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Pedro e Paulo Markun

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Parlamento no Minecraft: metaverso pode mudar o jeito de fazer política?

Deveríamos estar focando a campanha de vacinação no Minecraft? - Divulgação
Deveríamos estar focando a campanha de vacinação no Minecraft? Imagem: Divulgação
Pedro Markun e Paulo Markun Pedro e Paulo Markun

Pedro Markun é hacker e ativista pelos dados abertos, pai da Maria e da Tereza e trabalha com transparência e participação política. Criou o Laboratório Hacker, o Ônibus Hacker e o Jogo da Política. É autor dos livros para crianças "Quem Manda Aqui?" e "Eleição dos Bichos", além de desenvolvedor Python, fuçador de Arduino e um entusiasta do futuro. Paulo Markun é jornalista e escritor, tem três filhos e quatro netas. Nasceu em 1952 e é jornalista desde 1971. Já fez de tudo um pouco (jornal, revista, rádio, televisão e internet), criou veículos de comunicação, dirigiu outros tantos. Agora, na casa dos 70 anos, Oculus no rosto, busca as portas de entrada para a terra prometida pela tecnologia que, espera, não será apenas dos nativos digitais.

Pedro e Paulo Markun

Colunistas do UOL

21/11/2021 11h16

O que se segue é um resumo da conversa que aconteceu na semana passada no Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados, o LabHacker, que Pedro ajudou a fundar há alguns anos.

O LabHacker é um espaço de inovação e transgressão na política, uma sala instalada no coração político do Brasil, pertinho dos 513 deputados que, juntos, representam a população brasileira.

De lá saíram diversos projetos interessantes como o Wikilegis, uma ferramenta para elaboração colaborativa de legislação e o Parla, que analisa e visualiza as falas dos deputados.

Não poderia vir de outro ponto o convite para juntar os dois temas que mais interessam ao colunista —metaverso e política.

Juntamente com Christian Perrone, pesquisador de Regulação e Tecnologia do ITS Rio fizemos quase duas horas de conversa, cujo propósito principal desdobrei em dois caminhos:

1) O que o metaverso pode fazer pela política?

Começando pela parte mais gostosa, que é a possibilidade de imaginar —nesse mundo virtual, aberto e potencialmente infinito— como poderia acontecer a política no metaverso.

Quem acompanha essa coluna e o assunto, já sabe que, embora ainda estejamos longe de uma realidade virtual como aquelas presentes nosso imaginário, frutos de filmes como Ready Player One, Matrix ou Free Guy, o campo avança a passos largos e já dá para a gente vislumbrar o que vem por aí nos próximos cinco, dez anos, se o desenvolvimento tecnológico seguir o ritmo atual.

Pensando nisso, quebrei essa visão de futuro em três tempos: hoje (ou ontem), amanhã (ou... logo ali) e no futuro (incerto).

Pra hoje (ou ontem):

Antes de apertar os óculos e submergir na realidade virtual, a política —e os políticos— precisa entender e reconhecer que esses universos virtuais já existem e é lá que se encontram os jovens.

O Roblox, uma plataforma mobile de criação de jogos, já reúne mais de 43 milhões de usuários todos os dias. .

O Minecraft, uma espécie de lego do mundo virtual, onde a imaginação é o limite do que você pode construir, conta com mais 140 milhões.

Fortnite, que também conta com um modo criativo, tem acordos milionários com marcas como Star Wars, Nike e inclusive com o ex-jogador Pelé e mais de 350 milhões de contas registradas.

Sem contar GTA, FreeFire, World of Warcraft, Tibia e dezenas de outros jogos onde boa parte das crianças e adolescentes vive uma espécie de vida paralela —que de paralela não tem nada, porque o mundo já é, hoje, híbrido e essa vida virtual se mescla de maneira indissolúvel com a dita 'vida real'.

É para ONTEM que o Ministério da Saúde deveria fazer campanha de vacinação no GTA.

Que o Ministério da Educação deveria criar uma universidade livre dentro do Roblox.

Que a Secretaria de Turismo deveria recriar os principais marcos turísticos do Brasil no Fortnite.

Ou que a própria Câmara dos Deputados deveria recriar o Congresso Nacional no Minecraft, abrindo para visitação, de forma semelhante a projetos como FioCraft, que recriou o Campus Manguinho da FioCruz, MAM no Minecraft, e Biblioteca Sem Censura, projeto dos Repórteres Sem Fronteiras de uma biblioteca virtual só de obras censuradas pelo mundo real.

