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Seriam as manifestações de Hong Kong as mais distópicas já realizadas?

Manifestantes apontam raios laser para a polícia do lado de fora da estação de metrô Yuen Long durante um protesto em Hong Kong - Philip Fong/AFP
Manifestantes apontam raios laser para a polícia do lado de fora da estação de metrô Yuen Long durante um protesto em Hong Kong Imagem: Philip Fong/AFP

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

11/10/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Hong Kong é palco de protestos após projeto de lei ameaçar extraditar cidadãos
  • Imagens de manifestantes com lasers para impedir reconhecimento facial viralizaram
  • Governo da ilha emprega reconhecimento facial em locais de grande circulação
  • Evitando serem rastreados, manifestantes usam cartões de papel e se reúnem via apps

Quando a jornalista italiana Alessandra Bocchi postou no Twitter um vídeo dos manifestantes de Hong Kong usando lasers para impedir o reconhecimento facial pelas câmeras do governo local, ela chamou o fenômeno de "uma ciberguerra contra a inteligência artificial chinesa". É o confronto civil mais distópico ocorrido neste ano, ou talvez em toda a história recente.

Um dos locais recorrentes dos conflitos é o Hong Kong Space Museum, e lá centenas de manifestantes apontaram, em um dos protestos, suas canetas laser verde e azul após um estudante ser preso por carregar um objeto do tipo e ser indiciado por posse de arma ofensiva.

Os raios, que contrastam com as luzes brancas dos refletores da polícia de Hong Kong, servem para dificultar a identificação dos cidadãos. Com 88,5 mil retuítes, o vídeo remetia às batalhas com sabres de luz de "Star Wars".

Não era a única cena que remetia ao futuro distópico elaborado pela ficção.

Cercada por arranha-céus envidraçados, luzes de neon e painéis de LED com propagandas, a Causeway Bay, coração comercial de Hong Kong, parece um cenário do filme "Blade Runner" e também foi palco de um dos mais violentos atos de repressão da polícia sobre os ativistas.

Homens de capacete amarelo, policiais infiltrados e manifestantes com roupas pretas tiveram seu primeiro confronto no local em junho, quando Carrie Lam, chefe-executiva da ilha, propôs um projeto de lei que previa a extradição de moradores da localidade para serem julgados na China continental.

A proposta é vista como uma ameaça às liberdades civis, já que a Justiça no continente é controlada pelo Partido Comunista. E gerou a maior onda de revoltas desde 1997, quando o território semiautônomo foi devolvido aos chineses em 1997. O projeto de extradição flopou, mas as manifestações seguiram e seguem até hoje nas ruas.

Dados sob controle

Além de mecanismos de censura de notícias, as autoridades chinesas usam programas de reconhecimento facial para identificar e inibir manifestantes. Na região, também é comum passaportes e documentos conterem chips que armazenam dados biométricos e fotos que permitem identificar até cicatrizes, pintas e outros detalhes faciais.

Em agosto, uma reportagem do site BuzzFeed News analisou centenas de páginas de documentos do Departamento de Logística do Governo local. Os registros mostram que há pelo menos três áreas onde o governo de Hong Kong emprega algum tipo de tecnologia de reconhecimento facial —entre eles na recém-inaugurada ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, considerada a maior travessia marítima do mundo.

O contra-ataque

Já os manifestantes, no intuito de escapar da polícia, evitam usar cartões de pagamento virtual, que armazenam dados pessoais, durante os deslocamentos até os locais de protesto. Preferem cartões de papel.

Durante as manifestações, circulou uma fake news segundo a qual os manifestantes estavam usando projetores portáteis capazes de mudar a feição do rosto para evitar o reconhecimento dos rostos. A notícia, porém, era baseada em um projeto de uma escola de artes de Utrecht, na Holanda, sem relação com os atos em Hong Kong.

Segundo uma reportagem da BBC, os ativistas usam também plataformas como Uber, Tinder e até "Pokémon Go" para reunir multidões com anúncios anônimos e fugir das autoridades.

