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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com WhatsApp, terapeutas dão um lugar para a quebrada falar de suas dores

Grupo de psicanalistas que fazem parte do coletivo PerifAnálise - Adalberto Bussola
Grupo de psicanalistas que fazem parte do coletivo PerifAnálise Imagem: Adalberto Bussola
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

31/03/2021 04h00

Você já parou para pensar na importância de obter autoconhecimento para cuidar da saúde mental? Você acha que terapia é para falar dos problemas do cotidiano para pessoas desconhecidas que nem conhecem as suas reais necessidades físicas e mentais? Essas perguntas refletem parte da cultura de muitas pessoas moradoras das periferias e favelas que não conhecem ou não têm acesso ao serviço de um psicólogo ou psicanalista.

Para superar essa barreira, o PerifAnálise foi fundado em agosto de 2018 com o objetivo de cuidar do bem-estar mental dos moradores da periferia e democratizar a psicanálise.

"A gente começou a construir a possibilidade de ter um dispositivo clínico, que pudesse estar próximo da periferia, já que a psicanálise é sempre tão centralizada, sempre tão distante da periferia, e que muitas vezes acaba acontecendo de uma forma não muito democrática. Então, no primeiro momento, a gente pensou em construir um dispositivo clínico que a periferia pudesse acessar", afirma Paula Jameli, psicóloga clínica que integra o coletivo PerifAnálise.

Com a presidência de Jair Bolsonaro e depois com a sua forma de enfrentar o coronavírus, o grupo de psicólogas moradoras das periferias começou a refletir sobre os efeitos do 'bolsonarismo' na saúde mental dos moradores da periferia. "A periferia é a que mais sofreria com a ascensão do bolsonarismo. É nesse momento que a gente começa a estudar psicanálise", afirma Jameli.

A chegada da pandemia impediu imediatamente os atendimentos presenciais, assim o grupo transferiu o contato com os pacientes para o ambiente online, outro desafio a ser enfrentado nesse momento turbulento de luta pela vida.

Ao se comprometer em fazer atendimentos online, a psicóloga clinica afirma que o coletivo ganhou bastante visibilidade no Instagram, o que fez o projeto crescer e gerar novas oportunidades.

Essa transformação exigiu do PerifAnalise uma adaptação ao cenário da escassez de recursos digitais que os moradores da periferia enfrentam.

"Estou atendendo uma analisante que mora na periferia e desde o início ela me disse: 'olha, minha internet não tem um bom sinal'. Desde então a gente faz análise por chamada de voz e vai pensando em outras possibilidades que a tecnologia permita", afirma Jameli.

Com o atendimento reduzido a chamada de voz, ou seja, sem ver a expressão facial do paciente, Jameli relata a importância do áudio e da escuta ativa para tratar os seus pacientes.

"Uma presença por chamada de voz, ainda que não se possa ver a imagem um do outro, é um elemento muito importante, porque a voz para psicanálise vai dizer muito do aspecto inconsciente também", diz.

Ela aponta que existe uma diferença entre o serviço de internet disponível no centro da cidade e na periferia. "O que é uma internet da periferia em comparação para uma região mais central?"

Consultório no WhatsApp

A psicóloga Emília da Silva, 30, moradora da Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, que já iniciou sua carreira com o atendimento no ambiente digital, diz que o tema não é abordado nos cursos de psicologia.

"Essa questão do online nunca foi muito abordada, pelo menos na minha faculdade. Eu sabia que existia, mas pouquíssimas pessoas faziam. Já tinha ouvido ou lido algo sobre isso fora do Brasil, mas aqui no Brasil, não", diz.

As ferramentas tecnológicas utilizadas por Emilia da Silva são aplicativos que os analisantes já estão familiarizados no seu cotidiano. "Eu costumo atender mais pelo WhatsApp, pensando muito na memória do celular, e se for por alguma outra plataforma, como Google Meet ou Skype, vai da demanda do analisante", diz.

"O WhatsApp chega até a ser impessoal em alguns momentos, mas eu espero a pessoa [escolher], né? Muitas pessoas não têm capacidade de baixar vários aplicativos", acrescenta.

Reinvenção

Rosimeire Bussola é moradora de São Mateus, zona leste de São Paulo, e integrante do PerifAnálise. Para ela, a experiência com atendimento online é uma nova maneira de se fazer psicanálise e torná-la mais acessível para o morador da quebrada.

