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Água, botas e computação; veja avanços científicos da missão à Lua

Lançamento do foguete Saturno 5, que levou a missão Apollo 11 ao espaço - Nasa/Divulgação
Lançamento do foguete Saturno 5, que levou a missão Apollo 11 ao espaço Imagem: Nasa/Divulgação

Da AFP, em Washington

09/07/2019 10h46

Há 50 anos, a missão Apollo 11 à Lua representou um grande passo para a humanidade e mudou a maneira de ver a Terra no universo.

Mas foi também o catalisador de enormes avanços científicos e de engenharia, cujo impacto é sentido atualmente.

A façanha exigiu superar inúmeros desafios técnicos, o que foi possível apenas graças à decisão do Congresso americano de entregar um cheque em branco à Nasa para derrotar a União Soviética na corrida espacial.

Os Estados Unidos gastaram aproximadamente US$ 150 bilhões (nos valores atuais) em seus três primeiros programas espaciais.

"A Apollo proporcionou um laboratório para as pessoas se dedicarem à resolução dos enormes problemas de engenharia", disse à AFP Brian Odom, historiador do Marshall Space Flight Center da Nasa.

Liderado por uma equipe de ex-cientistas nazistas, o foguete Saturno V ainda é o mais poderoso já construído e deixou uma pegada que todas as missões subsequentes seguiram.

Confira abaixo algumas dessas conquistas:

Revolução informática

Até a década de 1960, os computadores eram máquinas gigantes, compostas de milhares de tubos a vácuo sedentos de energia.

Tudo mudou com o advento da chamada "computação em estado sólido" e os transistores, que tornaram possível miniaturizar a tecnologia para adaptá-la a uma espaçonave.

"Era preciso um grande empurrão dos foguetes, mas também reduzir a massa e aumentar a potência a bordo dos computadores", disse Scott Hubbard, ex-diretor do Ames Research Center da Nasa.

A transição foi grandemente acelerada pela Apollo, que fomentou a formação do Vale do Silício.

Purificadores de água

A Nasa precisava desenvolver um purificador de água pequeno e leve, que gastasse pouca energia. Os técnicos construíram um dispositivo de 9 onças (255 mg) que cabia na palma da mão e liberava íons de prata na água, sem a necessidade de cloro. Desde então, a tecnologia foi implementada em todo mundo para matar micróbios nos sistemas de tratamento e fornecimento de água.

Alimentos liofilizados

Outro problema era como preservar os alimentos sem refrigeração. A pesquisa levou ao desenvolvimento da liofilização: o processo de desidratar alimentos recém-cozidos a temperaturas muito baixas e conservá-los em um recipiente capaz de protegê-los da umidade e do oxigênio.

Avanços médicos

Um processo químico desenvolvido pela Nasa para eliminar dejetos tóxicos em missões espaciais longas e outro para dessalinizar a água salgada levou ao desenvolvimento de um sistema de diálise que eliminou a necessidade de um fornecimento contínuo de água e deu aos pacientes maior liberdade. O processamento digital de imagens utilizado pela primeira vez para analisar a superfície lunar foi transferido para pesquisas relacionadas à tomografia e à ressonância magnética.

De botas lunares a calçados esportivos

O material das botas lunares desenvolvido pela Nasa também foi implementado em calçados esportivos para melhorar a absorção de impacto e a resistência.

De acordo com uma edição de 1991 da revista "Spinoff" da Nasa, Al Gross, um engenheiro do programa Apollo, melhorou o calçado esportivo para eliminar a perda de amortecimento causada pelo peso corporal.

Mantas Mylar

Usadas em emergências, as mantas isotérmicas Mylar foram utilizadas pela primeira vez para proteger os astronautas e os instrumentos de suas naves espaciais. O material metálico também é utilizado para isolar carros e casas.

Ferramentas sem fios

Os astronautas da Apollo precisavam de uma furadeira portátil capaz de extrair amostras a mais de três metros abaixo da superfície lunar. A Black&Decker desenvolveu um algoritmo para otimizar o motor de perfuração e reduzir o consumo de energia. A tecnologia foi posteriormente aplicada ao aspirador sem fio.

Do espaço aos incêndios

O espaço é um ambiente de temperaturas extremas, do zero quase absoluto do espaço profundo ao calor da atmosfera, sem mencionar os níveis perigosos de radiação.

O polibenzimidazol sintético desenvolvido para o uso militar e da Nasa nos anos 1950 e 1960 abriu o caminho para os trajes dos bombeiros no final da década de 1970.

A tecnologia de aquecimento e resfriamento desenvolvida para a Apollo agora é usada para tratar uma variedade de condições médicas, enquanto a tecnologia contra riscos é usada para proteger pessoas na Terra contra derramamentos de produtos químicos.

O historiador da Nasa Brian Odom apontou que este era um bom exemplo de desenvolvimento que não teria saído do setor privado por causa dos enormes custos de pesquisa. "Nenhuma empresa pode realmente fazer isso", disse. "Mas foi algo que só a Apollo fez, e o programa espacial continua a fazê-lo", completou.

Retorno do investimento

Para a economia americana, o retorno do investimento foi de pelo menos dois para um, ou até mais.

Mas seria um erro pensar as contribuições simplesmente nesses termos, disse Casey Dreier, da The Planetary Society.

"Foi fundamentalmente uma declaração de capacidade tecnológica e organizacional, um fator determinante para os Estados Unidos e a União Soviética, mas também para os países que passaram pelo processo de descolonização após o colapso das potências europeias" e escolhiam entre capitalismo e comunismo.

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