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Qual impacto do 5G nos aviões? Entenda treta envolvendo operadoras nos EUA

Terminal do Aeroporto Internacional de San Diego, na Califórnia, nos Estados Unidos - iStock
Terminal do Aeroporto Internacional de San Diego, na Califórnia, nos Estados Unidos Imagem: iStock

Abinoan Santiago

Colaboração para Tilt*, em Florianópolis

19/01/2022 04h00Atualizada em 19/01/2022 16h53

Em 13 de janeiro deste ano a FAA (Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, em português) passou a emitir alertas sobre o potencial impacto do 5G sem fio às aeronaves. Os avisos são mais um capítulo do embate entre o órgão que regulamenta o setor aéreo no país e as empresas AT&T e Verizon, vencedoras do leilão para exploração da tecnologia de telefonia por lá.

A "treta" chegou até a adiar por duas vezes o início da operação do 5G nos Estados Unidos, agora previsto começar nesta quarta-feira (19). Segundo a FAA, existe a possibilidade de a tecnologia sem fio interferir no funcionamento de alguns instrumentos dos aviões.

O caso é tratado com tanta importância pela FAA, que o órgão chegou a criar uma página em seu site somente para sanar questões que envolvem essa batalha travada contra as gigantes de telefonia que vão explorar o serviço.

Por que a polêmica?

O 5G nos Estados Unidos usará as faixas de frequência (funcionam como se fossem pistas de uma rodovia para o funcionamento da rede) de 3,7 GHz a 3,98 GHz — o leilão arrecadou por lá cerca de US$ 80 bilhões. A radionavegação aeronáutica — que ajuda a determinar a posição das aeronaves— utiliza a de 4,2 GHz a 4,4 GHz.

A diferença entre as duas faixas está próxima do limite recomendado pela OACI (Organização da Aviação Civil Internacional, em português), que sugere um intervalo de 200 MHz em relação às frequências usadas pelo 5G e pela radiofrequência do sistema aéreo.

Essa proximidade poderia afetar o altímetro do radar dos aviões, por exemplo. O instrumento é o que mede a altura de uma aeronave a partir de um ponto de referência na Terra, como a pista de pouso.

Potenciais danos a partir de interferências do 5G sem fio nos altímetros seriam eventuais mudanças de rotas de voos, atrasos e cancelamentos.

Em um comunicado no fim de 2021, a Boeing e Airbus, maiores fabricantes de aviões comerciais do mundo, endossaram a posição da FAA.

Uma estimativa da associação Airlines for America, que representa as companhias aéreas da América do Norte, apontou que, se o 5G estivesse em vigor em 2019, cerca de 345 mil voos de passageiros e 5,4 mil voos de carga teriam enfrentado atrasos, desvios ou cancelamentos.

Aeroportos dos EUA poderão sofrer com atrasos e cancelamentos de voos, com o 5G próximo - Getty Images - Getty Images
Aeroportos dos EUA poderão sofrer com atrasos e cancelamentos de voos, com o 5G próximo
Imagem: Getty Images

Por outro lado, a CTIA (Associação das Indústrias de Tecnologia de Celulares, em português), contesta a FAA, afirmando que a indústria da aviação atua para espalhar medo e distorcer os fatos.

A CTIA ainda estima que a cada atraso, o setor de telefonia perde dinheiro em um momento de crise decorrente da pandemia.

Uma possível solução seria a instalação de filtros bloqueadores pelas empresas aéreas, mas essa possibilidade não foi considerada. Outra solução é tentar migrar os serviços dos altímetros para outra faixa de frequência.

O Brasil utilizou esta última alternativa, por exemplo. Havia uma questão semelhante envolvendo 5G e sinais de antenas parabólicas - uma das frequências da nova tecnologia poderia arruinar o sinal de quem assiste TV dessa forma.

Dentre as vencedoras do leilão o 5G, uma das obrigações é que a empresa distribua kits para quem tem TV parabólica, que vai ser migrada para uma "avenida" maior. Assim, pelo menos 9 milhões de pessoas não perderão acesso a canais abertos com a implantação do 5G.

Solução temporária: desligar o 5G nos aeroportos

As empresas de telecomunicações cederam duas vezes à pressão da FAA e adiaram a implantação do 5G, prevista inicialmente para novembro e depois para 5 de janeiro de 2022.

