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EUA miram Rússia e China quando agem contra Huawei, ZTE e Kaspersky

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Imagem: Getty Images

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

12/12/2018 10h00

O embate entre governo dos Estados Unidos e a chinesa Huawei, líder em equipamentos de telecomunicação, reedita em maior grau o que foi feito com a também chinesa ZTE e a russa Kaspersky Labs. Em comum, as empresas são acusadas de terem conexão estreita com os governos chinês e russo, respectivamente, que, segundo a Casa Branca, podem usá-las para promover espionagem cibernética.

Para analistas, porém, a preocupação norte-americana é outra: como deixar o gerenciamento de informações cruciais nas mãos de empresas oriundas de países "não amistosos"?

Há uma preocupação dos EUA de que empresas ligadas a países 'não amistosos' usem essa infraestrutura para coletar dados

Ari Lopes, analista da Ovum, consultoria de tecnologia e telecomunicações

ZTE e Kaspersky são destaques em suas áreas de atuação, telecomunicações e segurança cibernética, respectivamente. Mas não possuem ligação com Washington. O curioso da situação é que os EUA alegam que as três companhias fazem justamente o que diversas companhias norte-americanas de tecnologia faziam a pedido de suas agências de inteligência. 

Lembra das revelações de Edward Snowden? Pois bem, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, na sigla em inglês) mostrou que o governo americano forçava companhias como Google, Facebook e Microsoft a incluir "portas dos fundos" em seus programas para executar um sistema de espionagem em massa.

Muito disso que os EUA estão acusando as outras empresas de fazer, eles já fizeram também e melhor do que qualquer outro

A ironia da situação não escapa aos executivos da Huawei no Brasil. "Um amigo meu sempre fala: 'Os EUA viram que a China pode ter um cheirinho do que eles fizeram e agora os caras estão loucos'", brinca um funcionário da empresa, que não quis se identificar.

Salada russa

A caça às bruxas começou em setembro do ano passado, quando o Departamento de Segurança Nacional norte-americano (DHS, na sigla em inglês) decidiu proibir as agências federais de contratar quaisquer serviços ou comprar produtos da Kaspersky por acreditar que a empresa pudesse permitir que o governo russo usasse os serviços conectados para espionagem.

O DHS está preocupado com as ligações de funcionários da Kaspersky com a inteligência russa e outras agências governamentais e requerimentos da lei russa que permitem às agências de inteligência russas solicitar assistência da Kaspersky para interceptar comunicações que transitem em redes do país

A prova das tais ligações perigosas entre Kaspersky e governo russo foram trocas de emails. Nas mensagens datadas de 2009, executivos gabaritados discutiam a criação de serviços sob medida para a FSB, a agência de inteligência russa. Segundo a Kaspersky, que confirmou a autenticidade dos despachos, aquilo não era nada além da negociação para a prestação de um serviço personalizado para um cliente como qualquer outro.

Um mês depois, porém, surgiu uma outra história que parecia corroborar o temor norte-americano. Em 2015, um funcionário terceirizado da NSA abriu os códigos da agência em um computador pessoal. O antivírus da Kaspersky Lab estava instalado na máquina e transmitiu os arquivos secretos para servidores da empresa.

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A firma de segurança argumenta que isso só ocorreu porque estava ativada a proteção em nuvem do antivírus, que também estava configurado para enviar automaticamente novas ameaças. Já o jornal "Wall Street Journal" informou que hackers a mando do governo russo roubaram as informações após o software da Kaspersky fazer o trabalho de identificá-los.

Embargadas

Já a ZTE foi proibida neste ano de comprar componentes de empresas norte-americanas. Durante os três meses em que durou o veto, a chinesa enfrentou dificuldades, já que não podia adquirir, por exemplo, processadores da Qualcomm e o Android, do Google.

A determinação ocorreu porque ela furou o embargo imposto a Irã e Coreia do Norte e vendeu equipamentos com tecnologia norte-americana embarcada a eles. A ZTE chegou a admitir culpa perante a Justiça e com isso topou pagar multa de quase US$ 1 bilhão, além de demitir funcionários e cortar o bônus de outros. A Casa Branca descobriu que ela não implementou todos os termos do acordo e resolveu partir para uma punição mais severa. Só voltou atrás em julho deste ano quando a chinesa concordou em pagar mais US$ 1 bilhão e renovar todo seu conselho diretor.

O motivo que fez a ZTE cair em destraça nos EUA é semelhante à acusação feita contra a Huawei. Paira sob a líder mundial em aparelhos de telecomunicação a suspeita de que ela tenha iludido bancos para esconder que é a matriz de uma empresa que forneceu equipamento ao Irã. Foi por isso que a diretora financeira da empresa foi detida no Canadá. Outra coisa em comum: as duas foram apontadas pelos chefes de CIA, NSA e FBI de fabricar aparelhos que "fornecem a capacidade de maliciosamente modificar ou roubar informação" e "conduzir espionagem".

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Para o consultor da Ovum, que não questiona se as ações foram corretas ou não, afastar as três de seu país parece ser um movimento estratégico dos norte-americanos e não apenas um castigo fora do comum.

Imagina no 5G?

"Os EUA estão levando dúvidas sobre países não amistosos ou não alinhados. É uma preocupação sobre quem vai gerenciar suas informações. Se elas vazarem para países não democráticos, isso passa a ser uma arma. Quem tiver acesso a essa informação vai poder fazer uma série de coisas, como espionagem industrial."

Há ainda o receio de deixar a infraestrutura do país exposta a produtos de empresas tidas como suspeitas.

A luz amarela acende quando o país caminha para implantar uma importante tecnologia, como a do 5G. E vira luz vermelha quando uma dos expoentes nesse movimento é justamente a Huawei.

"Imagina o 5G, que vai conectar bilhões de dispositivos. Se há alguma possibilidade [de espionagem] de uma empresa que está no centro dessa rede, isso gera uma preocupação nos EUA."

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