Bem", Erik conta que, ao se despedir de Nivaldo - o caboclo que o resgatara do rio -, recebeu um convite do barqueiro para ir comer um peixe em sua casa.

O procurador Camões Boaventura explica que foi visitar Nivaldo junto com o médico. Ao chegar lá, de barco, os visitantes se depararam com Nivaldo na cama, doente. Mais tarde, soube-se que o problema era uma apendicite aguda.

"Chegamos três horas da tarde, ele estava com muita dor. A ambulância havia sido acionada desde a manhã. Olhávamos as luzes da cidade na outra margem do rio. Ele não tinha como ir e o Estado não vinha buscá-lo", relembra o procurador.

A crônica de Erik relata como médico e outros visitantes acabaram transportando o doente de barco, noite adentro, para o Hospital Municipal de Santarém, onde Nivaldo foi operado de madrugada.

Veja que trama complicada - e isso não é um filme: Erik opera o filho de Nivaldo. Anos depois, Nivaldo resgata Erik do meio do Tapajós, em situação de perigo. Meses mais tarde, Erik acaba salvando a vida de Nivaldo ao levá-lo, em estado grave, para o hospital.

Mortes for falta de resgate na Amazônia

Histórias com final feliz como essa, infelizmente, são exceção. Muita gente morre na Amazônia por falta de resgate ou por resgates inadequados.

"Morrem por coisas banais, como picada de cobra, queda de árvore", diz Erik. Ele aponta soluções simples que poderiam amenizar os problemas:

"Na Amazônia, a partir de sete da noite, se você estiver voando, vai conseguir pousar em Belém, Santarém, Manaus... o resto, todas as pequenas cidades, não têm balizamento noturno (luzes na pista). Se alguém se acidenta e precisa ser removido à noite, não tem como pousar."

Erik enumera possíveis soluções, como a instalação de luzes nas pistas, a criação de mais leitos nos hospitais e de um serviço de resgate por hidroaviões. Outra medida importante seria legalizar pistas em pequenas vilas e cidades.

"Várias dessas pistas são clandestinas, mas recebem inclusive aviões oficiais do governo", conta o médico.

Até agora, o médico Erik Jennings vem nos contando como enfrenta barreiras geográficas para cuidar da saúde dos amazônidas. Mas a floresta impõe outro grande desafio à medicina: a diversidade cultural de seus povos.

Árvores mortas, folha perdidas

Kusi, uma índia Zo'é, e seus dois filhos, Apãn e Namihit, estão em sua pequena maloca de telhado de palha. É noite e a lenha queima embaixo da rede. O território Zo'é fica a 300 metros de altitude. A floresta é densa e o frio, intenso. Eles não têm roupas ou cobertores, o fogo que os protege do frio e dos animais deve ser mantido aceso dia e noite.

Uma tempestade se forma. Trovões ecoam no mato. De repente, ouve-se um som alto da quebra de uma grande árvore. O estalido se junta ao barulho de outras pequenas árvores levadas pela maior, que tomba em direção à maloca de Kusi. Em poucos segundos, Apãn está morto e, Kusi, gravemente ferida.

Assim começa a história de como Erik Jennings se tornou o coordenador de saúde do povo Zo'é.

Além de ser neurocirurgião de um grande hospital em Santarém, ele dedica parte de seu tempo aos Zó'é, um povo que teve seu primeiro contato com o homem branco há pouco tempo e que o médico assiste há 17 anos. No livro, Erik conta:

Kusi tem um grave afundamento no crânio, precisa ser levada para a cidade para que possamos tentar salvar sua vida. Deitada no fundo do avião, a paciente viaja acompanhada do filho, Namihit. Ele tem 18 anos, ela, 56. Os dois nunca saíram da floresta. Não falam uma palavra de português. Antes do pouso em Santarém, colocamos uma bata em Kusi, vestimos e calçamos Namihit.

(...)

Após uma longa cirurgia, a paciente é levada para uma enfermaria onde está Fátima, também operada na cabeça.

"Foi uma árvore que caiu na cabeça dela?", pergunta Namihit.

Fátima fora ferida com um facão por seu próprio marido, explico.

"Mas por que ele fez isso com ela?", pergunta, inconformado. Depois daquela viagem, Namihit nunca mais seria o mesmo.

No texto, Erik descreve o primeiro contato do menino Namihit e de sua mãe com uma das grandes doenças do homem branco: a violência.