E quando digo para ontem, não é só porque a tecnologia para fazer isso já está disponível faz alguns anos e que a base de usuários já está mais do que consolidada.

É porque, de fato, isso já vem sendo feito.

Outro dia, no gabinete da deputada estadual Marina Helou, onde trabalho como coordenador de inovação nas horas vagas dessa coluna, apareceu um garoto, Antonio, de 12 anos, que fez exatamente isso. Criou um parlamento virtual dentro do Minecraft onde ele e os amigos fazem experimentos democráticos em sala de aula! (E essa entrevista vai ficar para uma outra coluna.)

Pra amanhã (ou... logo ali)

Se é para ontem, que usemos as ferramentas disponíveis como plataforma para se comunicar e difundir educação política entre os jovens, para amanhã existe uma possibilidade real de criar espaços de participação política no mundo virtual.

O próprio LabHacker, no ano passado, fez uma experiência desse tipo, quando colocou uma câmara 360 para gravar o Plenário dos Deputados.

Assim, o cidadão consegue de fato acompanhar o trabalho do seu parlamentar —e de todos os outros que, por sua vez, vão precisar ficar muito mais atentos ao que falam e como se comportam.

Para quem acompanha as sessões legislativas, não é raro que o mesmo deputado se comporte de maneira completamente diferente dependendo se está na frente ou atrás das câmeras.

Com uma fiscalização cidadã 360, os parlamentares serão obrigados a escolher —ou mantém o personagem caricato e midiático que construíram para sua imagem pública o tempo todo, ou agem com mais naturalidade, conversando e fazendo política com mais transparência.

Além disso, essa 'realidade aumentada' sobre as sessões legislativas poderiam incluir todo tipo de informação: que projeto está sendo votado, com acesso rápido e simplificado aos documentos, controle de quórum e presença dos parlamentares. Ou talvez, galerias virtuais onde os cidadãos interessados nessa ou naquela pauta poderão comparecer, independente de onde se encontram no Brasil ou no mundo.

Hoje, o acesso às galerias, cada vez mais controlado nas votações mais polêmicas, está restrito para quem mora em Brasília ou tem condições financeiras de se deslocar até o 'centro político do Brasil', que embora seja uma boa ideia na teoria, na prática faz com que as decisões estejam 'mais ou menos longe de todo mundo'.

E claro, isso tudo poderia ter um canal de retorno no próprio Congresso, com essas galerias virtuais projetadas para que os parlamentares pudessem ver —e ouvir— as manifestações do cidadão que, pela Constituição, eles representam.

O futuro é incerto

Basta olhar em volta para a gente perceber que a democracia representativa, além de estar sob constante ameaça nos últimos tempos, já estava em crise faz um bom tempo. O número de votos brancos e nulos só cresce eleição após eleição e a sensação de 'pior do que está, não fica' é tão generalizada que, repetidas vezes, elegemos o Palhaço Tiririca, deputado federal com esse exato bordão e recorde de votos.

A história, muito resumida e simplificada, é que a democracia surgiu lá na Grécia onde os gregos livres (que na época não incluíam mulheres, nem escravos) se encontravam na Ägora (a praça pública) para juntos tomar as decisões que ordenavam o coletivo.

O número de gregos foi crescendo e a Ágora foi ficando pequena e em determinado momento resolveu-se escolher alguns para *representar* todos. Surgia ali a democracia representativa que com alguns poucos remendos e melhorias (já faz tempo, mas não tanto assim, que as mulheres votam embora sigam com menos de 20% das vagas embora sejam mais de 50% da população) segue operando até hoje.

A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela, já diria Winston Churchill.

Ao longo do tempo, os países foram organizando suas democracias e seus processos decisórios de várias maneiras —presidencialismo, parlamentarismo, votação em lista aberta, lista fechada, poucos partidos, muitos partidos, enfim... uma série de combinações e formatos que dão o tom de cada regime democrático.

Tem um aspecto que sempre me chamou muita atenção que é a própria arquitetura da democracia, a forma como o parlamento está fisicamente organizado e que, segundo um estudo incrível do escritório de arquitetura XML tem uma correlação com o nível de democracia.

O estudo está no link acima, mas para resumir, quanto mais redondo for o parlamento, mais democrático tende a ser aquele país.

Em um extremo, temos parlamentos que seguem aquele velho modelo de escolinha, com carteiras enfileiradas e o professor —detentor do poder e conhecimento— lá na frente.

