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Quer ser rico como Bezos? Autor suíço dá a dica: falhe centenas de vezes

Alex Osterwalder, autor suíço criador do modelo Canvas - Barbara Hess/Strategyzer AG
Alex Osterwalder, autor suíço criador do modelo Canvas Imagem: Barbara Hess/Strategyzer AG

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt, em Dublin

10/10/2020 04h00

Teve a ideia de um aplicativo para revolucionar a maneira como a gente vive? Sonha em abrir uma startup e ser o novo Jeff Bezos, dono da Amazon e a pessoa com mais dinheiro do planeta? Pode sonhar: segundo Alex Osterwalder, nada disso é impossível.

O teórico suíço é o criador de um modelo de negócios conhecido como Canvas, que mudou a maneira como empresas do mundo todo têm pensado e executado suas ideias e estratégias corporativas. Atualmente, ele é considerado uma espécie de guru das startups.

Osterwalder afirma que o trabalho é árduo para alcançar esse patamar. Segundo ele, você precisa estar preparado para falhar centenas de vezes.

"Não se deixe intimidar pelo mito do gênio inovador. Todo mundo exalta o grande sucesso de Steve Jobs [fundador da Apple], mas ele só teve êxito porque falhou centenas de vezes", disse a Tilt ao ser questionado sobre conselhos para "iniciantes", principalmente em uma pandemia que tem arrasado pequenos empreendedores.

Segundo ele, o segredo está em experimentar. "Bezos gosta de dizer que uma ideia de projeto exitosa vai pagar pelas milhares de derrotas [que você vai encontrar no processo]", disse.

Em entrevista a Tilt, além de dicas para ser um empreendedor de sucesso, Osterwalder falou, entre outros assuntos, como consolidar uma empresa. "The Invincible Company" [A Empresa Invencível] é título do seu novo livro, publicado esse ano, ainda sem tradução para o português.

Tilt: O seu modelo de negócios pode ser aplicado em qualquer ambiente? Poderia ajudar, por exemplo, um pequeno empreendedor brasileiro tentando sobreviver à crise econômica?

Alex Osterwalder: Claro. No caso de uma pequena ou média empresa que foi atingida pela covid-19, ela precisa acessar o seu modelo de negócios, ver o que está funcionando e o que não está, para então começar a mudá-lo, melhorá-lo. Em "The Invincible Company", trouxemos uma série de padrões de modelos de negócios para que qualquer organização se questione para criar um modelo melhor.

Tilt: Qual negócio vai estar "vivo" quando a pandemia acabar?

Alex Osterwalder: [A pandemia] é uma grande disrupção, então o importante [nesse momento] é ser capaz de defender o negócio principal da empresa, torná-lo mais eficiente, se certificar de que você vai sobreviver e, ao mesmo tempo, se adaptar.

Mas não é uma habilidade que se aprende da noite para o dia. É preciso aprender com antecedência e construir isso dentro da sua estrutura de negócios, criando uma cultura de inovação.

Se você pegar a Airbnb, eles defenderam sua atividade principal e demitiram 25% dos funcionários. Eles disseram que tiveram que fazer isso; caso contrário, morreriam. Ao mesmo tempo, continuaram inovando e criando, mantiveram parte da equipe para inovar e permanecer resiliente. Eles devem sair dessa crise muito mais fortes. Esse tipo de comportamento é algo com que qualquer empresa de qualquer tamanho pode aprender.

Tilt: Qual será a lição da covid-19 para os negócios, especialmente aos pequenos empreendedores?

Alex Osterwalder: Agora, todos sabemos que precisamos nos tornar mais resilientes antes que a disrupção nos atinja. Claro que isso [a pandemia] não acontece todos os anos, mas existem crises menores que acontecem mais frequentemente.

Então, as empresas devem se tornar mais ágeis por causa da covid-19. Muitas dessas empresas conseguirão sobreviver, serão muito fortes e crescerão muito rapidamente.

Tilt: As gigantes da tecnologia ficaram mais ricas durante a pandemia. Quais estratégias essas empresas adotaram para obter mais lucro, enquanto as economias de diversos países sofriam perdas?

