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'Acidente', o misterioso objeto descoberto na Via Láctea que intriga astrônomos

Fotografia do céu com o Wide-field Infrared Survey Explorer (WISE). A luz infravermelha mostra comprimentos de onda maiores do que aqueles visíveis ao olho humano. Com os dados desta imagem, foram encontradas evidências do "acidente" - NASA/JPL-CALTECH/UCLA
Fotografia do céu com o Wide-field Infrared Survey Explorer (WISE). A luz infravermelha mostra comprimentos de onda maiores do que aqueles visíveis ao olho humano. Com os dados desta imagem, foram encontradas evidências do "acidente" Imagem: NASA/JPL-CALTECH/UCLA

05/09/2021 10h10

Elas não são exatamente estrelas ou planetas, mas sim algo no meio. Essa é a definição de um peculiar objeto espacial conhecido por astrônomos como anã marrom.

Agora, cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) descobriram por acaso um objeto espacial que é semelhante à anã marrom, mas com algumas propriedades distintas. O objeto enigmático foi apelidado de "o acidente". A descoberta foi publicada pela revista científica The Astrophysical Journal.

"Este objeto desafia todas as nossas expectativas", disse Davy Kirkpatrick, coautor do estudo e astrofísico do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).

O estudo observa que o "acidente" pode ter entre 10 bilhões e 13 bilhões de anos, tornando-o pelo menos duas vezes mais velho que outras anãs marrons que foram descobertas anteriormente.

Isso sugere que ele se formou quando nossa galáxia era muito jovem e tinha uma composição química diferente.

"Se for esse o caso, provavelmente há muito mais dessas anãs marrons antigas à espreita em nossa vizinhança galáctica", acrescenta Kirkpatrick.

Uma anã marrom diferente

O "acidente", formalmente conhecido como WISEA J153429.75-104303.3, foi descoberto pelo cientista Dan Caselden por pura sorte, pois não se parece muito com qualquer outra anã marrom encontrada na galáxia até o momento, de acordo com um comunicado da agência espacial Nasa.

À medida que as anãs marrons envelhecem, elas esfriam e seu brilho muda em diferentes comprimentos de onda, da mesma forma que os metais quentes mudam de cor quando esfriam.

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Esta ilustração mostra uma anã marrom escura fria no espaço
Imagem: IPAC / CALTECH

O objeto intrigou os cientistas porque seu brilho não é típico daquele visto em outras anãs marrons envelhecidas.

Ele irradia luz fraca em alguns comprimentos de onda, sugerindo que objetos assim são muito frios, mas ao mesmo tempo mostrando mais brilho em outros lugares, indicando que possuem também áreas mais quentes.

"Não é uma surpresa encontrar uma anã marrom tão velha, mas é uma surpresa encontrar uma em nosso quintal", disse Federico Marocco, colega de Davy Kirkpatrick no Caltech e coautor do estudo.

"Esperávamos que anãs marrons desta idade existissem e também esperávamos que fossem incrivelmente raras", afirma o astrofísico, que está encarregado de dirigir as observações usando os telescópios Keck e Hubble.

800.000 km/h mais rápido

Usando telescópios terrestres no Observatório WM Keck, no Havaí, os pesquisadores tentaram observar o acidente com radiação infravermelha adicional.

Mas ele parecia tão fraco que era indetectável, confirmando que está muito frio e, portanto, muito velho.

Os pesquisadores estimam que a velocidade com que ele gira é mais uma prova de que está na galáxia há muito tempo, pois ele arrasta objetos massivos que fazem com que se acelere com a gravidade.

O acidente está localizado a cerca de 50 anos-luz da Terra e gira a cerca de 800.000 km/h mais rápido do que todas as outras anãs marrons descobertas a uma distância semelhante do nosso planeta, de acordo com o estudo.

Outra característica do acidente, destaca o estudo, é que ele contém baixos níveis de metano, em comparação com a maioria das outras anãs marrons encontradas, o que reforça ainda mais o argumento de que foi formado há mais de 10 bilhões de anos. Naquela época, a galáxia era composta quase inteiramente de hidrogênio e hélio, e não havia carbono, necessário para criar o metano.

"A possibilidade de encontrar algo assim tão próximo do Sistema Solar pode ser uma feliz coincidência ou significa que eles são mais comuns do que pensamos", conclui Marocco.