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Pandemia impulsiona produção digital da quebrada; veja três destaques

 Três personalidades periféricas que marcaram a web em 2020  - Desenrola E Não Me Enrola
Três personalidades periféricas que marcaram a web em 2020 Imagem: Desenrola E Não Me Enrola
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

02/12/2020 04h00

Podcaster, youtuber e fotógrafo são as profissões de três personalidades periféricas que ficaram conhecidas na internet devido à produção de conteúdo digital sobre política, filosofia e cultura durante a pandemia.

Devido à pandemia, 2020 está sendo marcado por um processo de virtualização da vida. Nesse contexto, o consumo de entretenimento digital cresceu muito nos territórios periféricos. Inúmeras iniciativas surgiram para viabilizar o acesso à internet para os moradores das periferias. Junto com esse movimento, surgiram produtores de conteúdo digital que ganharam visibilidade e relevância por produzir narrativas sobre a transformação do estilo de vida nas periferias e favelas.

Um exemplo é o fotógrafo Marcelino Melo, mais conhecido nas quebradas da zona sul de São Paulo como Menino do Drone. Ele começou o ano realizando imagens áreas do cemitério São Luis, que mostravam a transformação do espaço com o crescente número de abertura de covas para abrigar vítimas da pandemia de coronavírus.

O Menino do Drone chega ao final deste ano conhecido nas redes sociais por seu trabalho como artista plástico, onde ele reproduz miniaturas de moradias das periferias, criadas com riqueza de detalhes. Marcelino Melo foi destaque na imprensa e seu trabalho artístico foi citado em várias entidades culturais, como a Bienal de São Paulo.

Ele conta que uma das principais características do seu trabalho, exposto no Instagram no perfil Quebradinha, é a provocação sobre a releitura do imaginário periférico.

"Acredito que atuo no imaginário e a narrativa periférica acaba sendo a principal ferramenta. É uma disputa para desconstruir e construir outras paradas", diz Melo. 26, que é morador do bairro do Campo Limpo.

A inspiração para desenvolver as casas em miniaturas tem a forte contribuição da produção de fotografias aéreas, outra paixão de Melo. É com esse recurso que ele registra o formato do telhado e das casas nas periferias e favelas.

"Quando eu fiz o telhado com a caixa d'água, gostei muito do resultado porque aquele foi o resultado da fotografia aérea feita com drone. Peguei dois elementos muito fortes na fotografia aérea de favela, que é a caixa d'água e o telhado de Brasilit, e reproduzi", afirma.

O jovem artista então começou a entender que essas influências precisavam ser contadas no universo digital e decidiu fazer um perfil no Instagram para expor sua arte e inquietações. Hoje, o perfil já tem mais de 50 mil seguidores que interagem com o seu trabalho em lives e bate-papos.

"Nunca pensei em estratégias de publicação, as pessoas foram chegando e ficando. É completamente orgânico, nunca impulsionei nada. O perfil foi ganhando um prestígio cada vez maior, isso porque a coisa é sincera, é de verdade", diz o artista.

Entre os momentos marcantes da sua trajetória está a participação em um vídeo do comediante Thiago Ventura, conhecido por fazer shows de stand-up que exaltam a cultura periférica.

Segunda temporada de podcast

A iniciativa Manda Notícias, um podcast distribuído nas redes sociais e no WhatsApp, foi criada pela jornalista e educadora Gisele Alexandre, 38, moradora do Parque Munhoz, zona sul de São Paulo. Ver o seu território se movimentando e buscando soluções para combater as desigualdades sociais geradas pela pandemia de coronavírus foi também um estímulo para a comunicadora criar novas formas de informar a população local e combater fake news.

"O Manda Notícias surgiu em março, muito motivado pela minha vontade e necessidade de gerar informação para os moradores da periferia onde eu atuo, principalmente o vizinho e meus amigos", diz a jornalista.

