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Por que não caiu? Como prédio de 85 anos e 7.000 toneladas "andou" na China

Prédio na China é movido de lugar com ajuda de pernas robóticas - Reprodução/CCTV
Prédio na China é movido de lugar com ajuda de pernas robóticas Imagem: Reprodução/CCTV

Felipe Oliveira

Colaboração para Tilt

29/10/2020 04h00

Um vídeo de um prédio com cerca de 7.000 toneladas "caminhando" em Xangai, na China, viralizou na semana passada e surpreendeu muita gente pela engenharia envolvida. O prédio pertence a uma escola primária e foi construído em 1935. Estava em uma área onde será construído um centro comercial, mas não podia ser demolido por ser tombado como patrimônio público.

A solução encontrada foi deslocá-lo inteiro para outro lugar. Além de não ser muito comum vermos edifícios "passeando" pelas cidades, o mais curioso é: como uma construção tão pesada e com 85 anos de idade não desmoronou ao ser deslocada?

É preciso bastante paciência para fazer um prédio desse tamanho caminhar. Para movê-lo por 60 metros foram necessários 18 dias. Isso porque um movimento muito brusco pode causar problemas na estrutura, como rachaduras ou até comprometer vigas e colunas.

Além disso, uma das partes mais importantes é o chamado "macaqueamento". O próprio nome dá uma dica sobre o que seria essa técnica: assim como na troca do pneu de um carro, os envolvidos suspenderam a construção para conseguir deslocá-la. Para isso, usaram cerca de 200 pernas robóticas, que foram posicionadas embaixo do edifício.

Esse foi o momento mais importante, já que a estrutura tem de ser levantada de forma homogênea. Se um lado do prédio se movimentar na vertical pouco mais que o outro, pode causar um efeito parecido com o de um recalque —um assentamento do solo que inclina o edifício, comum nas construções em Santos (SP). Isso causa rachaduras e pode danificar gravemente a construção.

Desconectando o prédio da fundação

Você também pode ter se perguntado se o prédio não possuía fundações. Obviamente que sim, por isso os engenheiros responsáveis pela obra tiveram de pensar em como desconectar o edifício delas. Os chineses não divulgaram se eram profundas ou mais detalhes sobre elas.

Para isso, eles levantaram as pernas mecânicas até encostar no prédio. É como o momento em que você encosta o macaco na estrutura do carro, o último ponto antes de começar a fazer força. Quando as pernas robóticas estavam exatamente nesta posição, permitiu aos engenheiros cortar essa ligação com as fundações, transformando os robôs no único apoio do edifício.

O movimento contrário foi realizado quando o prédio chegou ao local desejado. A estrutura foi baixada lentamente até um ponto que fosse possível ligá-la às fundações que já estavam preparadas no lugar desejado. Essa ligação é feita por meio de um novo pedacinho de pilar, que uniu os pontos.

O passo a passo do deslocamento

Se você viu o vídeo que viralizou, deve ter percebido que as cerca de 200 pernas robóticas que foram implantadas na estrutura do prédio atuavam como se fossem verdadeiras pernas humanas.

Mas esses equipamentos não devem possuir apenas força para conseguir levantar uma estrutura tão pesada. Os movimentos devem ser realizados com extrema coordenação e precisão para que não se tenha, novamente, o risco de recalque.

Por isso o prédio se movimentou de forma tão lenta, "caminhando" por 60 metros em 18 dias. Os engenheiros tiveram de observar passo a passo para saber se todas as pernas seguiram a programação de levantarem (ou baixarem) ao mesmo tempo e na mesma altura.

O caminho percorrido também foi bastante importante, já que não poderia ter nenhum desnível. Ou seja, o solo deveria estar perfeitamente plano para não trazer riscos de danificar a estrutura.

Condições para movimentação

Fazer o macaqueamento necessita de alguns cuidados, e o prédio deve comportar o posicionamento dos robôs nos pontos certos.

Como não foram divulgadas muitas informações, não sabemos se a estrutura da escola tinha pontos que permitiam a instalação dos robôs, mesmo sendo construída em 1935, ou se um trabalho de preparo foi necessário.

Se a segunda alternativa foi a escolhida, seria algo próximo do que os engenheiros brasileiros fazem quando precisam reformar uma ponte, onde um macaco será colocado para a manutenção da estrutura.

Além disso, apesar de extremamente pesado, o prédio deslocado pelos chineses não era uma estrutura particularmente alta. Isso ajuda para que não se tenha nenhum problema de estabilidade com, por exemplo, o vento durante o trajeto. Uma estrutura um pouco mais alta poderia simplesmente tombar com pequenas rajadas.

Fonte: Fabio Selleio Prado, professor de estruturas do curso de engenharia civil do Instituto Mauá de Tecnologia