A aproximação com os Zo'é também teve impacto profundo sobre o próprio Erik.

"Conhecer os Zo'é mudou o rumo da minha vida", diz. "Me colocou em contato com outra cultura e com um dilema: você assiste a saúde de um povo da floresta e a assistência se torna dolorida."

Para um Zo'é, o ambiente quente e barulhento do hospital, a comida estranha, a ausência da família e da terra já são traumáticos, explica. E existe também o sofrimento psicológico:

"Ver a crueldade do homem branco com o outro foi uma agressão muito grande para ele (Namihit). Me senti responsável pelo sofrimento que estávamos trazendo, mesmo que na tentativa de ajudá-los, de salvá-los."

Era preciso repensar o jeito de fazer medicina.

"Entendi que precisávamos tratar diferente quem é diferente para que, no final, todos se beneficiassem igualmente das ações de saúde."

No caso de Kusi, isso significava tirá-la o quanto antes do hospital e devolvê-la à floresta.

"Operei num dia, no outro, levei Kusi para a aldeia, para que estivesse junto aos familiares, na língua dela."

No território Zo'é, a paciente teve também atendimento de uma enfermeira do Ministério da Saúde que atendia no posto da Funai (Fundação Nacional do Índio) na aldeia.

Depois desse episódio, a pedido dos índios e da Funai, Erik se tornou, em caráter voluntário, o coordenador de saúde do povo Zo?é.

Os Zo'é

Desde o incidente com Kusi, passaram-se 17 anos. Neste tempo, construiu-se um pequeno hospital no território, com materiais da floresta. Erik aprendeu a falar tupi guarani. "Eles mesmos me ensinaram", conta. E aprendeu também a pilotar aviões pequenos, para driblar as dificuldades de acesso.

"São 290 km de Santarém até a terra Zo?é, considerando o aeroporto de onde a gente sai. Leva uma hora e quinze para ir, uma hora e quinze para voltar", explica.

A Funai atua hoje em 19 terras indígenas habitadas por povos de recente contato, entre elas a terra Zo'é.

O termo "povo de recente contato" se refere a grupos que têm algum contato com a sociedade nacional, mas preservam suas formas de organização social e um alto grau de autonomia em suas relações com o Estado brasileiro, segundo definição da Funai.

A população Zo'é está estimada em 310 pessoas organizadas em aproximadamente 19 malocas, informou à BBC News Brasil Fábio Ribeiro, chefe da Frente Cuminapanema - unidade da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai - responsável pela assistência à etnia.

A Terra Indígena Zo'é tem 6,86 mil quilômetros quadrados e está regularizada desde 2009. Os índios dependem exclusivamente de suas terras para sobreviver. São seminômades e caçam com arco e flecha. Quando a mandioca acaba, vão para outro lugar. A maior parte não usa vestimenta, mantém a própria língua e desconhece a dieta do branco, não ingerindo sal ou açúcar.

"Isso dá a eles uma condição de saúde muito boa. Eles não têm nada das coisas que matam nossa civilização hoje, como diabetes, alto índice de colesterol e obesidade mórbida", explica Erik.

Para o médico e a equipe da Funai, o desafio é dar assistência sem destruir a cultura e a autonomia desse povo. A estratégia, então, é resolver o maior número possível de problemas na própria floresta, evitando o preconceito na cidade e epidemias.

Na década de 80, missionários levaram doenças que mataram metade da etnia. Por conta disso, a primeira providência foi vacinar os índios.

"Quando é povo isolado, a política do governo é: feito o primeiro contato, a gente vacina. Aceitam bem, não há resistência", diz o médico.

"Operamos catarata, hérnias. Faço ultrassom, envio o exame pela internet a um radiologista na cidade."

O resultado dessa política é que Zo'és viajam para Santarém apenas duas vezes por ano, em média. Para efeito de comparação, Erik cita outras duas etnias com o mesmo número de habitantes (cerca de 300) onde a taxa é de 600 remoções por ano.

Apesar do sucesso nos resultados, esse jeito diferente de fazer medicina nem sempre é compreendido fora da floresta.

Políticas de saúde do homem branco

Para evitar anemia em crianças, o Ministério da Saúde criou um programa nacional de reposição de ferro. Toda criança toma um comprimido de sulfato ferroso de três em três dias.