Ativistas pró-democracia seguram letras iluminadas por LED que lêem "Free HK" enquanto formavam uma corrente humana em Lion Rock em Hong Kong - Anthony Wallace/AFP
Ativistas pró-democracia seguram letras iluminadas por LED que lêem "Free HK" enquanto formavam uma corrente humana em Lion Rock em Hong Kong
Imagem: Anthony Wallace/AFP

A paranoia tem pé na realidade. Centenas de pessoas já foram presas desde o início da rebelião - há quem fale em quase mil. Entre os detidos está o administrador de um grupo de Telegram, pelo qual os atos eram organizados.

Para o pesquisador Alcides Peron, doutor em Política Científica e Tecnológica, os manifestantes de Hong Kong têm demonstrado conhecimento dos mecanismos de controle para suprimir manifestações.

"Eles usam máscaras, sabem direcionar violência para certos aparatos de vigilância e monitoramento, já foram pegos derrubando ou pichando câmeras, e têm toda uma mecânica de camuflagem digital, para evitar erros de participar de manifestações e divulgar nas redes sociais com seu nome", afirma.

"Eles têm ciência das rondas digitais, como as que eram feitas no Brasil, para prender manifestantes, como a Sininho. Eles sabem que esses mecanismos da polícia são eficientes, então não dão tanta bandeira nas redes. Ao mesmo tempo, eles também têm redes de divulgação que não os deixam tão expostos e permitem que eles consigam se organizar online. De fato, são manifestações muito mais high-tech, bem mais sofisticadas", diz o especialista.

Primavera Árabe, uma inspiração

Desde a Primavera Árabe, iniciada no fim de 2010, as redes sociais serviram para mobilizar manifestações do tipo. O recurso catapultou atos também no Egito e no Irã por meio do Twitter e do Facebook, plataformas privadas que driblavam os controles dos meios de comunicação e de processamento de dados internos dos governos.

Agora isso foi para outro patamar. As forças policiais aprendem com essas práticas e já se tem uma capacidade de controle, vigilância e monitoramento de redes muito mais sofisticada do que se tinha naquele período. Antes, esses mecanismos estavam ligados a uma parcela do aparato militar antiterrorista dos EUA.

Hoje a própria polícia brasileira tem ferramenta de identificação de manifestantes, com buscas através de redes sociais para mapear e se infiltrar, como visto no caso de um capitão do Exército que se infiltrou em um grupo e ajudou a prender manifestantes contra o impeachment de Dilma Rousseff.

"1984" em 2019

Peron vê traços do livro "1984", de George Orwell, em atos como os de Hong Kong. "Isso sempre vai ter um traço de orwellianismo, um traço de controle, de opressão, de vigilância e disciplinaridade, seja pela presença maciça de câmeras, seja porque os cidadãos sabem que estão sendo 100% vigiados. Orwell ajuda a entender essa mecânica de controle e monitoramento", diz.

Para Murilo Cleto, historiador que ministra palestras sobre "Black Mirror" no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, os governos na Primavera Árabe não estavam tão equipados para usar tecnologias em favor da repressão.

Na mesma medida em que a tecnologia serviu para articular os manifestantes, e conectar os indignados, existe também o lado B da história, que é o mapeamento dos manifestantes por parte do governo. A China tem recursos de identificação bem mais precisos de outros países
Murilo Cleto

O especialista em ficção científica Nelson de Oliveira observa nos protestos uma atmosfera cyberpunk, principalmente por conta da criptografia que os manifestantes estão usando. "O lado visível dos confrontos acontece nas ruas, é claro, mas há também um confronto invisível acontecendo nas redes. As ficções cyberpunks de William Gibson e Bruce Sterling antecipavam muito dessa realidade subversiva", afirma.

No caso dos protestos em Hong Kong, as consequências das manifestações em rede não são sentidas apenas pelos moradores da ilha. Os atos colocaram à prova a ideia de que vivemos em uma aldeia global, termo criado pelo filósofo canadense Marshall McLuhan nos anos 60 sobre tecnologias da época, como as redes de TV.

Exemplos asiáticos da previsão de McLuhan levam ecos políticos dos protestos de Hong Kong à TV.

A emissora chinesa CCTV tirou da grade jogos da pré-temporada de basquete dos EUA (a NBA) após um dirigente do Houston Rockets declarar apoio aos manifestantes de Hong Kong; a desenvolvedora de jogos eletrônicos Activision Blizzard suspendeu um jogador que também apoiou os protestos; e o desenho adulto "South Park" foi banido da China após um episódio que tratava das violações de direitos humanos no país.

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Ficção científica?