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Dá para viver sem Facebook, Google e WhatsApp? Este cara conta como faz

Professor de Toulouse não usa serviços de gigantes como Facebook, Google e Amazon - Getty Images
Professor de Toulouse não usa serviços de gigantes como Facebook, Google e Amazon Imagem: Getty Images

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

29/10/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Professor na Universidade de Toulouse não usa serviços do Google, Facebook e Amazon
  • Ao Tilt, ele conta alternativas que descobriu e como é sua rotina sem as plataformas
  • Nikos Smyrnaios não tem sequer smartphone e não se comunica por WhatsApp
  • Ele alerta para os perigos causados pelas gigantes e diz que há vida sem elas

Imagine a sua vida sem mensagens do WhatsApp, posts do Facebook, fotos do Instagram, buscas do Google e compras da Amazon. Parece impossível? Pois é essa a rotina de Nikos Smyrnaios, professor associado no Departamento de Mídias Digitais na Universidade de Toulouse (França) e especialista sobre grandes empresas de tecnologia.

Smyrnaios é um crítico ferrenho dessas companhias e pode ser considerado um estranho na sociedade conectada atual. Facebook, YouTube e WhatsApp já superam o número de 2 bilhões de usuários mensais —cerca de um quarto da população mundial. E ele está de fora desse grupo por opção.

"Basicamente evito usar produtos de todas as companhias cujo modelo de negócio é baseado na exploração dos nossos dados pessoais", explica Nikos Smyrnaios em entrevista ao Tilt. Por isso, o professor não tem conta no Facebook, Google e Amazon. Tem mais: as preocupações em torno da vida digital fazem Smyrnaios sequer ter um smartphone.

"Vida normal"

A reportagem descobriu na prática a rotina diferente de Smyrnaios. Ao solicitar, em troca de emails, uma entrevista por WhatsApp para uma reportagem sobre a pressão para que Google e Facebook paguem por notícias de veículos de comunicação, recebi a resposta negativa para o uso do aplicativo.

A solução encontrada com o especialista envolveu o envio das respostas em um arquivo MP3 por email. Essa é só uma das particularidades que Nikos Smyrnaios carrega em sua rotina em relação ao mundo atual.

Parar de usar os serviços que regem nossa vida digital não foi uma decisão do dia para a noite, claro. Segundo o professor, a decisão foi gradual e se consolidou após concluir, em 2018, as pesquisas do seu livro "Internet Oligopoly: The Corporate Takeover of Our Digital World" (na tradução literal, algo como "Oligopólio da Internet: A Aquisição Corporativa do Nosso Mundo Digital").

"Tento pensar na minha vida sem usar os serviços dessas empresas como algo normal", diz à reportagem.

nikos - Reprodução - Reprodução
Nikos Smyrnaios é professor na Universidade de Toulouse (França) e especialista nas grandes empresas de tecnologia
Imagem: Reprodução

Mas é difícil aceitar a descrição "normal" aqui. Afinal, as grandes empresas evitadas pelo professor atualmente regem nosso cotidiano, são acusadas de monopólios em suas áreas e por isso enfrentam processos por práticas de mercado anticompetitivas.

O jornalista brasileiro Giuliander Carpes, aluno de doutorado em Toulouse, suspeitou que seu professor não usava grandes plataformas logo na entrevista para o curso. Em vez de usar algo corriqueiro como o Skype, a entrevista em vídeo ocorreu por uma plataforma obscura que Carpes sequer recorda o nome.

"Depois, na nossa primeira reunião aqui, ele mencionou que não usava smartphone e não era possível contatá-lo por aplicativos de mensagem como WhatsApp. Apenas por SMS, ligações telefônicas e email. Naquele encontro, ele demonstrou preocupação com como as grandes plataformas usam os nossos dados e falou para ficarmos atentos a isso", relembra Carpes.

Existem alternativas

Enquanto as gigantes de tecnologia tentam comprar ou destruir a concorrência, Smyrnaios busca serviços alternativos que cumpram o mesmo papel. A estratégia fica mais difícil, claro, a cada vez que uma nova startup é adquirida por uma das gigantes de tec.

"Parei de usar o Github quando ele foi adquirido pela Microsoft em 2018", exemplifica o professor.

