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Arábia Saudita usou funcionários do Twitter para espionagem, e isso é sério

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Márcio Padrão

De Tilt, em São Paulo

23/02/2020 15h36

O governo da Arábia Saudita usou dois funcionários do Twitter de maio de 2015 até dezembro do ano passado, de acordo com uma queixa criminal do FBI. A informação foi publicada em uma reportagem do "Buzzfeed" na quinta-feira (20).

Ali Alzabarah e Ahmad Abouammo, funcionários da equipe de mídia global do Twitter, acessavam e forneciam regularmente informações que poderiam levar a inteligência saudita a encontrar dissidentes anônimos. Eles reportavam supostamente a Bader al-Asaker, chefe do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman.

As notícias contra eles foram publicadas a partir de novembro, mas a nova reportagem detalhou a extensão de seus papéis e habilidades dentro da empresa. Alzabarah, Abouammo e al-Asaker não responderam aos pedidos da reportagem do Buzzfeed.

Abouammo foi cooptado pelo governo saudita a partir de abril de 2014, de acordo com a denúncia do FBI. Uma empresa de relações públicas representando a Embaixada da Arábia Saudita pediu a Abouammo para verificar uma conta pertencente a uma personalidade da imprensa saudita, não mencionado pelo FBI. Isso foi o início de uma relação de trabalho com o governo do país.

Depois, um representante de um conselho de negócios da Arábia Saudita na Virgínia (EUA) pediu a Abouammo para que um grupo conhecesse a sede do Twitter em San Francisco. Supostamente com empreendedores, o grupo incluiu também Bader al-Asaker.

Abouammo e al-Asaker se encontraram em Londres alguns meses depois, segundo a denúncia. Na reunião, al-Asaker deu a Abouammo um relógio de cerâmica Hublot Unico Big Bang King Gold, avaliado hoje em mais de US$ 36 mil.

Uma semana depois de retornar à sede do Twitter em San Francisco, Abouammo entrou no sistema que ele usava para verificar usuários. Esse sistema armazena dados como endereços de email, números de telefone e o último tempo de logon de um usuário do Twitter - dados pessoais suficientes para rastrear este usuário na vida real.

Ao contrário do Facebook, o Twitter não tem uma política que exige que as pessoas usem seus nomes verdadeiros, por isso opositores a governos poderiam falar mais livremente nele sob pseudônimos. Mas em maio de 2015, Alzabarah "começou a acessar, sem autorização, dados privados de usuários do Twitter em massa ", de acordo com a denúncia do FBI. Em seis meses, Alzabarah retirou dados de mais de 6.000 usuários.

Alzabarah deixou foragido os EUA em dezembro. Ele e Abouammo, que permaneceu nos EUA, atualmente são indiciados no tribunal federal dos Estados Unidos sob a acusação de agir como agentes não declarados do governo saudita.

"Estamos trabalhando constantemente para garantir que nossos processos, sistemas e verificações protejam as pessoas que usam nossos serviços", disse um porta-voz do Twitter ao BuzzFeed News. "Isso inclui aprender com incidentes como esse".

"O acesso aos dados da empresa é limitado àqueles com justificativa comercial para acesso e é constantemente revisado", continuou o porta-voz. "Está claro em incidentes como esse que as ameaças evoluirão e mudarão, mas permaneceremos vigilantes. Nossos esforços proativos —e os esforços de toda a indústria— nunca se encerram".

A história pode ter acontecido na Arábia Saudita, mas mostra que a segurança das redes sociais pode ter pontos bem frágeis se pessoas mal intencionadas atacaram os pontos fracos certos, como corromper funcionários.

Imagina se no atual cenário de tensão política nacional e internacional, a moda pega e governos federal ou estaduais do Brasil ou de outros países passassem a fazer o mesmo?

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