No outro extremo, há parlamentos quase redondos, como o parlamento da União Europeia e de países como França, Suíça e Japão. Na correlação, esses países são, normalmente, mais democráticos.

E nessa altura, você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o metaverso.

Bom, essas arquiteturas existentes —das mais às menos democráticas— estão todas limitadas pelas regras do mundo físico.

No mundo digital, não existem regras ou limites e é possível construir uma Ágora potencialmente ilimitada usando e abusando de ferramentas e formatos que ainda sequer descobrimos para criar um novo tipo de parlamento, mais democrático, mais inclusivo e mais participativo.

  • Podemos usar técnicas como a do minipúblico, para construir decisões coletivas baseadas na opinião de pessoas reais.
  • Podemos pensar em formatos de democracia líquida, onde cada pessoa pode delegar livremente seu poder de decisão para alguém que consideram especialista neste ou naquele tema.
  • Podemos ter plebiscitos e referendos diários, com um custo baixo e que tende a zero no médio-longo prazo.
  • Podemos ter espaços multimídiaticos que deem conta da nossa população não-letrada.

Não se trata de jogar fora o sistema que temos hoje, mas de recriá-lo à luz de uma tecnologia que nunca existiu.

Boa parte dessas ideias, é verdade, poderia ser feita de uma maneira ou de outra, sem a realidade virtual.

Desde que a internet surgiu, diversos grupos e teóricos vêm pensando e experimentando (em pequeníssima escala) as possibilidades de uma democracia em rede.

E o empecilho para adoção disso na Política, com p maiúsculo, tem mais a ver com a lentidão das instituições e a dificuldade dos políticos (com p minúsculo) de compartilhar o poder.

Só nos últimos anos é que começamos a ver movimento de digitalização de processos como votação e elaboração de projetos de lei ganharem tração.

Isso porque sempre tem um, dos quinhentos e treze, reeleito desde que Adão descobriu que estava pelado, que resolve terminantemente que vai fazer 'como sempre fez' e continuar escrevendo as alterações no projeto de lei a mão, que a votação precisa acontecer presencialmente ou qualquer desses anacronismos que permitem um maior controle do processo por parte do poder decisório.

Apesar do desgoverno, a pandemia mostrou que como toda atividade essencialmente simbólica, a política PODE SER virtualizada.

Imagine então que, no futuro, o Congresso Nacional vai existir APENAS no metaverso. Conectando todos os cidadãos em um espaço (meta)físico de tomada de decisão.

Da para pirar, né?

2) O que a política PRECISA fazer pelo metaverso?

Bom, todas essas elucubrações são futuros possíveis. São propostas de como usar essa nova tecnologia a favor da democracia. Mas até a gente chegar lá, tem um caminho longo. Tecnológico e político.

Porque se o metaverso pode transformar fundamentalmente a forma como vivemos e a forma como fazemos política, cabe à Política construir as normas e acordos que vão garantir que essas transformações sejam positivas para a sociedade. Que sirvam para diminuir as desigualdades e oferecer mais oportunidades —de educação, emprego, lazer— para todxs.

Os desafios são inúmeros e muitos deles já estão postos nas relações com as próprias redes sociais existentes.

Questões envolvendo privacidade, que só se agravam quando tempos dispositivos que vão estar 100% conectados e que, potencialmente, vão conseguir captar nossas ondas cerebrais para antecipar o que queremos escrever ou que músculo vamos mover.

Questões envolvendo veracidade, quando avatares hiperrealistas se tornarem regra e você precisa se certificar que aquela pessoa é *realmente* quem você está vendo.

Questões de macro e microeconomia, de importação e exportação, soberania nacional e estabilidade econômica quando as transações financeiras passarem a acontecer majoritariamente em um universo que não está territorialmente em nenhum lugar.

E, fundamentalmente, questões relacionadas com há quem pertence isso tudo e se vamos permitir, como sociedade, que esse novo metaverso que está sendo construído seja —ao fim e ao cabo— propriedade de uma única empresa, de um único dono.

Quase todas as distopias que envolvem realidade virtual tem como elemento comum essa megacorporação que é dona do ciberespaço.

Para combater esse mundo distópico, é necessário estabelecer parâmetros claros de governança e modelos de negócio e criar protocolos para que o metaverso seja efetivamente plural e coletivo.

Esse esforço precisará acontecer em diferentes níveis e é um dos desafios de governança global que vamos enfrentar nos próximos anos.

Se tiver que apostar, eu diria que o futuro, provavelmente, será uma grande mistura desses horrores e delícias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL