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Celebs, casais e botox: o que realmente mexe com as jovens no Instagram

Mathias Pape/UOL
Imagem: Mathias Pape/UOL

Fabiana Uchinaka e Guilherme Tagiaroli

De Tilt, em São Paulo

09/12/2021 04h00

O que todo mundo desconfiava ficou confirmado quando documentos internos foram divulgados pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal: o Instagram pode ser tóxico para jovens, especialmente mulheres —e o Facebook (agora Meta) sabe disso. Mas uma análise mais detalhada do relatório revela que são os posts sobre namoro e romances, beleza e intervenções estéticas e que enfatizam os corpos das celebridades, nesta ordem, que mais mexem com a saúde mental das adolescentes.

As imagens que constam dos chamados Facebook Papers, vazados pela ex-funcionária Frances Haugen, não podem ser divulgadas, por acordo, mas Tilt teve acesso ao material e ilustrou abaixo o que a própria empresa indica que joga as pessoas para baixo.

O Instagram conduziu uma pesquisa no início de 2021 com mais de 50 mil pessoas de 10 países, incluindo o Brasil, e perguntou:

  • "Com que frequência você vê posts que fazem você se sentir mal sobre seu corpo ou aparência?"
  • "Com que frequência você compara sua aparência com a aparência das pessoas no Instagram?"
  • "Quanta pressão você sente para parecer perfeita/o no Instagram?"

A rede social ainda analisou o histórico de navegação dos participantes durante os 14 dias anteriores ao experimento e identificou tópicos oferecidos pelo sistema de aprendizado de máquina. As respostas apontam para dois grandes temas sensíveis que tocam na autoestima e na autoimagem das pessoas: moda e beleza, potencializados por celebridades, e comportamentos associados a familiares e amigos.

  • Beleza e moda

Tilt - Relatorio FB - Ilustração Beleza - Mathias Pape/UOL - Mathias Pape/UOL
Exemplos de posts sobre injeção de toxinas no rosto, maquiagem e cosméticos e procedimentos faciais da categoria “Maquiagem, Cosméticos e Skin Care” encontrados no Instagram. O documento aponta que “pessoas que veem mais conteúdos como estes sentem altos níveis de comparação de aparência.”
Imagem: Mathias Pape/UOL

Você com certeza viu alguns dos posts acima no seu feed —para não dizer dezenas deles. Eles representam um quarto do conteúdo visto pela maioria das pessoas na rede e um terço dos posts consumidos pelas meninas jovens.

Lembrando que o Instagram permite apenas que maiores de 13 anos criem um perfil. Para quem tem menos que isso, é obrigatório que uma pessoa seja responsável pelo monitoramento e tenha seu nome indicado na biografia da página.

Qualquer mulher com acesso ao Instagram já experimentou o que o algoritmo oferece: infinitos tutoriais de maquiagens, discussões intermináveis sobre cuidados com a pele e rotinas de skin care, cortes de cabelo e planos de cronograma capilar, nail art, procedimentos estéticos de todos os tipos e em todas as partes do corpo, sem falar nos constantes posts de antes e depois, seja de depilação (ou design de sobrancelhas), emagrecimento ou pessoas envelhecendo bem ou mal.

Além de detalhar uma lista enorme de itens a serem supostamente alcançados por quem quer ficar bem na foto, o relatório mostra que os casos mais problemáticos constam das publicações de moda que focam o corpo de mulheres magras, posando de roupa ou traje de banho, ou que enfatizam detalhes do corpo, como decotes e jeans justos, e do rosto.

Tilt - Relatorio FB - Ilustração Moda - Mathias Pape/UOL - Mathias Pape/UOL
Exemplos de posts que enfatizam os corpos das mulheres na categoria “Moda e Beleza”. O documento aponta que “pessoas que veem uma grande proporção de conteúdos como estes sentem que o Instagram as faz sentir pior em relação a seus corpos e aparência.”
Imagem: Mathias Pape/UOL

Não é de hoje que as adolescentes se espelham em suas celebridades favoritas nem é novidade que existe um culto a corpos (supostamente) perfeitos. O que o relatório evidencia é que o Instagram fornece um volume e uma constância sem precedentes de imagens do tipo para pessoas viciadas em rolar o feed.

