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Como universidades públicas planejaram volta às aulas sem excluir alunos

Campus da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) - Reprodução/Google Street View
Campus da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Imagem: Reprodução/Google Street View

Rodrigo Trindade

De Tilt, em São Paulo

25/08/2020 04h00Atualizada em 25/08/2020 12h36

Com as aulas suspensas desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil, UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Unicamp (Universidade de Campinas) e UnB (Universidade de Brasília) usaram o tempo de paralisação para levantar quantos alunos, professores e funcionários estavam sem acesso à internet —e como solucionar isso. Um "auxílio emergencial" improvisado e editais ajudaram a trazer dinheiro para cobrir as novas despesas, e cursos ensinaram o caminho das pedras aos leigos em tecnologia.

As pesquisas internas das faculdades não se concentraram apenas ao acesso à tecnologia: se estenderam ao conhecimento das comunidades universitárias no uso das ferramentas digitais.

Um levantamento sobre acesso digital realizado pela UERJ foi atrás das condições que alunos (da graduação, pós-graduação e ensino básico), docentes e técnicos-administrativos têm para voltar às atividades no sistema home office. Entre os estudantes da graduação, mais de 11 mil preencheram os questionários online, primeira etapa do levantamento.

Destes, 88% têm acesso à banda larga, enquanto outros 7,7% também têm, mas compartilhando com vizinhos. Os demais não podem usar o recurso. Sobre a possibilidade de internet móvel no celular, quase 83% responderam que tinham acesso. Entre a parcela de alunos que disse não ter, a principal causa apontada foi o preço alto.

Na UnB, que deu início ao semestre de aulas remotas no dia 17 de agosto, quase 26 mil questionários foram preenchidos no levantamento. A adesão à pesquisa, realizada online e por meio de uma central telefônica, foi alta: quase 78% dos docentes responderam a ela, enquanto cerca de 50% dos alunos de graduação participaram.

Entre 6% e 7% dos alunos da universidade não têm acesso a computador ou tablet. Constatou-se ainda que 98% dos alunos têm como acessar a internet, mas nem sempre de boa qualidade. "Quando você combina quem não tem acesso (2%) com quem acesso precário ou lento, dá em torno de 30% dos alunos. Isso inclui quem tem banda larga ruim", destaca Lúcio Rennó, diretor do Instituto de Ciência Política da UNB.

A Unicamp também realizou uma análise interna, como complemento ao controle realizado pelo Serviço de Apoio ao Estudante, que identifica e acompanha regularmente alunos que ingressam na universidade em condição social mais vulnerável. Mais de 700 estudantes foram atendidos pelas políticas de inclusão digital.

Arregaçando as mangas

Para contornar a situação, a UERJ delineou três ações:

  • O pagamento de um auxílio emergencial para que alunos cotistas tenham acesso a material didático e equipamentos, a serem pagos em setembro;
  • Um edital para disponibilizar 12 mil pacotes de dados aos alunos cotistas e aqueles em vulnerabilidade social --com renda familiar per capita de até dois salários mínimos;
  • A aquisição de equipamentos, em especial tablets, para os alunos em vulnerabilidade. Aqueles que precisarem do aparelho podem pedir até esta sexta-feira (28).

Na UnB, cursos de treinamento foram oferecidos para professores se adaptarem à nova realidade, e os resultados da pesquisa motivaram a criação de um edital para auxílio emergencial para alunos sem computador ou internet.

Já a Unicamp realizou uma mobilização que foi além da aquisição de novos equipamentos. No final de março, a universidade desenhou um núcleo de voluntariado, que se preparou para receber doações de computadores e dinheiro para que o material pudesse ser emprestado a alunos em vulnerabilidade. Com estes recursos, foram adquiridos cerca de 300 tablets, enquanto mais de 450 equipamentos foram emprestados aos estudantes.

Os desafios

Por serem públicas, as três instituições de ensino tem características inclusivas. A UERJ, por exemplo, adota o sistema de cotas há 20 anos. "Nós temos um perfil social muito diversificado", afirma Luiz Augusto Campos, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e organizador da pesquisa na instituição.

Como a pesquisa aconteceu via questionário online, Campos destaca que é necessária uma pesquisa complementar por telefone e amostragem, que visa calibrar a estimativa. Os dados também são cruzados com a base de alunos matriculados da universidade.

As aulas de pós-graduação já voltaram, mas graduação e colégio da UERJ seguem suspensas. "A universidade consolidou a percepção que as que mudaram para o online deixaram para trás os universitários em situações vulneráveis", relata Campos.

O reitor da UERJ, Ricardo Lodi, destaca que a compra de aparelhos foi o ponto mais complicado, pois dependeu de uma negociação com o estado do Rio de Janeiro, que vive crise financeira.

A gente sabe que não vai ser igual ao presencial. Sabemos que as pessoas estão passando por um período de vida difícil, uns mais que os outros. Os mais vulneráveis sentem mais. Também queremos disponibilizar o espaço do campus para que os alunos possam acessar também wi-fi da universidade, tenham o espaço com segurança para desempenhar essa atividade emergencial
Ricardo Lodi

Do outro lado do espectro, a UERJ ofereceu treinamentos para que professores se familiarizassem com as ferramentas de ensino digital. "A exclusão digital não deriva só de equipamento", destaca Lodi, que marcou a retomada das aulas para 14 de setembro.

Rennó, da UnB, também apontou para a baixa familiaridade dos professores com a ferramenta de ensino usada pela instituição, a Moodle. Entre os alunos, a familiaridade é maior.

Na Unicamp, um núcleo de alunos foi criado para limpar, fazer consertos e modernizar computadores desatualizados recebidos a partir das doações. Em paralelo, outra equipe fez o levantamento de quem precisaria dos aparelhos para estudar remotamente —e se havia infraestrutura para aproveitar esses PCs em casa.

"Tinham máquinas sem placa de wi-fi, então precisaria de internet cabeada. Não era todo aluno que tinha isso em casa. Levantamos recursos, compramos tablets e chips e começamos a distribuir nessa sequência de critérios. Tem aluno que só precisava do chip, só da máquina, alguns que só adiantava se recebesse um tablet", conta a professora Dora Grassi-Kassisse, assessora da reitoria da Unicamp.

Durante seis meses, a instituição desembolsará R$ 12 mil mensais para manter em utilização 500 chips de celular, com pacotes de 10 GB por mês.

A mudança emergencial da Unicamp para o ensino remoto significou um ajuste no calendário letivo, que terminou em agosto. A retomada do semestre seguinte ficou prevista para 15 de setembro, com adaptações às novas condições de ensino.