PUBLICIDADE
Topo

Ricardo Cavallini

Podcasts encontram o sucesso ao assumir sua vocação de ser conversa de bar

Flow Podcast conversa com os lutadores Fabricio Werdum (esq.) e Wanderlei Silva (fundo, à esquerda) - Reprodução/ Youtube/ Flow Podcast
Flow Podcast conversa com os lutadores Fabricio Werdum (esq.) e Wanderlei Silva (fundo, à esquerda) Imagem: Reprodução/ Youtube/ Flow Podcast
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

16/12/2020 04h00

Podcast não é um formato novo, muito pelo contrário. O Nerdcast, apresentado pelo Jovem Nerd (Alexandre Ottoni) e Azaghal (Deive Pazos) existe desde 2006 e já atingiu mais de um bilhão de downloads.

Apesar do imenso sucesso, durante muitos anos reinou sozinho na categoria. Mais de dez anos depois, outros podcasts conseguiram sucesso, veículos tradicionais entraram na onda e o formato finalmente atingiu o mainstream.

Mas existe algo novo nesse universo, algo que está bombando no Youtube e que nem todo mundo se deu conta. São podcasts de bate-papo que duram duas ou três horas de conversa. Uma conversa aberta e franca que não caberia em nenhum outro formato.

Não é entrevista e não tem pauta. Parece uma diferença sutil, mas não é. Duas horas de bate-papo realmente livre atingindo a massa é novo. É até contraintuitivo acreditar que algo assim faria sucesso.

São papos longos, com assuntos muitas vezes fora do contexto do convidado. Não é óbvio fazer sucesso, mas era de se esperar que o papo de bar se encaixasse bem no podcast. Talvez o podcast tenha finalmente encontrado sua verdadeira vocação, algo que não caberia na TV nem na rádio.

Na verdade, não caberia nem mesmo na internet. O influenciador Cauê Moura recentemente anunciou que terminaria seu podcast no UOL justamente por buscar mais liberdade, algo que só conseguiria de maneira independente.

A falta de pauta é relevante. Com essa liberdade, os convidados acabam contando histórias que nunca contariam, mostrando uma faceta que não era conhecida por seus fãs. No episódio do podcast do Rogério Vilela, o comediante Nil Agra falou sobre depressão e seus pensamentos sobre suicídio, algo que apesar de ser comum na categoria, é um assunto que passa longe do humor e das entrevistas tradicionais.

Quem é sucesso?

O maior de todos é o The Joe Rogan Experience, do comediante norte-americano que ficou mais conhecido do grande público por ser comentarista e entrevistador nas lutas do UFC.

Com mais de dez milhões de assinantes no Youtube e quase dois bilhões de visualizações, o episódio com Elon Musk bateu quase 40 milhões de visualizações. Pense nisso: um bate-papo de quase duas horas e quarenta minutos cuja audiência bate os maiores jogos esportivos no país.

No Brasil, o maior expoente é o Flow Podcast. Com quase dois milhões de assinantes, o canal coleciona uma penca de vídeos com milhões de visualizações. Apesar de ser um "underdog", o show não pode mais ser ignorado.

Na última eleição, todos os candidatos a prefeitura de SP passaram pelo bate-papo. O prefeito Bruno Covas separou duas horas de sua agenda para bater papo com Igor 3K (Igor Coelho) e Monark (Bruno Auib), os hosts do programa.

O formato é abertamente inspirado no Joe Rogan, mas já rendeu filhotes no Brasil. Uma onda com novos podcasts está surgindo tendo o Flow como referência.

Para citar alguns:

  • Podpah de Igão (Igor Cavalari) e Mítico (Thiago Marques), que em dois meses já atingiu quase 700 mil seguidores;
  • Master Podcast, de Zé Graça Guru do Himalaia e Lord Vinheteiro;
  • À Deriva, com Arthur Petry;
  • Inteligência Ltda, do comediante Rogério Vilela.

Agora, referências no Youtube como Rafinha Bastos e Christian Figueiredo começaram a entrar na onda.

A aparente falta de profissionalismo virou qualidade. Como diriam os mais técnicos, o "bug virou feature".

O Flow é o melhor exemplo disso. Em algumas ocasiões, eles nem sabem com quem vão conversar. E o Monark, muitas vezes lesado pela maconha, faz o papo ir para caminhos inesperados. Em uma dessas situações, o lutador Wanderlei Silva fumou maconha esquecendo que o programa era ao vivo e filmado.

Joe Rogan entrevista Elon Musk em episódio que já tem quase 40 milhões de visualizações - Reprodução/ Youtube/ The Joe Rogan Experience - Reprodução/ Youtube/ The Joe Rogan Experience
Joe Rogan entrevista Elon Musk em episódio que já tem quase 40 milhões de visualizações
Imagem: Reprodução/ Youtube/ The Joe Rogan Experience

Quem banca?

Joe Rogan fez um acordo com a Spotify por US$ 100 milhões para ser exclusivo por alguns anos na plataforma. Essa conta não se paga a não ser que seja um movimento estratégico da plataforma.

Podcasts se tornaram relevantes, ter conteúdo exclusivo é fundamental e a música não será exclusiva. Faz sentido para a Spotify pegar exclusividade do maior do mundo, ainda que seja muito difícil converter os fãs de uma plataforma para a outra.

Para as marcas ainda é um caminho bem delicado. Como patrocinar podcasts onde rolam palavrões, bebida alcoólica, maconha, assuntos muito delicados, convidados polêmicos, possíveis críticas ao patrocinador e até elogios aos concorrentes?

Na minha opinião, algumas marcas deveriam comprar essa briga. Não se trata de abrir a porteira e "ligar o dane-se". Mas não ficar preso nos formatos pasteurizados e quadrados pode render humanização e uma discussão mais honesta com seu público.

Porém, a dependência de grandes empresas patrocinando é outra amarra que alguns querem se livrar, dependendo majoritariamente do patrocínio dos ouvintes, seja vendendo merchandising ou pedindo doações.

Como eu disse, apesar de não ser um formato novo, é interessante como a web sempre foi vista como um papo de bar, mas parece só depois de décadas os podcasts encontraram sua verdadeira vocação.