"Ver posts de moda faz as pessoas se sentirem piores em relação a elas mesmas porque o Instagram parece 'realista' mas com padrões de realidade de celebridades", diz o documento.

Segundo o estudo, o app foi considerado o pior em termos de comparação social negativa baseada em aparência e pressão por perfeição. Esses sentimentos ruins causados pelos posts afetam quase metade das adolescentes, e isso "agrava os problemas de quem tem distúrbios de autoimagem e alimentares, de ansiedade e solidão", conforme demonstrado pela literatura científica sobre o tema anexada ao estudo.

Para um terço das meninas, a comparação acontece "frequentemente ou sempre".

  • Celebridades que enfatizam seus corpos

Tilt - Relatorio FB - Ilustração Estrela Pop - Mathias Pape/UOL - Mathias Pape/UOL
Exemplos de posts que enfatizam os corpos de celebridades do mundo da “Música, Áudio e Artes de Performance”. O documento aponta que “estas categorias podem fazer com que as pessoas se sintam pior em relação a seus corpos.” quem as vê
Imagem: Mathias Pape/UOL

"Entrevistas com garotas indicam que ver publicações de uma celebridade de forma individual não é problemático", aprofunda o documento. "Agora, ver múltiplas postagens de conteúdo com celebridades amplifica o efeito [de comparação de aparência], particularmente quando as amigas delas imitam os padrões de beleza e moda das famosas."

Entre as chamadas "pop stars ocidentais que enfatizam seus corpos" aparecem as cantoras Cardi B, Selena Gomez, Ariana Grande e Miley Cyrus. Entre os homens, Justin Bieber (casado com uma modelo) e John Cena são citados como os que mais causam comparações. O único artista que causa o inverso é Michael Jackson.

Suas performances artísticas e suas músicas, por si só, não têm necessariamente a ver com o corpo, analisa o texto, "mas o impacto na comparação de aparência é mais provável que se deva a uma ênfase em corpos de celebridades, modelos e atores e atrizes."

"No entanto, não sabemos especificamente o que faz os conteúdos dessas celebridades problemático. Eles correspondem a um ideal de beleza ocidental? Ou simplesmente porque elas têm uma grande base de fãs adolescentes?"

A pesquisa também chama atenção para o fato de que são as contas populares e de não-amigos que mais afetam as pessoas no quesito "se sentir mal com o próprio corpo e aparência", apesar do mal-estar provocado por amigos e amigas que imitam o visual de pop star.

  • Contas populares são as que têm 0,1% de seguidores globais ou de um país e que fornecem mais da metade (54%) dos conteúdos que as pessoas visualizam.
  • Os perfis de não-amigos são os que aparecem no feed por sugestão do algoritmo ou na aba "Explorar"

"Para cada conteúdo de amigo visto por uma garota adolescente, ela vê cinco vezes mais conteúdos de contas populares", ressalta a pesquisa. "Devemos tornar mais fácil para as adolescentes encontrar e consumir conteúdo dos seus amigos, sobretudo os mais próximos."

  • Relacionamentos, família e amigos

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Exemplos de posts da categoria “Relacionamentos, Amigos e Família”. Eles enfatizam memes sobre estar sem parceiros, fotos de casais “perfeitos” e comparações entre amigas. O documento aponta que esse tipo de conteúdo está associado a “altos níveis de comparação de aparência.”
Imagem: Mathias Pape/UOL

Este tópico foi considerado pelos pesquisadores "mais complicado". Ele inclui subtópicos que fazem as pessoas se sentirem mal, como romances, namoros, encontros, sexo e intimidade.

A questão aqui é que a interpretação sobre o conteúdo varia bastante, de acordo com o humor e o status de relacionamento.

O relatório cita exemplos de memes do tipo "precisa-se de uma namorada", fotos de casais "perfeitos" e posts que remetem a romance e intimidade como problemáticos.

Memes que falam da dificuldade para conseguir um relacionamento, em tese, poderiam reduzir o "efeito comparativo" ao tirar sarro de uma situação comum a muitas pessoas, mas também podem causar efeito contrário se a pessoa não levar na esportiva.

Vale ressaltar que conteúdos de relacionamento causam muito mais efeito comparativo quando publicados por contas populares ou por não-amigos.

"Não existe associação estatística em conteúdo de relacionamento postado por amigos", diz o estudo, que levanta a hipótese de que isso acontece porque as pessoas sabem as dificuldades e o contexto dos seus amigos e conhecidos.