A vida de Nikos Smyrnaios é baseada em trocas. Em vez de um smartphone, por exemplo, ele usa um celular Nokia apenas para ligações e SMS. Para substituir o Google, que atualmente domina nossa vida digital do navegador a serviços de mapas como Waze e Maps, foram vários serviços descobertos:

  • Em vez de buscar no Google, pesquisa no site DuckDuckGo, que oferece pesquisas sem ser rastreado
  • Em vez do Google Chrome, o navegador Brave ou Firefox
  • Em vez do Gmail, o Protonmail, que oferece criptografia de graça
  • Em vez do Google Maps ou Waze, o Openstreetmap
  • Em vez do YouTube, assiste a vídeos no PeerTube

As suas escolhas são todas baseadas em "alternativas amigáveis para a privacidade ou, quando possível, com código aberto". A lição de sua experiência, até o momento, é de que é possível viver sem os serviços das grandes empresas de tecnologia.

"Aprendi que existem alternativas viáveis para as suas ferramentas, que as performances dos serviços dessas gigantes não são tão boas como pensamos e que o valor delas reside apenas no seu grande número de usuários e não na tecnologia em si", aponta.

É claro que existem algumas exceções à regra, que ele aceita "se não houver outro jeito". O professor, por exemplo, navega em sites hospedados em servidores da AWS —o serviço da Amazon que controla cerca de 40% da hospedagem na nuvem. Ele diz que aceita isso "infelizmente" porque de outra forma não conseguiria navegar em metade da internet.

Para manter contato com amigos sem WhatsApp, Instagram ou perfil no Facebook, ele mantém uma conta no Twitter e faz outra exceção à regra: usa o Messenger, serviço de mensagens do Facebook, mas com várias medidas de proteção da sua privacidade.

"Eu uso o Messenger, mas protejo minhas informações pessoais ao não permitir que o Facebook conecte meu perfil à minha identidade real e a outras atividades online. Para isso, uso o Brave, navegador amigável para a privacidade, com uma VPN só para uso do Facebook com uma conta-pseudônimo criada com um email usado só com esse propósito", diz. Ufa.

Pressão de amigos

Imagine a reação de seus conhecidos se você fizesse algo como Nikos Smyrnaios. Provavelmente em pouco tempo sua mãe iria reclamar que não consegue falar com você no WhatsApp, sua amiga iria criticar por não estar no Instagram e seu colega reclamaria que não conseguiu enviar convite para um evento no Facebook. Tudo isso é controlável, segundo o professor.

"Pode ocorrer [a pressão]. Mas nesses momentos eu tento explicar as razões da minha recusa e as pessoas se mostram receptivas porque também entendem os riscos causados pelas grandes plataformas", conta.

Para Carpes, não há empecilho de comunicação com seu professor pelo especialista estar fora das grandes plataformas: basta ligar, mandar um SMS ou email que é prontamente atendido. Segundo o brasileiro, foram poucas adaptações para que essa relação funcionasse.

"Voltei a usar SMS, que já não usava no Brasil. Não só por causa do Nikos, mas por causa da França. Aqui as pessoas ainda são bem offline, usam muito o telefone para ligações, muita coisa ainda acontece só via correio. No começo da pandemia ainda usávamos plataformas desconhecidas de videoconferência, mas recentemente o Zoom passou a ser a plataforma oficial da universidade e o Nikos tem usado normalmente", relata.

O aluno considera "muito difícil" tomar uma decisão como a do seu mentor, embora concorde com os motivos dele estar fora das grandes plataformas.

"Não é de hoje que sabemos que elas sabem tudo o que fazemos. Mas o maior problema é que essas empresas desenvolveram um poderio econômico e político desproporcional por meio da compra ou imitação de competidores. Os reguladores já deviam ter tomado alguma providência para evitar essa concentração", relata o brasileiro, que estuda o impacto das plataformas no jornalismo e o uso de aplicativos de mensagem como o WhatsApp pelos meios de comunicação.

Smyrnaios não se vê como um "evangelista" da sua opção de não usar esses serviços —ou seja, não é uma daquelas pessoas que te encheriam a paciência para você parar de usar uma rede social. O professor diz que apenas tenta explicar seu ponto de vista e propor alternativas.

A "vida normal" de Smyrnaios segue longe das plataformas, apesar delas tornarem sua decisão cada vez mais complicada de seguir. E se você acha que há algum arrependimento e que imagina rever sua decisão em breve, está enganado.

"Não me vejo usando serviços dessas empresas no futuro próximo", sentencia.