Topo

Homem negro é preso após erro em tecnologia de reconhecimento facial

iStock
Imagem: iStock

Aurélio Araújo

Colaboração para Tilt*, de São Paulo

06/01/2023 13h30

Um homem negro foi preso de forma injusta nos Estados Unidos, depois de ter sido identificado erroneamente por um sistema de reconhecimento facial da polícia de Louisiana, que usou o programa para justificar a detenção. O caso ocorreu no final do ano passado e o homem foi solto após uma semana, quando ficou claro que o software havia cometido um erro.

O homem, identificado como Randal Reid, de 28 anos, foi parado pela polícia numa estrada do Estado da Geórgia e acabou preso por um crime cometido no Estado da Louisiana, no dia 25 de novembro.

Ele estava a caminho de um jantar de Ação de Graças com sua mãe e, ao ser abordado pelos policiais, eles mencionaram que havia um mandado de prisão contra ele expedido na Louisiana. "Eu nunca estive na Louisiana na vida. Então, me disseram que era por um roubo. Não apenas nunca estive na Louisiana, como também não roubo", declarou Reid, após ser solto, ao jornal local The Times-Picayune.

O crime ao qual a polícia se referia ocorreu em junho de 2022, quando bolsas das grifes Chanel e Louis Vuitton foram roubadas na Louisiana, num prejuízo estimado em mais de 10 mil dólares (R$ 52,8 mil).

O mandado de prisão contra Reid foi expedido com base na tecnologia de reconhecimento facial, embora o software específico utilizado pela polícia não tenha sido revelado. Em 2021, forças policiais da Louisiana informaram se utilizar de serviços das empresas Clearview AI e MorphoTrak, ambas atuantes na área de reconhecimento facial e biometria.

Ativistas do movimento negro já criticaram empresas de tecnologia no passado por utilizarem práticas que consideram racistas, como algoritmos nas redes sociais que privilegiam a exibição de imagens de pessoas brancas, por exemplo.

A organização não governamental Electronic Frontier Foundation, que defende as liberdades civis na internet, também já deixou claro que considera que tecnologias de reconhecimento facial "impactam de maneira diferenciada" algumas minorias, como os afro-americanos, já que se mostram menos precisas quando aplicadas a pessoas negras.

Em seu site, a Clearview AI afirma ter uma base de dados de "mais de 30 bilhões de imagens faciais", entre as quais estão fotografias postadas de forma pública em redes sociais e retratos de criminosos procurados divulgados por autoridades.

Advogado aponta erros policiais

Para Tommy Calogero, advogado de Reid, houve uma "admissão tácita" de erro policial, que fez com que o mandado fosse descartado. "Acho que eles perceberam que se arriscaram fazendo uma prisão com base em um rosto", declarou Calogero ao jornal.

Reid foi liberado em 1º de dezembro, mas disse que, no tempo em que ficou preso, não conseguia comer nem dormir pensando no que poderia ter levado à sua detenção. "Eles [a polícia] nem tentaram me identificar corretamente", desabafou.

Já seu advogado disse que não deveria ser difícil determinar que Randal Reid não estava envolvido no crime, uma vez que havia imagens de câmeras de segurança do verdadeiro culpado usando um dos cartões de créditos roubados junto às bolsas. Entre as diferenças que Calogero aponta como facilmente identificáveis entre o autor do crime e seu cliente, está a questão do peso: Reid seria cerca de 20 quilos mais magro que o homem identificado nas câmeras. Segundo a defesa, ele não tem "braços flácidos" como o verdadeiro culpado.

"A polícia poderia ter checado sua altura e seu peso ou tentado dialogar com ele [Randal Reid], ou ainda ter pedido a ele para entrar em sua casa e procurar evidências. Ele teria colaborado", garante o advogado.

Calogero diz que, entre as pistas que levou a polícia a reconhecer que houve um erro, estava uma verruga no rosto de Reid, que aparentemente não foi levada em consideração pelo software.

(*) Com informações de Ars Technica e The Times-Picayune