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Streaming independente foca em séries e filmes de cineastas da periferia

Criadores da "daQbrada", plataforma de streaming dedicado a séries e filmes produzidos por cineastas das periferias  - Shaiene Assis
Criadores da "daQbrada", plataforma de streaming dedicado a séries e filmes produzidos por cineastas das periferias Imagem: Shaiene Assis
Quebrada Tech

O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

30/09/2020 04h00

Criada para distribuir filmes e séries produzidas por cineastas das periferias, a plataforma "daQbrada" é uma iniciativa focada no cenário do cinema de baixo orçamento feito na quebrada.

Uma plataforma de streaming independente, que concentra apenas produções audiovisuais feitas por moradores das periferias. Essa é a "daQbrada", iniciativa criada pelo Coletivo Transformar, um grupo de dez moradores das periferias de São Paulo.

Enraizado na cultura de projeções de filmes ao ar livre em locais como becos, vielas e escadões e na produção de curtas-metragens, o coletivo decidiu ir além e apostar em um novo projeto que explora o ambiente virtual como forma de democratizar o acesso ao cinema aos moradores das periferias e dar visibilidade às produções independentes da quebrada.

A ideia de construir a primeira plataforma de streaming dedicada a produções do cinema de "borda, periférico e de guerrilha" (de baixo orçamento e produzido na periferia) partiu de Marcio Rodrigues, 35, morador de Sapopemba. Com colaboração de Jonas Amaral, 29, que mora no distrito de Sapopemba, zona leste de São Paulo.

Segundo Amaral, a ideia consiste em agregar o trabalho de vários coletivos. "A gente que está aqui vai ter oportunidade de ver produções de coletivos diversos", diz. Segundo ele, além de reunir inúmeras produções, a plataforma vai fortalecer as redes de audiovisual das periferias. Ele define o projeto como "um espaço de convergências das produções periféricas".

A partir desta perspectiva sobre o projeto, o produtor aponta que a finalidade é ter também um ambiente não apenas para consumo de conteúdo, mas de troca. "Ao mesmo tempo ela é um espaço de quem quer assistir uma produção e tal, e que você vai encontrar muito mais fácil que no YouTube, ela acaba sendo um espaço de troca muito bom".

A "daQbrada" levou um mês para ser elaborada. O responsável por desenvolver essa tecnologia é Marcio . Ele é vizinho de Jonas e integrante do Coletivo Transformar. "Durante a quarentena fazendo home office acabava sobrando, aquele tempo que a gente gasta no transporte. Ficava pensando em outras coisas, né", conta o desenvolvedor.

Rodrigues afirma que começou a desenvolver algo parecido com um repositório de filme, mas com o avanço do processo de elaboração, ele percebeu que o desenvolvimento de uma plataforma de streaming seria a melhor opção, pois juntaria todos os propósitos do coletivo dentro de um ambiente virtual.

Durante o processo de desenvolvimento, a maior dificuldade foi pensar como o usuário que é morador da periferia iria se sentir com a usabilidade da plataforma. "Você tem que estar preocupado sobre como o pessoal vai acessar, onde vai ser publicado esse vídeo, qual servidor, se o servidor vai ter capacidade, vai ter acesso de várias pessoas simultaneamente, como vai ser a performance do vídeo", diz Rodrigues.

Para ele, o objetivo foi produzir uma plataforma onde "os produtores da quebrada consigam exibir e seja acessível para pessoas que vivem nesses lugares, para elas conseguirem assistir também", diz o desenvolvedor.

Preconceito digital

Durante o processo de elaboração, o desenvolvedor foi surpreendido com o sistema de validação dos algoritmos, que impediram a publicação da plataforma com o nome "daQbrada". "O nome do site foi bloqueado por ter o 'daQbrada' e ser visto como uma coisa que oferece risco para quem está acessando", relembra.

Após essa experiência, Rodrigues faz uma reflexão sobre como os algoritmos podem impactar no esquecimento de territórios periféricos e seus moradores. "As pessoas querem sim consumir tecnologias que só estão disponíveis no centro, em São Paulo mesmo", afirma.

"Na rua de cima, o Uber chega, mas na rua de baixo a pessoa tenta chamar e não consegue, porque muitas vezes as empresas de tecnologia olham superficialmente para esses lugares, elas não conhecem realmente o lugar e a demanda", acrescenta.

Rede do cinema periférico

Após a criação do projeto, a plataforma torna-se uma comunidade livre, onde os próprios produtores e usuários alimentam seus conteúdos e fazem a "daQbrada" criar uma identidade própria, repleta de diversidade de narrativas que surgem em meio aos territórios periféricos.

"Estamos pensando em trazer outros coletivos para a gente se fortalecer enquanto coletivo e ao mesmo tempo fortalecer outros. A ideia é ter um crescimento conjunto mesmo, mão com mão", diz Amaral. "Esse compartilhamento de ideias ajuda também na melhora das produções", acrescenta.

Para o integrante do Coletivo Transformar, a plataforma serve como rede forte de produtores audiovisuais da periferia, visando combater e lidar com o monopólio das plataformas de streaming convencionais.

"As plataformas têm os objetivos comerciais delas, que não batem necessariamente com o que a gente está fazendo. Você está fazendo um curta que não tem necessariamente um objetivo comercial, ele não atende o público que as plataformas se propõem a atender", afirma Jonas.

A "daQbrada" ainda está em fase de teste e ao mesmo tempo está captando produtores para expor seus vídeos.

Neste momento, o grupo está pensando em um modelo de negócio que possa fortalecer produções audiovisuais das periferias e disponibilizar um conteúdo totalmente gratuito para seus usuários. "O audiovisual é caro, né, a gente tem pensado muito como produzir", diz Jonas.

"A gente tem que estudar o que algumas plataformas livres têm feito na questão da monetização, né? O pessoal tem trabalhado com a estrutura de crowdfunding [financiamento coletivo], mas de uma forma que não seja algo restritivo", afirma o produtor audiovisual.

Em meio à fase de testes, o coletivo já planeja lançar um aplicativo da plataforma, pois percebe que conteúdos em dispositivos móveis são bem mais acessíveis para moradores das periferias, e para lidar com o viés dos algoritmos das plataformas convencionais. "Tem como se trabalhar com algoritmos, tem como trabalhar com algoritmos do bem", afirma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL