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REPORTAGEM

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Funk futurista levanta autoestima da quebrada e invade as redes sociais

Movimento CyberFunk busca estimular o futuro da juventude periférica - Dan Fotografia
Movimento CyberFunk busca estimular o futuro da juventude periférica Imagem: Dan Fotografia
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

10/03/2021 04h00

Movimento futurista criado por jovens da Brasilândia, zona norte de São Paulo, visa transformar o funk numa tecnologia social de geração de renda, trabalho e autoestima da juventude periférica.

"Cada pessoa da quebrada é uma estrela, e o nosso baile é um sistema solar". Essa é definição que o rapper Rincon Sapiência canta em sua música "Amor e Calor". Essa referência musical inspirou jovens da Brasilândia a criar um novo imaginário sobre o futuro da cultura do funk nas periferias, transformando os jovens em protagonistas desse cenário.

A partir destas experiências culturais, dois jovens moradores da zona norte criaram o CyberFunk, uma tendência de tecnologias sociais que pretendem transformar a relação das pessoas com o funk, como ele é conhecido nos dias atuais.

Essa história começa a partir do trabalho cultural de Milena Fonseca, 21, moradora do Jardim Carumbé, no distrito da Brasilândia. Ela é diretora criativa e produtora da festa Afrika Queens, um evento dedicado a resgatar e celebrar a ancestralidade e o protagonismo da mulher negra.

Junto com o fotógrafo Danilo Santos, 21, morador de Taipas, bairro da zona norte de São Paulo, eles criaram um editorial fotográfico denominado CyberFunk, que segundo eles, é o ponto de partida para o movimento futurista ganhar uma estética e um significado popular e acessível a outros jovens das periferias por meio das redes sociais.

O editorial retrata os cenários culturais que eles pretendem criar e estar no futuro em suas quebradas. Para esse processo, eles imaginaram um futuro onde o funk não seja só o movimento que agita as noites na quebrada, mas que também traga um protagonismo para juventude periférica.

"O funk sempre foi popular. Como DJ, eu posso dizer que o funk é o que anima as festas, sabe? Se tocar funk, a festa vai animar na hora, é uma coisa que foge do nosso entendimento", afirma Milena.

"Ele revoluciona, cria tendência, dita muitas coisas na cidade e é um movimento inteiro. São jovens de vários lugares da cidade contribuindo para essas criações e movimentos", acrescenta.

Milena faz parte da direção criativa do editorial CyberFunk. Ela conta que teve a ideia de construir cenários de futuro para o funk e para a juventude periférica quando se juntou com outros artistas, como a Mc Luana.

O próximo passo de Milena foi mergulhar em referências na internet para criar o nome e o conceito do projeto. "Surgiu esse nome cyber por causa das novas tecnologias que a gente está acessando e da nova era que a gente está vivendo", diz.

Danilo relembra o momento quando os jovens começaram a produzir o editorial CyberFunk, "Fiquei muito feliz nesse dia que ela me mandou toda a proposta, eu fiquei no pique de produzir. O resultado foi muito longe", afirma.

O editorial CyberFunk pode ser acessado no Instagram. Atualmente, os criadores do conceito futurista vêm utilizando seus perfis pessoais nas redes sociais para alcançar e se conectar com a juventude periférica, que enxerga no funk um movimento cultural transformador.

"Hoje a internet é o nosso maior transporte", diz a produtora executiva. Ela revela que o projeto irá ganhar novos formatos de conteúdo para abordar o tema CyberFunk.

Milena diz que o movimento tenta modificar alguns conceitos que existem no funk hoje. "A cena funk ainda é muito quadrada em relação às mulheres, em relação a identidade de gênero, em relação a várias coisas. Eu acredito que quem pode modificar isso somos nós", diz.

Danilo expõe sua crença no funk e aponta como essa cultura está conectada com a transformação da juventude periférica. "O funk já passou o tempo de falar muita besteira, sabe? Hoje os moleques e as minas estão vindo para revolucionar de verdade. Eu acredito nessa melhoria na área do funk".

Um dos propósitos do CyberFunk, segundo Danilo, é abordar a autoestima da juventude periférica, para que as pessoas possam se reconhecer como parte deste movimento. "Nosso trampo tem tudo a ver com autoestima. A pessoa não se vê como ela é. Aí, vendo uma foto que foi tirada, ela fala: 'caramba, eu sou bonita, sim'", afirma.

"Eu gosto de levantar a autoestima da pessoa, meu trabalho é esse também. Acho que isso faz parte do funk também", acrescenta.

Segundo Danilo, seu trabalho está crescendo e ele vai começar a trabalhar com outros artistas do funk. "Recentemente eu abri um canal no YouTube e vou começar a produzir clipe também, quero fazer isso".

Funk ajudando a economia da quebrada

Além do impacto cultural, o CyberFunk visa ter um impacto econômico na vida dos moradores das periferias, que muitas vezes se encontram sem perspectiva de futuro.

"É a porta de oportunidade para várias pessoas periféricas. Ser um MC e trampar com isso é um sonho que consome a juventude de verdade. Em cada quebrada tem pessoas, tem artistas que subiram e conseguiram fazer uma grana e ser reconhecidos", diz Milena.

Ela defende a necessidade de criar uma identidade cultural em que a periferia não ganhe apenas com a música, mas com todo o ecossistema que gira em torno dela.

Um dos cenários de futuro apontados por Milena para o desenvolvimento da economia do funk nas periferias é a construção de uma rede social voltada para o movimento CyberFunk. "Imagino toda arte feita de neon, pessoas fabricando seus próprios kits, pessoas produzindo suas músicas e vendendo nesta rede social também", diz.

Danilo, por sua vez, aponta a importante presença do funk no ciberespaço, como uma das principais ferramentas de visibilidade para MCs, para além dos bailes de favela. "Mano, o funk faz as pessoas se sentirem feliz. imagina quando isso melhorar ainda mais, tá ligado? Vários menores [de idade] curtem e querem fazer um som hoje em dia. E eles se veem na internet", afirma.

Para os dois artistas, a internet é um meio de comunicação eficiente e acessível para conseguir se expressar, mas ressaltam que é preciso enxergar para além dos algoritmos.

"A internet aproxima e facilita nosso trabalho para que ele vá mais longe, e o trabalho de outras pessoas que estão longe chegue até a gente, mas a arte está quase em tudo, só ter a sensibilidade de enxergar que você vai ver", diz Milena.