"Mas os Zo'é se alimentam da floresta e não têm anemia", diz Erik. "Se você for dar comprimido, elas vão ter de andar dois dias na floresta para tomar o comprimido e depois mais dois dias para voltar. Com isso, vão ficar andando sem caçar, sem comer. Vão ficar com desnutrição. Não faz sentido", argumenta.

Entre os povos indígenas, diz, quem está com carência de ferro são os que já perderam sua autonomia socioeconômica e cultural. Já não conseguem manter seus hábitos alimentares. Esses sim, afirma, têm alto índices de anemia e desnutrição.

Para o médico, o problema é que, salvo algumas iniciativas isoladas, as políticas de saúde para os indígenas ainda são as do homem branco.

O número de cirurgias cesarianas entre povos indígenas que perderam sua autonomia ilustra as consequências dessas políticas:

"Entre esses povos, não existe mais a figura do parteiro ou parteira. Os partos por cesariana estão acima de 80%. No quinto mês de gravidez, o médico manda a gestante para a cidade, para ter a criança no hospital. A lógica é: vocês não sabem fazer parto."

Para evitar que os Zo'é "desaprendam" a fazer partos, Erik e equipe da Funai decidiram criar um pré-natal adaptado para a cultura Zo'é.

"Fazemos exames básicos, o resto é com eles", diz. "Não vou fazer o pré-natal oficial porque eles fazem melhor do que eu. Têm parteiros que conhecem muito bem o processo de gestação e nascimento."

Observando o trabalho dos parteiros, Erik diz ter percebido como o branco subestima o conhecimento indígena.

"Eles têm até aminiótomo. Uma haste, tipo um estilete, que usam para romper a bolsa quando o parto está demorando. Quando você fura a bolsa, o parto se acelera. Uma descoberta médica relatada em revistas de medicina do século 18... os Zo'é já têm isso há muito tempo."

Ver esses nascimentos também revelou ao médico algo que o homem branco perdeu: um parto cheio de acolhimento, ao lado de quem se ama.

Quando as mulheres estão prestes a dar à luz, o médico viaja para o território - mas não interfere.

"Fico acompanhando de longe, digo que estou por ali se precisar."

A grávida é assistida pelo parteiro e por seus familiares, que ficam ao seu lado, acariciando sua cabeça e repetindo que a dor vai passar. "É uma humanização incrível, você não vê mais isso na cidade."

Seguindo suas tradições, é muito difícil que os Zo'é percam uma criança, diz Erik. A última morte por complicações de parto aconteceu em 2002, quando ainda não existia o trabalho de saúde no território.

Dos Zo'é para o mundo

A experiência pioneira de Erik e equipe da Funai, de criar um novo jeito de cuidar da saúde indígena, acabou repercutindo internacionalmente.

A pedido do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACNUDH), o médico contribuiu para a elaboração de um protocolo de saúde para povos isolados e de recente contato na América do Sul.

Publicado em 2012, o documento -Directrices de protección para los pueblos indígenas en aislamiento y en contacto inicial - reúne contribuições também de representantes da Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Venezuela.

Em 2018, as diretrizes da ONU foram incorporadas à legislação brasileira por meio de uma portaria conjunta dos Ministérios da Saúde e da Justiça.

"A portaria traz diretrizes que começamos a trabalhar em 2002 no nosso hospitalzinho na floresta. Agora, são lei. Nada disso estava previsto, era maluquice... eu poderia ter tido meu CRM cassado. Mas agora, o trabalho me deu respaldo, mostramos que a abordagem funciona", diz.

A BBC News Brasil procurou o Ministério da Saúde para saber se houve progresso na implantação das diretrizes que a portaria estabelece e, em particular, para saber o que ficou decidido no caso dos suplementos de ferro para povos de recente contato. O Ministério não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

Depois de anos de convivência com os Zo'é, Erik reflete que quando se fala em diretrizes para a "proteção" dos povos indígenas, proteger significa algo diferente.

"O que dá para notar é que eles têm um sistema próprio de organização política, social e jurídica que faz com que a sociedade deles seja bem mais equilibrada e harmônica do que a nossa."

Então, proteção aqui quer dizer, simplesmente, deixar como está, conclui.

"É a não agressão, não interferência. É deixar que continue assim."

Mas como veremos na terceira - e última - parte dessa reportagem, a preservação dessa e de outras culturas da floresta não interessa apenas aos povos da Amazônia.

