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Por que o Twitter vai na contramão do Facebook e proibirá propaganda política

CEO do Twitter, Jack Dorsey, diz que publicidade digital traz riscos à política - Reuters
CEO do Twitter, Jack Dorsey, diz que publicidade digital traz riscos à política Imagem: Reuters

31/10/2019 07h06

O Twitter decidiu banir toda a publicidade política em sua plataforma ao redor do mundo, sob o argumento que o alcance dessas mensagens "deve ser conquistado, não comprado".

Em um tuíte, o CEO da empresa, Jack Dorsey, afirmou: "Embora a publicidade na internet seja incrivelmente poderosa e muito eficaz para anunciantes comerciais, esse poder traz riscos significativos à política".

Recentemente, a rede social rival Facebook descartou a proibição de anúncios políticos.

O debate em torno da proibição desse banimento nas eleições presidenciais de 2020 dividiu o campo político dos Estados Unidos.

Brad Parscale, gerente da campanha de reeleição do presidente republicano Donald Trump, disse que a proibição é "mais uma tentativa da esquerda de silenciar Trump e os conservadores".

Bill Russo, porta-voz da campanha do pré-candidato democrata Joe Biden, disse: "Quando confrontado com uma escolha entre (faturar) dólares via anúncios e a integridade de nossa democracia, é encorajador ver que, pela primeira vez, as receitas não tenham prevalecido".

Em resposta à mudança anunciada pelo Twitter, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, defendeu a política de sua empresa.

"Em uma democracia, não acho certo que empresas privadas censurem políticos ou notícias", disse ele durante uma teleconferência com jornalistas.

A proibição do Twitter será aplicada a partir de 22 de novembro, e todos os detalhes serão divulgados até 15 de novembro.

Quais são os argumentos do Twitter para o banimento?

Dorsey explicou sua posição em uma série de tuítes.

Anúncios políticos na internet, afirmou o CEO, apresentam "desafios inteiramente novos ao discurso cívico".

Esses desafios incluíam "otimização de mensagens baseada em aprendizado de máquina", "microsegmentação, informações enganosas não verificadas e falsificações profundas (as deepfakes)".

"Não é credível dizermos: 'Estamos trabalhando duro para impedir que as pessoas usem nossos sistemas para espalhar informações enganosas, mas se alguém nos pagar para segmentar e forçar as pessoas a verem seu anúncio político... Bem... Eles podem dizer o que quiserem!'"

Contrariando o argumento de que a nova política pode ser vista como favorável aos líderes que já estão no cargo, ele apontou que "muitos movimentos sociais atingem um patamar de grande escala sem qualquer propaganda política".

Dorsey acrescentou que anúncios em apoio ao registro de eleitores não seriam afetados pela proibição.

Como políticos e especialistas reagiram ao banimento?

Hillary Clinton, candidata democrata derrotada por Trump nas eleições presidenciais de 2016, elogiou a iniciativa do Twitter e sugeriu que o Facebook repensasse sua política.

O analista de redes sociais Carl Miller afirmou que "foi uma das primeiras vezes em que um gigante da tecnologia recuou por causa das rupturas enormes que causam às instituições que não se movem tão rapidamente quanto o setor".

Qual é a política do Facebook para propaganda política?

No início deste mês, Mark Zuckerberg compareceu a um encontro de estudantes em Washington para defender a decisão do Facebook de não banir propagandas políticas que contenham informações falsas.

Ele disse que foi avaliado banir todas as propagandas políticas na plataforma, mas prevaleceu a opinião de que isso favoreceria os políticos que estão no poder e aqueles que a mídia tradicional decidir cobrir.

A empresa deveria "errar do lado de maior expressão", argumentou.

Um porta-voz do pré-candidato democrata Joe Biden criticou o Facebook por se recusar a remover um vídeo postado pela campanha de reeleição de Donald Trump em 2020 no qual ele dissemina uma teoria da conspiração sem comprovação que envolve Biden e seu filho.

"É inaceitável que qualquer empresa de mídia social permita deliberadamente conteúdo falso que corrompa sua plataforma", afirmou TJ Ducklo.

Elizabeth Warren, pré-candidata democrata à Presidência, decidiu pagar por um anúncio intencionalmente falso no Facebook que afirmava que Zuckeberg apoiava pessoalmente a reeleição de Trump.

Warren afirmou ter feito isso em protesto contra a decisão do Facebook de permitir que políticos façam anúncios que contenham mentiras.

Qual será o impacto dessas medidas na eleição dos EUA?

Nos Estados Unidos, campanhas eleitorais no âmbito federal esperam gastar quase US$ 6 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões) em publicidade, mas a maioria deve ser direcionada para inserções na TV. Segundo estimativa da empresa Kantar, cerca de 20% deve ser investido em publicidade digital.

O Twitter afirma ter 126 milhões de usuários ativos por dia, e o Facebook, 1,63 bilhão.

Na avaliação da editora de política da BBC, Laura Kuenssberg, estrategistas políticos em geral conseguem espalhar suas mensagens gratuitamente nessas plataformas. Essas campanhas podem ser impulsionadas tanto por seguidores reais quanto por robôs.

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