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Lavando a água: como seria se jogássemos sabão para despoluir os rios?

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

22/09/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Se você não sabe, o sabão já é um dos principais poluidores de rios
  • Ele diminui a tensão superficial da água, "soltando" o oxigênio
  • Peixes e outros organismos dependem de oxigênio para respirar
  • Há técnicas capazes de despoluir, mas elas dependem de saneamento

Se você mora em uma cidade grande brasileira, é bem provável que exista um rio poluído perto da sua casa. Ele pode ser desde um córrego com uma determinado grau de poluição até um rio com trecho morto, como o Tietê, em São Paulo. Diante de um cenário tão desolador, é natural pensarmos em possíveis soluções milagrosas.

Afinal, se boa parte da poluição dos rios vem do esgoto, por que não jogar sabão para "limpar" a água e fazer com que os rios fiquem limpinhos e cheirosos, não é mesmo? Como seria se a gente simplesmente jogasse toneladas de sabão ou, ainda, daqueles produtos de limpeza que desentopem qualquer cano dentro de um rio?

Se na teoria essa ideia já parece bastante absurda, na prática ela se mostraria completamente desastrosa pelo simples fato de que os detergentes já são um dos principais agentes poluidores de rios, córregos e similares.

Sabão também é poluição

Para quem ainda não sabe, sabão polui. A explicação para isso é que essas substâncias têm como principal característica diminuir a tensão superficial de líquidos —efeito físico que faz com que a parte superficial de um líquido se torne uma espécie de membrana elástica. É essa propriedade que torna o detergente útil quando vamos lavar uma panela engordurada, já que a tensão entre a água e o óleo diminui.

Em um rio, o sabão faz com que a tensão superficial da água diminua, fazendo com que as bolhas de ar fiquem menos tempo em contato com esse meio. Isso afeta a oxigenação do ambiente e, por tabela, atrapalha bastante a vida de peixes e outros organismos que dependem do oxigênio da água para respirarem.

Além disso, muitos rios estão contaminados com materiais inorgânicos, com quem essas substâncias podem (ou não reagir) para uma suposta "limpeza". As reações químicas entre as substâncias podem formar algo ainda mais tóxico e piorar a situação.

População indesejável

Outro efeito causado pelo sabão é a chamada eutrofização dos corpos hídricos. Isso ocorre porque detergentes contêm substâncias conhecidas como agentes sequestrantes, que melhoram o seu poder de limpeza.

No ambiente, esses agentes servem de nutrientes para as algas e cianobactérias. A proliferação desses dois organismos causa um desequilíbrio ambiental, torna a água mais turva, diminui ainda mais a presença de oxigênio no meio e afeta (de novo) seres vivos como os peixes.

Todo rio pode ser despoluído?

Se a ideia de jogar sabão nos rios não funciona —e, agora, você sabe o motivo—, como é possível despoluir um rio? A primeira parte da resposta vem da avaliação do rio, se ele está "vivo" ou "morto".

Um rio considerado morto é aquele que não consegue sustentar nenhuma forma de vida animal ou vegetal - aqui exclui-se organismos anaeróbios, que vivem sem oxigênio. Para um rio estar "vivo", ele precisa ter pelo menos 5% de oxigenação —ainda que o ideal seja em torno de 7%.

Mas mesmo um rio considerado morto pode ser recuperado. Isso depende de vários fatores (como o tipo de poluição), mas o principal é a condição de sua nascente. Um rio como o Tietê, que cruza a cidade de São Paulo —onde recebe uma grande carga de poluentes— pode ser recuperado enquanto sua nascente estiver minimamente limpa. Do contrário, a tarefa fica bem complicada e pode até mesmo ser impossível.

Como se despolui um rio?

Há uma série de técnicas para isso e tudo depende do tipo de rio e da sua localização. Há por exemplo a flotação, que usa uma espécie de espuma para arrastar impurezas para a superfície, facilitando sua remoção; ou ainda o uso de lodo ativado, que gruda em poluentes e vai para o fundo do rio, sendo retirado em seguida; além do gradeamento, que é uma espécie de "peneira" usada para remover objetos grandes de um rio.

A técnica mais eficiente, no entanto, é a prevenção. Uma vez que se isole e trate o esgoto que iria parar dentro dos rios, o próprio fluxo de água tende a fazer uma limpeza. Aí, usa-se um dos métodos acima para acelerar o processo. O problema é que isso só é simples de se fazer na teoria, especialmente nas grandes cidades brasileiras, que é onde se concentra a maior parte dos rios poluídos.

Cenário crítico

De acordo com a ANA (Agência Nacional das Águas), a água de pior qualidade encontra-se no entorno de regiões metropolitanas, com destaque para rios como o Tietê (São Paulo), o Iguaçu (Paraná) e o Guandu-Mirim (Rio de Janeiro).

Ainda segundo dados divulgados pela agência, há no território brasileiro pelo menos 83 mil quilômetros de rios poluídos. Sabe o que essa distância significa? Que se esses trechos poluídos fossem colocados em uma linha reta teríamos um "cordão" de água capaz de dar duas voltas na Terra.

A maldição do esgoto

Um dos maiores responsáveis pela poluição em rios urbanos é o esgoto produzido pela ocupação humana. No Brasil, saneamento básico ainda é bastante limitado: 45% da população brasileira não tem acesso a soluções de esgoto, sendo que 70% das cidades do país não têm estação de tratamento de dejetos.

Ter tratamento, nesse caso, nem conta muito, já que nas cidades com instalações do tipo somente 39% da poluição é retirada das águas.

Melhorar a condição dos rios no país passa, invariavelmente, pela ampliação do alcance do saneamento básico e, também, pelo aumento de sua eficiência.

Fontes:
Henrique Abrahão Charles, mestre em Biologia Animal no Curso de Pós-graduação do Instituto de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e biólogo-chefe do Parque Natural da Restinga do Barreto (RJ).

Laura de Freitas, doutora em Biociências e Biotecnologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e co-fundadora do canal de YouTube Nunca vi 1 Cientista.