A comparação de aparência não é algo ruim, explica o psicanalista Christian Dunker, colunista de Tilt. "Todo mundo tem um certo narcisismo, e é saudável ter amor-próprio. O comportamento se torna doentio quando vira uma obsessão, quando a pessoa se governa baseada no desejo de outra."

Esse é um movimento muito forte durante a adolescência. Nesta época, diz ele, ocorre a segunda experiência de autoimagem das pessoas (a primeira se dá aos 6 meses de vida), e ela costuma ser bem dura.

"É um conjunto grande de transformações: muda corpo e a voz. Sem contar que você é interpelado para dizer quem é e o que quer ser. A pessoa se aproxima do real, e isso explica transtornos de imagem nessa fase, como dismorfia corporal (quando a pessoa valoriza muito um defeito que tem)", ressalta Dunker.

O documento interno indica ainda que o Instagram poderia minimizar estes efeitos, especialmente em posts direcionados a adolescentes e jovens adultos, e sugere medidas bem claras:

  • Reduzir o alcance dos tópicos (moda e beleza, relacionamentos, estrelas do pop e corpos de mulheres) na aba Explorar e em Reels;
  • Reduzir a recomendação para seguir celebridades que postam conteúdos de moda e beleza;
  • Encorajar o consumo de outros conteúdos e atividades após usuários consumirem grandes volumes de posts sobre beleza, moda e relacionamento;
  • Aplicar diretrizes para não recomendar conteúdos sexualmente sugestivos para adolescentes;
  • Fornecer melhores controles de conteúdo para permitir que pessoas ocultem fotos sexualmente sugestivas e que enfatizam rostos e corpos de mulheres.

A pesquisa buscou saber quais tipos de conteúdo não causam esse mal-estar e descobriu que esportes, religião, atividades políticas ou hobbies (artesanato, jardinagem, jogos, TV e filmes) têm algo em comum: enfatizam um senso maior de coletividade em vez de focar num indivíduo.

Em manifestações ao público, o Facebook diz isso: que o Instagram faz bem diante do seu papel de aproximar pessoas e que as redes sociais trazem aspectos bons e ruins.

Em comunicado enviado a Tilt, a Meta diz que realiza este tipo de pesquisa "para fazer perguntas difíceis e descobrir como podemos melhorar a experiência das pessoas". Além disso, parece empenhada em explorar apenas uma das recomendações feitas pelos autores do relatório: "encorajar as pessoas a olharem outros tópicos, se estiverem vendo por muito tempo posts sobre determinado assunto". Também lançou agora o recurso "Dar uma pausa", que permite configurar alertas após uso contínuo da rede por determinado tempo —embora não tenha reagido quando recebeu o estudo.

Apesar da preocupação manifestada agora, um comentário postado por um/a funcionário/a do Facebook no estudo ressalta: "Estou curioso/a sobre a recomendação para 'reduzir a exposição a conteúdos de celebridades' —o Instagram não é basicamente sobre isso? Observar a vida dos (muito atraentes) top 0,1%? Não é para isso que os adolescentes estão na plataforma?"

Em resposta, Moira Burke, cientista de dados do Facebook, diz que os conteúdos problemáticos deveriam ser repensados na aba "Explorar" (onde você não escolhe o que quer ver ou quem seguir) e enfatiza que os posts são mostrados para "populações vulneráveis (como adolescentes)", por isso deveria haver alguma forma de controle para que quem se sinta suscetível a comparações possa escolher não ver.

Isso ainda não foi feito, e a Meta não manifestou uma intenção de adotar a medida.

Após a repercussão que este estudo causou, um grupo de 300 cientistas da área de psicologia, tecnologia e saúde dos EUA pediu que a empresa disponibilizasse publicamente os relatórios por considerarem que ela tem a "obrigação moral e ética de alinhar suas pesquisas sobre crianças e adolescentes com padrões de evidências usadas no estudo de saúde mental".

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As informações foram tiradas de documentos revelados à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) e fornecidas ao Congresso dos Estados Unidos de forma editada pela assessoria legal de Frances Haugen. Desde então, um consórcio de veículos de notícias analisa o material. No Brasil, o Núcleo Jornalismo teve acesso aos documentos e fez uma parceria com Tilt para que as informações fossem compartilhadas.