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Átomos que fritam ovo sem grudar: entenda as panelas antiaderentes

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

04/06/2020 04h00

Tem muita gente que desiste de cozinhar só de pensar no trabalho de limpar as panelas ou tirar aquele grude da frigideira. Nessas horas, as panelas com revestimento antiaderente são uma tremenda ajuda. Mas você sabe o que faz com que os alimentos não grudem naquela sua panela preferida ou, ainda, por que ela é tão mais fácil de limpar?

A resposta envolve a aplicação de materiais diferentes, como cerâmicas, mas o mais popular deles é o PTFE, que é a sigla para uma palavrinha bem mais complicada: politetrafluoretileno.

A tecnologia por trás das panelas antiaderentes
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

O PTFE é um material composto por átomos de carbono e flúor. Trata-se de um tipo de polímero sintético fluorado, que tem a inércia como principal característica.

Isso significa que ele não reage com outros compostos e também tem um baixo coeficiente de atrito, o que leva outros materiais a deslizarem por sua superfície. Por fim, tem uma outra característica: a hidrofobicidade, que é a capacidade de repelir água e outros líquidos.

Por tudo isso, é preciso uma técnica especial para fixar o PTFE em uma superfície. O mais comum em panelas é um jato de areia na superfície da panela que receberá o revestimento, para aumentar a sua rugosidade.

Em seguida, a superfície recebe uma substância chamada primer, que age como uma "cola", aumentando a sua aderência. Depois disso, são colocadas camadas do PTFE em forma líquida e a panela é aquecida a 430 ºC para que essas camadas fiquem rígidas.

Mas essa não é a única forma de aplicar o revestimento. É possível submeter o PTFE a um processo para reduzir a força das ligações entre os átomos de sua composição, permitindo a adesão à superfície que será revestida. Depois disso, ele é aquecido e pressionado contra a superfície.

Por que alimentos não grudam nesses revestimentos?

O segredo está na estrutura do PTFE, formado por uma longa cadeia de átomos de carbono e flúor, uma das ligações mais fortes que existem na química orgânica. Essa ligação é tão forte que impede que outras substâncias grudem, o que dá a propriedade antiaderente ao composto.

Átomos de alumínio e ferro, ou materiais como aço, permitem mais interação com outras substâncias e, por isso, a aderência de alimentos às superfícies metálicas é mais fácil de acontecer.

Além de panelas, onde mais o PTFE é usado?

Apesar de ser mais comum vermos o uso do material em panelas, o PTFE acaba sendo uma boa opção para capas de chuva, tetos impermeáveis, fitas para vedar roscas de tubulações, circuitos eletrônicos e até mesmo em próteses.

Já em ambientes industriais, ele é usado para revestir pás de misturadores de alimentos em escala industrial e em tubos para condução de alimentos e lixo, por exemplo.

Além disso, há outras aplicações, como em recipientes para preparação de medicamentos ou, ainda, em reatores para a fabricação de substâncias corrosivas.

Por que não podemos usar utensílios de metal em superfícies antiaderentes?

Apesar de não permitirem que outras substâncias fiquem grudadas, os revestimentos antiaderentes não são resistentes a impactos, em especial com objetos duros e pontiagudos.

Por mais que usemos utensílios de madeira e plástico duros, eles ainda são menos duros do que os feitos de metal. Isso explica porque metal risca e arranca a fina camada de antiaderente, enquanto com outros materiais isso é mais difícil.

Panelas com revestimento do tipo podem causar riscos à saúde?

Vira e mexe ouvimos que panelas com revestimento antiaderente podem fazer os alimentos ficarem tóxicos ou algo do tipo. De qualquer maneira, uma das preocupações envolvia o chamado ácido perfluorooctanóico (PFOA), que era usado para produzir o PTFE. Hoje, essa substância não é mais usada na fabricação do antiaderente.

Isso não quer dizer que o PTFE seja totalmente seguro. Quer dizer: até 260 ºC, faixa de temperatura usada normalmente para cozinhar, as moléculas do material são estáveis. Mas, acima disso, o material começa a se degradar e gerar vapores tóxicos.

O ideal, neste caso, é seguir estritamente as orientações de uso do fabricante.

Outro possível risco diz respeito ao consumo acidental do material, o que pode ocorrer quando se usa uma panela riscada, por exemplo. Aqui, pelo fato do PTFE ser um material inerte, não há consenso de que essa situação poderia gerar riscos à saúde.

Fontes:

Adriana Martinelli Catelli de Souza, Coordenadora do Curso de Engenharia de Materiais do Centro Universitário FEI

Guilherme Wolf Lebrão, professor de Engenharia de Materiais do Curso de Engenharia Mecânica do Instituto Mauá de Tecnologia

Toda quinta, Tilt mostra que há tecnologia por trás de (quase) tudo que nos rodeia. Tem dúvida de algum objeto? Mande para a gente que vamos investigar.