O encanto de Paulo Jennings

O barco subia o Rio Amazonas quando Paulo Jennings decidiu pular. Fazia aquilo desde moleque e queria sentir a emoção do voo entre a tolda da embarcação e as águas barrentas do rio. Tinha vindo de São Paulo com um grupo de amigos para aquela pescaria, todos estavam eufóricos com o passeio que começava.

Paulo, cardiologista, 56 anos, era o mais entusiasmado. Nascido em Santarém, trabalhava na capital paulista e todos os anos vinha de férias rever os amigos e pescar. Com o barco ainda em movimento, pulou. Quando seu corpo bateu nas águas do rio, a região do estômago recebeu o maior impacto. Foi um salto infeliz que lhe custou a vida. Seu corpo ficou boiando por alguns segundos na superfície e depois afundou.

A região norte do Brasil apresenta a maior taxa de mortalidade por afogamentos do país. São cinco mortes por cada 100 mil habitantes, segundo um relatório da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa). A região sudeste tem o menor índice, 2,1 mortes para cada 100 mil habitantes. Os dados são de 2016.

Segundo a Sobrasa, muitas das mortes resultam de imprudência, como ingerir álcool antes de nadar ou não usar coletes salvavidas em embarcações. De acordo com o Corpo de Bombeiros, as águas turvas, cheias de sedimentos, e a força das marés também contribuem para as mortes.

Quem não vive na região talvez não entenda um problema que, na Amazônia, com sua exuberante fauna e flora, ganha contornos ainda mais dramáticos: a perda de um ente querido nas águas de um rio.

Paulo Jennings era tio de Erik. Menos de três horas após seu corpo ter desaparecido, o médico já estava à sua procura. Na crônica "O Encanto de Paulo Jennings", ele descreve essa experiência.

Não havia tempo para luto. Quando se perde alguém nas águas dos imensos rios da Amazônia, a primeira coisa a fazer é procurar o corpo. Uma corrida desenfreada se iniciava entre humanos e os peixes do fundo do rio. Ganharia a corrida aquele que chegasse primeiro ao corpo de Paulo.

Foram cinco dias de buscas. Mergulhadores, bombeiros, a polícia civil, familiares e amigos do desaparecido se revezavam na tarefa. Até um avião foi requisitado.

Mas a solução para o problema viria dos povos que guardam os segredos da floresta: curandeiros e pescadores das comunidades ribeirinhas.

No livro, Erik fala de dois momentos cruciais. Primeiro, um caboclo da região chamado Marinho pergunta ao médico se ele autorizaria um curandeiro da comunidade a fazer "um trabalho" para descobrir o paradeiro do corpo. Erik aceita a proposta. No dia seguinte, o caboclo traz uma mensagem de Pedrinho, o curandeiro:

"Doutor, o Pedrinho mandou falar para o senhor que vai ser muito difícil encontrar o corpo de seu tio. Aqui nesse local tem um encanto, ele falou que seu tio foi levado por esse encanto. Para onde ele foi estão precisando muito dele, pois era uma pessoa boa."

Mas Pedrinho também enviara uma sugestão:

"Doutor, o Pedrinho disse que mesmo sendo difícil encontrar o corpo, o senhor pode acender uma vela dentro de uma cuia e lançá-la no rio. Se a cuia com vela ficar rodando em um mesmo local é sinal de que corpo pode estar por ali."

O médico escreve que não compartilha da crença em si, mas que acredita no poder da cultura e da solidariedade. Para ele, as palavras do curandeiro eram um alívio, um remédio para a alma. Cuias e velas foram providenciadas.

Outra intervenção veio de Aguinaldo, pescador da região e amigo de Erik que chegara para ajudar nas buscas. Aguinaldo notou que as cuias boiavam por mais tempo num ponto do rio onde parecia haver gordura na superfície. Foi então que o pescador sugeriu que pescassem ali um peixe chamado piracatinga, habitante daquelas águas.

A piracatinga (nome científico Callophysius Macropterus) é conhecida também como "urubu d'água". Chega a atingir 45 cm de comprimento e costuma se esconder nas profundezas dos rios. Agressiva e voraz, pescadores relatam que ela ataca até peixes já fisgados por anzóis, e pode ser vista, atracada à presa, mesmo quando a linha é retirada da água. A piracatinga é um peixe necrófago, ou seja, gosta de comer cadáveres, inclusive humanos. A ideia de Aguinaldo, portanto, era buscar fragmentos do corpo de Paulo na barriga dos peixes.