"A gente vê que existe uma infinidade de outras possibilidades, e o online é mais uma. Tem muita gente já estudando, debatendo e conversando sobre essa ferramenta", diz.

Para Bussola, a criação desse espaço online é uma ação emergencial, para que pessoas tenham um lugar para falar das suas dores. "Quando a gente se disponibilizou em ouvir as pessoas, elas vieram. E com a pandemia, além de a gente inventar formas de poder atendê-las, essas pessoas também se reinventaram", diz.

"Pude perceber o quanto as pessoas davam importância para esse espaço de escuta, tive experiência de pessoas pegarem celulares emprestados para os atendimentos, e ouvi coisas do tipo: 'olha, eu moro aqui na favela, então é muito barulho, vou precisar encontrar outro lugar", acrescenta.

O valor da sessão é flexível e depende de cada morador e suas condições econômicas naquele momento. "Ao longo do acompanhamento das sessões, a própria pessoa vê quanto quer e quanto vai pagar. Inclusive isso acaba sendo o acompanhamento da própria análise: qual é a função do dinheiro para vida de cada pessoa", diz Bussola.

Pessoas periféricas em risco

Outro projeto que se propôs a cuidar da saúde mental da população preta e periférica é o Canto Baobá, que oferece terapia com ênfase em questões raciais, gênero e orientação sexual. E um dos idealizadores da clinica é o psicólogo Douglas Felix, 36, antes da pandemia e hoje também utiliza o ambiente online para atender os analisantes.

Para o psicólogo, que saiu do Parque Santo Antônio, na zona sul de São Paulo e foi morar na Bela Vista, região central, as sessões de terapia ficaram mais intensas nesse novo formato online. "As sessões ficaram muito mais profundas, porque agora eles conseguem mostrar para gente de uma forma mais concreta o que eles querem dizer", diz.

Para Felix, o cenário atual torna a terapia um serviço essencial para cuidar da saúde mental da população.

"Essa pandemia fez a gente repensar novas formas de construir e ser psicólogo, de chegar a outros espaços, de levar a psicologia de uma forma diferente, ou até mesmo tirar esse estereótipo de que psicologia é só para quem precisa. A gente vai vendo que a saúde mental tinha que ser muito mais trabalhada nas políticas públicas pelos nossos governantes", afirma.

"Quando você pensa em uma doença que vai somatizando no corpo, o quanto tem a ver com a história dessa pessoa, principalmente em pessoas periféricas. Ela não tem a escolha de fazer um home office, ela tem que sair para fazer o trampo e tem que se colocar em risco. A gente vai pensando o quanto de outras violências estruturais foram acontecendo com essa pessoa", reflete o psicólogo.

Culpa internalizada

A psicóloga Ana Albuquerque, 29, também idealizadora da clinica e sócia de Felix no Canto Baobá, conta que os atendimentos têm circulado em torno de temas de desigualdades sociais. "A gente tem trabalhado muito no social e tentado aliviar culpas singulares que vão sendo internalizadas, o que é só mais uma estratégia das violências e opressões também", diz.

"Muito da ansiedade vem de uma angústia, do 'eu não posso ficar em casa', 'eu vou pegar transporte', 'eu vou faltar', ''eu vou chegar do trabalho, moro com toda minha família, não tenho tantos cômodos aqui'. A gente tem trabalhado muito para que essa culpabilização não seja singular", acrescenta.

De olho na mobilidade que as plataformas digitais oferecem, a psicóloga afirma que tem realizado atendimentos nos locais mais diversos. "Atendemos as pessoas na laje, banheiro, praças. Já atendi também na frente do ponto de ônibus, onde dava para encontrar um espaço. A gente foi tentando ter a criatividade e trazer essa pessoa, então vamos continuar pensando e criando o que dá para fazer", afirma.

"Nem todo mundo tem um lugar para fazer terapia com privacidade e a gente precisa pensar também como a internet não chega a todos os lugares", diz.

Para ela, a triagem dos analisantes é o ponto de partida para gerar uma inclusão social. "Hoje a gente pensa em um caminho de triagem, de entender a realidade de cada pessoa. O fechamento do valor é individual, de acordo com cada realidade, cada história e com cada pessoa".