Alex Osterwalder: Para algumas delas houve, obviamente, um pouco de "sorte". A Netflix estava no lugar certo e na hora certa, então se beneficiou da pandemia porque, é claro, houve mais consumo de vídeos e entretenimento. No entanto, essa é a explicação fácil.

Se você pegar gigantes como a Amazon, não foi apenas sorte. Eles já haviam construído culturas de inovação incríveis [que souberam tirar proveito da situação].

Acho que agora é a hora de todas as empresas, de todos os tamanhos, aprenderem a se tornar uma máquina de inovação. A maioria das pessoas pensa que para inovar é preciso ter dinheiro, mas inovação não é cara. Tecnologia é que pode ser. Inovar é sobre criar valor para os clientes e isso pode requerer ou não tecnologia de ponta

Meu exemplo favorito é ainda o do Nintendo Wii, porque eles tiveram sucesso dentro da indústria com uma plataforma de tecnologia inferior [e já presente no mercado]. O que eles entenderam é que os jogadores casuais não estão preocupados com o desempenho da tecnologia, mas querem jogos divertidos.

Tilt: O título do seu novo livro é uma provocação, mas existe algum risco de que gigantes como Amazon, Google, Facebook sejam, um dia, vencidas?

Alex Osterwalder: Existem algumas empresas que são quase invencíveis, não apenas por causa dos modelos de negócios que construíram, mas porque estão constantemente se reinventando. Jeff Bezos gosta de dizer "a Amazon vai morrer, toda empresa vai morrer, assim que você parar de se reinventar".

Isso é acessível a pequenas empresas também. Na Suíça, a Laurastar faz ferros de passar a vapor e entrou em um segmento que usa vapor para desinfecção não apenas de roupas, mas apartamentos e lugares como hospitais, asilos. Isso requer a elaboração de um novo modelo de negócios e agilidade para se reinventar, além dos ferros de passar a roupa.

Tilt: Acredita que leis de proteção de dados, como a LGPD brasileira, vai mudar o modelo de negócios atual dessas empresas? Em que direção?

Alex Osterwalder: Eu acredito fortemente na regulamentação inteligente. Não acredito que empresas de tecnologia ou de qualquer tipo sempre farão a coisa certa, particularmente quando estamos falando de dados. Então precisamos de leis fortes para proteger os dados.

Elas terão impacto nos modelos de negócios? Com certeza. A regulamentação não é uma coisa ruim, se não tornar burocracia. Mas a autorregulação raramente funcionou na história dos negócios. Portanto, acho que precisamos encontrar o equilíbrio certo entre regulamentação e livre mercado para proteger os consumidores e a sociedade. Já começamos a ver muitas empresas tendo diretores de ética para realmente discutir o uso da tecnologia.

Tilt: Você tem algum conselho a dar para se criar uma startup do zero? Como alguém com uma ideia de aplicativo e que pensa ser tudo que a sociedade precisa?

Alex Osterwalder: Não superestime a ideia. Boas e más ideias, no início, parecem exatamente as mesmas. Comece, molde sua ideia com um modelo de negócios e saia a campo para experimentá-la. A parte difícil sobre inovação em um negócio empreendedor não é a ideia, mas a capacidade de adaptá-la até que crie valor para os clientes e um modelo de negócio lucrativo e escalável.

Encorajo você a não desistir na primeira ou na segunda falha, porque elas te farão melhorar

Pensa no [tenista suíço] Roger Federer. Ele não acordou um dia e se tornou uma estrela porque tem talento. Sim, ele é talentoso, mas se não tivesse trabalhado duro, não teria se tornado o melhor tenista do mundo. Em inovação é a mesma coisa. Você pode ter talento para inovação e empreendedorismo, mas só vai aprender a como fazer isso com o tempo.

Não se deixe intimidar por este mito do gênio inovador. Todos defendem o grande sucesso de Steve Jobs, mas ele só teve sucesso porque teve centenas de fracassos. O mesmo vale para os inovadores corporativos. Bezos gosta de dizer que uma ideia de projeto bem-sucedida pagará por milhares de fracassos. É assim que a Amazon, ou empresas semelhantes, experimentam constantemente. Porque elas sabem que apenas uma em mil ideias pode se tornar um grande sucesso.