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Travesseiro fofo veio mesmo da Nasa? Entenda a relação com os astronautas

A espuma viscoelástica do travesseiro foi inventada na Nasa nos anos 60 - Renato Stockler/Folhapress
A espuma viscoelástica do travesseiro foi inventada na Nasa nos anos 60 Imagem: Renato Stockler/Folhapress

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

14/02/2019 04h00

Você já deve ter reparado que existe por aí muitos autodenominados "travesseiros da Nasa", ostentando o nome com orgulho como um grande mérito. E de fato, esse tipo de produto é mais confortável que os travesseiros tradicionais de espuma comum. Mas o que a Nasa tem a ver com isso, afinal?

Tudo começou em 1966, três anos antes de a agência espacial norte-americana levar a humanidade para a Lua pela primeira vez. A equipe dos pesquisadores Charles Yost e Chiharu Kubokawa não era da Nasa, mas trabalhou para a agência no centro de pesquisa e testes da Nasa.

Yost e Kubokawa desenvolveram naquele ano um material para melhorar a segurança dos assentos das aeronaves. Sua invenção ganhou o primeiro nome de "espuma lenta de retorno", mas que depois foi reduzido para "espuma temperada". Era o começo do que chamamos hoje de espuma de viscoelástico.

O viscoelástico é uma espuma de memória sensível à temperatura. É fabricado combinando-se dois produtos químicos. Um é o poliuretano, um tipo de polímero derivado do petróleo --que por sua vez é criado juntando outros dois ingredientes: um poliol e um diisocianato. O outro é um agente de sopro, como água ou hidrofluorocarboneto. Este agente é injetado no polímero, que se transforma na espuma.

O diferencial desta espuma é que ela tem uma estrutura sólida de célula aberta. Ou seja, ao contrário das espumas padrão, que comprimem e retornam à sua forma original imediatamente, as células individuais da espuma têm buracos que se comprimem completamente e espalham sua pressão de ar nas células adjacentes.

Essa tecnologia inovadora espalha a pressão ao longo de um maior número de células da espuma, o que diminui a reação do travesseiro à pressão que você --no caso, sua cabeça-- coloca. Isso explica a maneira como a espuma de memória realmente reduz os pontos de pressão e se "molda" melhor ao seu corpo, demorando mais para voltar ao normal.

A desvantagem do travesseiro é que ele tende a ser mais pesado devido a uma densidade maior. Além disso, ele precisa ser combinado a uma espuma um pouco mais dura para ter um desempenho ortopédico melhor.

Em 1969, Yost formou a Dynamic Systems, empresa que vendeu os direitos sobre a tecnologia em 1974, mas depois retornou ao mercado com travesseiros que eram menos sensíveis à temperatura e mais ecologicamente corretos que a versão original.

Essa empresa criou versões próprias da espuma chamadas SunMate, que suporta mais peso, e a Pudgee, que gera menos fricção no contato com a pele. A combinação dessas duas espumas gerou o Laminar, travesseiro da Dynamic que é basicamente o modelo básico dos "travesseiros da Nasa" de hoje.

A almofada Laminar, uma combinação de materiais SunMate e Pudgee, da empresa Dynamic Systems, que criou o "travesseiro da Nasa" - Divulgação/Nasa
A almofada Laminar, uma combinação de materiais SunMate e Pudgee, da empresa Dynamic Systems, que criou o "travesseiro da Nasa"
Imagem: Divulgação/Nasa

Na década de 80, a patente entrou em domínio público e outras empresas do mundo todo passaram a vender os produtos. O "travesseiro da Nasa", então, é uma mistura da história real com um pouco de marketing. Afinal, quem não quer em casa um produto que teria sido inventado pela tecnológica agência que nos levou ao espaço?

Hoje em dia a espuma viscoelástica também é muito importante na área médica; fisioterapeutas e ortopedistas a usam para tratar lesões físicas graves, criando até mesmo modelos moldados sob encomenda para o corpo do paciente.

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