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O que Ratinho acharia? Sêmen de homem contém só o DNA de outra pessoa

Graças a transplante de medula, americano tem DNA dele e de alemão - iStock
Graças a transplante de medula, americano tem DNA dele e de alemão Imagem: iStock

Daniel Dieb

Colaboração para Tilt

10/12/2019 14h25Atualizada em 12/12/2019 14h38

Sem tempo, irmão

  • Americano Chris Long descobriu que seu sêmen não contém mais seu DNA original
  • Há quatro anos ele passou por transplante de medula para tratar leucemia
  • Medicina chama de "quimerismo" quando alguém tem o próprio DNA e de outra pessoa
  • Descoberta poderá afetar ciência forense, que costuma usar DNA como evidência de crime

O DNA é o composto orgânico que contém todas as nossas informações genéticas e que diferenciam um indivíduo do outro, e os testes de paternidade dos programas de TV como o de Ratinho sabem disso muito bem. Mas o americano Chris Long descobriu recentemente que seu sêmen não contém mais seu DNA original, mas o de um alemão que ele nunca conheceu.

Ele ficou sabendo da mudança recentemente, quatro anos após passar por um transplante de medula óssea para tratar a leucemia mielóide aguda (LMA), segundo conta o New York Times.

Long, que vive em Reno, nos Estados Unidos, sabia que teria o DNA do doador no sangue. Era um efeito esperado, já que o objetivo do transplante era trocar o sangue fraco por um forte, e isso traz tudo com ele, incluindo o DNA. Isso porque o LMA é um tipo de câncer de sangue em que glóbulos brancos jovens, chamados de células leucêmicas, preenchem a medula óssea e a impedem de produzir sangue normalmente.

O que surpreendeu Long foi a extensão da alteração.

A colega de trabalho de Long no Departamento do Xerife de Washoe County, Renee Romero, falou que o transplante de 2015 poderia ter afetado mais do que o sangue dele.

Renee, que é chefe do laboratório de investigação forense, propôs a Long coletar e examinar amostras de diferentes partes do corpo. Os bastões de cotonete passados nos lábios e na bochecha de Long, por exemplo, continham DNA tanto dele quanto do doador da Alemanha, enquanto o cabelo tinha somente DNA dele mesmo.

A surpresa viria com o resultado do exame do sêmen de Long: todo o DNA era do doador. "Eu achei bastante incrível que eu consegui desaparecer e outra pessoa aparecer", disse ele ao NYT.

A medicina chama de "quimerismo" quando alguém tem em seu organismo o próprio DNA e de outra pessoa. O nome faz referência à figura da mitologia grega feita de partes de diferentes animais. Embora varie de lenda para lenda, a quimera normalmente é descrita sendo um leão com a cabeça de um bode saindo de suas costas e um rabo cuja ponta é cabeça de uma cobra.

As pessoas com quimerismo não costumam ser prejudicadas pelo DNA do outro, nem mudar de personalidade ou fisicamente.

Iracema Esteves, hematologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que o processo na verdade indica que o objetivo do transplante —trocar as células leucêmicas pelas saudáveis— obteve sucesso. "Se porventura o paciente rejeita a medula do doador, esse quimerismo não é de 100%. Essa é uma das formas de dizer se o transplante deu certo", explica.

O impacto da descoberta de Long pode afetar mais a ciência criminal do que a oncologia. Afinal, amostras de DNA costumam ser evidência de crime em muitos casos, e casos como este poderão dificultar as coisas para os investigadores.

E se alguém, num contexto similar ao de Long, cometer crime sexual e os investigadores coletarem amostras de semên com o DNA de outra pessoa? A questão deve ser levada em conta, embora não seja exatamente nova.

Em 2004, investigadores do Alaska consultaram a base de dados com DNA de criminosos para verificar se o dono do sêmen de um caso tinha passagem pela polícia. O sistema encontrou o suspeito. Mas, ele estava na prisão à época do acontecimento e havia passado por um transplante de medula óssea. O doador era seu irmão, que depois foi julgado e preso.

Há, ainda, a pergunta inevitável: mas e se ele tiver filhos? Ele passará seus genes ou os do doador alemão? Será difícil dizer, pois Long fez uma vasectomia após o nascimento do segundo filho.

Ao NYT, Andrew Rezvani, diretor médico do Stanford University Medical Center, disse, surpreso, que as células sanguíneas de um doador não deveriam ser capazes de criar novos espermatozoides. Mehrmad Abedi, médico que tratou Long, acredita que a vasectomia poderia ser a causa do DNA do alemão ter ido parar no sêmen do paciente.

Nelson Hamerschlak, coordenador do programa de hematologia e transplante de medula óssea do Hospital Israelita Albert Einstein, disse ao Tilt que encontrar DNA do doador no sangue e na medula óssea é esperado, mas não no sêmen. "Este mecanismo e sua teoria são inexplicáveis a princípio. Mas a medicina é a ciência das verdades transitórias."

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