No livro, Erik conta que já ouvira relatos de caboclos sobre o uso dessa técnica para encontrar cadáveres. Além disso, um amigo, mergulhador do Corpo de Bombeiros, lhe contara ter localizado corpos de pessoas dentro de barcos naufragados no Rio Amazonas após seguir o som dos cardumes de piracatingas.

Com essas histórias em mente, médico e ajudantes iniciaram a "pescaria". Anzóis com iscas de pele de galinha foram lançados no ponto onde as cuias boiavam por mais tempo. Era noite e já se passavam 48 horas desde o desaparecimento de Paulo. Três piracatingas foram fisgadas. (Nos dias seguintes, foram pescadas mais seis.)

Com uma pequena faca, Erik e Aguinaldo abrem os peixes. O pescador direciona o foco da lanterna para sua mão e pergunta, assustado:

"O que o senhor acha disso, doutor?"

Havia dois pedaços de pele com características humanas dentro daqueles peixes. Em uma das piracatingas, havia dois ou três fios de cabelo castanho, iguais ao de Paulo.

Era outubro de 2011. O delegado Sílvio Birro, da Delegacia de Polícia Civil de Santarém, acompanhava as buscas.

"Nas primeiras piracatingas, foram localizados fragmentos parecidos com tecido humano e alguns pelos", conta o delegado à BBC News Brasil.

"O Dr. Erik acondicionou o material em recipientes que foram levados para o laboratório do Hospital Regional de Santarém. A análise clínico-patológica constatou que se tratava de material humano", relembra.

Mas o laudo inicial do Centro de Perícia de Santarém foi inconclusivo. Era preciso fazer um exame mais avançado, explica.

O delegado entrou em contato com o Instituto de Criminalística da Polícia Federal, em Brasília, e pediu uma segunda análise.

Quase um ano após o mergulho de Paulo, chegou ao consultório de seu sobrinho uma carta do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, em Brasília. O texto continha o seguinte parágrafo:

"Após análise de DNA mitocondrial dos fragmentos enviados e o sangue da Sra. Eilah Jennings (Irmã de Paulo), concluímos que são indivíduos filhos da mesma mãe."

Paulo Jennings nunca mais iria voltar. Havia sido levado pelo "encanto" do rio Amazonas para um lugar onde, como explicara o curandeiro Pedrinho, "precisavam muito dele".

Para a Amazônia, o caso estabeleceu um precedente importante. Foi um marco em investigações de desaparecimentos de pessoas nos rios, diz o delegado Sílvio Birro.

"O laudo saiu em 2012, um ano depois (da morte). Procuramos saber em outros locais e era inédita uma investigação como essa, com esse resultado, nesse espaço de tempo", lembra.

O caso foi divulgado em outras delegacias da região, como método alternativo para buscas de pessoas desaparecidas nos rios.

E também acabou incluído na literatura científica internacional. A revista Journal of Forensic Science publicou um artigo assinado por Erik Jennings detalhando como a piracatinga pode ser usada para localizar e identificar vestígios humanos retirados do rio Amazonas.

Em sua entrevista à BBC News Brasil, o médico diz que não mencionou no artigo o papel das cuias na escolha do local da "pescaria".

"Nossa hipótese é de que as cuias ficavam flutuando e rodando no lugar onde havia gordura na superfície da água, mas achei melhor não citar isso no artigo porque não tinha como provar", explica. "E ciência funciona assim, toda suposição precisa ser provada."

O médico diz, porém, não ter dúvida de que o paradeiro de seu tio foi revelado pela soma dos saberes da floresta - a cultura indígena e dos ribeirinhos, materializada nas figuras do curandeiro Pedrinho e do pescador Aguinaldo.

"Não existe oposição entre ciência médica e conhecimento tradicional", ele diz à BBC Brasil. "São complementares."

Finalmente, para muitos de minha família, podíamos acreditar que Paulo Jennings havia morrido. Ele nunca mais iria voltar. Seu corpo havia sido levado, para sempre, pelo Rio Amazonas. O rio que ele tanto amava o encantara.

*Trechos em itálico foram extraídos livro de Erik Jennings e adaptados para inclusão nesta reportagem.

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