Ao longo desse processo, ela percebeu que a distribuição de notícias foi contribuindo para aumentar o número de pessoas cadastradas em sua lista de transmissão, que hoje tem cerca de 600 pessoas. "O podcast ganhou uma conta e número exclusivo no WhatsApp. A gente também abriu uma conta nas redes sociais. Já produzimos mais de 80 episódios, que são enviados via lista de transmissão e pelas redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter", diz.

Para a segunda temporada do Manda Notícias, a jornalista se organizou com mais dois produtores de conteúdo digital para trazer episódios sobre notícias cotidianas da quebrada (que vai ao ar às terças-feiras) e sobre temas em torno da cultura periférica, enfatizando a visibilidade de artistas periféricos (às quintas-feiras).

Se aventurar como podcaster é um processo novo na vida da jornalista e simboliza uma nova cultura de consumo de informação para ela e seu público. "Eu não era uma consumidora de podcast, então também estou no momento de desenvolvimento. É tudo uma construção. A primeira temporada é bem diferente da segunda, que espero que seja diferente da terceira. E a gente tem inovado a cada momento, sem perder nossa identidade".

"Eu acho mais importante ter essa identidade no podcast, que é um formato que a gente consegue manter a nossa maneira de falar com as pessoas que são próximas da gente", acrescenta.

Alexandre enfatiza que os conteúdos são uma forma de valorizar a cultura do jornalismo periférico. "Só faz sentido eu trabalhar no jornalismo se for falando da quebrada. Tenho 38 anos, já trabalhei bastante ao longo da minha carreira. Sempre quis trabalhar com isso e foi difícil conseguir viver com jornalismo periférico".

"Para 2021 eu espero trabalhar como podcaster. Quando digo trabalhar é ganhar para isso também. Hoje o Manda Notícias é um projeto independente. Ano que vem eu espero que a gente consiga um apoiador", acrescenta.

Traduzindo Karl Marx para gírias paulistas

O estudante de sociologia e morador do Conjunto Habitacional Vida Nova, localizado na periferia de Paulínia, interior de SP, Marcelo Marques, 19, ficou conhecido pelo canal do Youtube "Aldino Vilão", que faz interpretações das obras de grandes filósofos utilizando gírias comuns da juventude periférica.

O intuito do canal é produzir esses conteúdos de uma maneira informal, com uso de gírias, conversando no sotaque paulista, trocando ideia de uma forma descontraída, sem usar aquelas expressões acadêmicas e engessadas. "Valorizar os arquétipos da quebrada com uma linguagem, uma coisa que não é forçada, é uma coisa que eu uso no meu cotidiano, que uso para falar com minha namorada, com meus amigos e meus parentes", diz.

Um dos seus vídeos que viralizaram em 2020 foi o 'Traduzindo Karl Marx para gírias paulistas', que traz uma linguagem com essência periférica para falar de filosofia.

Além de viralizarem, os conteúdos do youtuber também ganharam espaço na educação dos jovens. "Muito professor chegou a mim no direct do Instagram e muito aluno mandou print para mim de atividades de escola que envolvem meu material. Teve professor colocando meu vídeo na aula online do EAD e professor citando meu vídeo em exercício. Também teve professor usando meus vídeos como material de referência de estudo para as provas", afirma.

O criador do canal afirma que um dos seus principais objetivos é atingir alunos de escolas públicas. "Eu viso muito ao ensino público, à escola pública, como a que eu estudei. Por exemplo, escolas muitas vezes depredadas, esquecidas pelo município, esquecidas pelo governo do estado", afirma o youtuber.

Para 2021, Marques pretende se aprofundar em outras matérias, como história e antropologia. Porém ele ressalta que seu foco é na valorização cultural da periferia. "Eu valorizo essa cultura, por isso que essa galera de quebrada curte mais, entende mais, porque nós pertencemos ao mesmo nicho cultural. O sentido do meu conteúdo é ensinar, mas o método que eu uso é 'freireano', então valorizo a minha cultura como moleque de quebrada, na gíria, na minha roupa, no jeito que eu me expresso, no jeito que eu sou", conclui.