No início deste ano, a AT&T e Verizon abriram mão novamente da data e o processo ficou marcado para começar nesta semana.

Para isso, as empresas apresentaram um plano de mitigação de possíveis danos, com a criação de zonas tampão em aeroportos. Nessas áreas, o 5G não funcionará e, com isso, não causará eventuais interferências às aeronaves.

Uma lista de 50 aeroportos norte-americanos com zonas tampão foi divulgada, em 7 de janeiro, pela FAA. Essas áreas não terão o 5G por seis meses, período a ser usado pelas empresas para encontrarem outra solução.

Foram levadas em consideração para a escolha dos aeroportos o volume de tráfego, número de dias de baixa visibilidade ao piloto durante pousos e decolagens e localização geográfica dos terminais.

"As empresas de telecomunicações concordaram em desligar os transmissores e fazer outros ajustes perto desses aeroportos por seis meses para minimizar a potencial interferência 5G com instrumentos de aeronaves sensíveis usados em pousos de baixa visibilidade", confirmou a FAA, em seu comunicado de 7 de janeiro.

Em relação aos demais aeroportos, os alertas da FAA emitidos recentemente são referentes aos terminais em áreas com 5G a partir de hoje.

O documento diz que "aeronaves com altímetros não testados ou que precisam de adaptação ou substituição não poderão realizar pousos de baixa visibilidade onde o 5G for implantado".

Além disso, a FAA liberou cerca de 45% da frota de aviões comerciais do país para realizar pousos de baixa visibilidade em muitos aeroportos onde a frequência da rede 5G será implantada a partir de agora.

A liberação é para os modelos Boeing 737, 747, 757, 767, MD-10/-11 e Airbus A310, A319, A320, A321, A330 e A350.

Isso liberaria as pistas de 45 dos 88 aeroportos diretamente afetados pela frequência 5G. A FAA não informou se os 50 terminais onde não terá a tecnologia estão incluídos nessa nova listagem.

Antena 5G poderia afetar radares nos EUA - Guilherme Martimon/Mapa  - Guilherme Martimon/Mapa
Antena 5G poderia afetar radares nos EUA
Imagem: Guilherme Martimon/Mapa

Como funciona em outros países

Demais países, como Coreia do Sul, França e Japão, já implantaram o 5G, porém, sem polêmicas sobre a interferência da tecnologia em voos.

Acontece que, nos Estados Unidos, as regras de aviação são bem mais rígidas, consideradas pela própria FAA, "as mais complexas do mundo".

Além disso, em outros países, de acordo com a FAA, a implantação do 5G adotou procedimentos diferentes.

Um exemplo é a posição das antenas. Enquanto na França, elas são inclinadas para baixo para reduzir impactos em voos, nos Estados Unidos, são colocadas na posição vertical.

Outra diferença está na frequência usada pelo 5G e pelos radares. Apenas nos Estados Unidos, por enquanto, foi verificado que ambos utilizarão frequências próximas uma da outra.

O nível de energia de radiação do 5G nos Estados Unidos também não é igual a outros lugares, sendo 2,5 vezes maior.

Em 2019, a União Europeia adotou padrões de médio porte na faixa de 3,4 a 3,8 GHz, uma frequência mais baixa do que o usado pelos Estados Unidos.

E no Brasil?

Desde o início de 2021, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) também analisam a possível interferência do 5G em voos.

Em 4 de janeiro deste ano, a Embraer, empresa brasileiras de fabricação de aeronaves, também informou que pretende realizar estudos sobre eventuais problemas da tecnologia para seus aviões.

Apesar disso, a Anatel avalia não alterar prazos para começar a operação do 5G no Brasil, previsto para meados de 2022 nas capitais e Distrito Federal.

A segurança das autoridades brasileiras está fundamentada por uma questão técnica. O Brasil tem uma folga muito maior entre as faixas do 5G e a usada pelos radares dos aviões.

A principal faixa leiloada para oferecer o 5G para os consumidores, por exemplo, é de 3,5 GHz, que compreende 3,3 GHz a 3,7 GHz. Isso daria uma diferença de pelo menos 500 MHz de segurança.

*Com informações da agência de notícias Reuters