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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Algoritmos mandam em você? Veja o que China e EUA fazem em relação a isso

Skyline de Shenzhen, capital tech da China: país está preocupado com superpoder das empresas de tecnologia e seus algoritmos - Shenzhen Touristic Bureau
Skyline de Shenzhen, capital tech da China: país está preocupado com superpoder das empresas de tecnologia e seus algoritmos Imagem: Shenzhen Touristic Bureau
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

20/01/2022 04h00

O cenário distópico em que algoritmos e equações matemáticas definem o futuro das nações, a vida —e a morte— das pessoas tornou-se uma preocupação real das duas nações (China e EUA) que rivalizam o desenvolvimento de novas soluções tech e, não à toa, detêm as mais valiosas empresas de tecnologia.

Em ambas as sociedades, a preocupação com o superpoder das empresas de tecnologia é um ponto de atenção, mas as ferramentas e instituições que ambas têm para lidar com o problema são tão diferentes que nos permitem refletir, afinal, qual delas está sob maior risco de ser engolfada pelo poder das big techs.

Vejamos, primeiro, o caso chinês.

Ciente de seu atraso tecnológico em relação ao Ocidente, o país deu ampla liberdade a seus empreendedores digitais. Mais do que isso, os recursos do Estado foram muitas vezes colocados em favor de companhias privadas que liderassem o processo de digitalização —e inovação tecnológica— da economia chinesa.

Com muito dinheiro (financiamento), um enorme mercado interno (protegido da competição internacional) e muita liberdade (regulação flexível), a China criou em duas décadas alguns dos maiores fenômenos da web, como o TikTok.

Com raras e pontuais exceções —por exemplo, a regulação de empréstimos concedidos por fintechs de peer to peer— o governo chinês passou 20 anos à moda do Velho Oeste, um "vale tudo digital".

Há um ano, porém, a China deu um cavalo de pau em sua política regulatória e endureceu (muito) as regras para as big techs locais. Duas leis, uma que determina privacidade de dados de usuários e, outra, que impede os algoritmos de atuarem em certos mercados, como na avaliação de seguros-saúde, restringiu enormemente o poder das empresas de tecnologia.

Um observador ingênuo poderia saudar o empoderamento do usuário frente às corporações de tecnologia promovido pela China.

O diabo, no entanto, é que o usuário segue podendo pouco, uma vez que o esvaziamento de poder das super techs visa fortalecer outra autoridade, no caso, o poder político que administra o país.

Já nos Estados Unidos a ascensão das big techs se deu de forma mais orgânica e pioneira. Lá "inventou-se" a internet e das garagens do Vale do Silício surgiram as redes sociais, os apps de mobilidade, os buscadores de internet, enfim, todos os modelos de negócio que, só depois, foram ser regulados.

Em contraposição ao discurso de liberalismo econômico promovido pelos Estados Unidos, grandes companhias de tecnologia americanas contaram com generosos contratos públicos e financiamento de agências de fomento para crescerem. O argumento para o apoio do Estado era um só: tecnologia é um item estratégico.

Não à toa, o poder das corporações de tecnologia dos Estados Unidos ajuda a projetar o poder do próprio país pelo mundo.

Quando o ex-colaborador da CIA Edward Snowden revelou documentos mantidos pela agência NSA, comprovou-se a estreita colaboração entre Estado e corporações de tecnologia, frequentemente à margem da legalidade.

Ocorre que, mesmo nos Estados Unidos, há enorme preocupação com o superpoder das empresas que sabem o que comem, onde andam, o que vestem, como pensam e o que sentem seus cidadãos. Diferentes comissões de deputados tentam, há anos, regular o funcionamento destas corporações.

Cenas que constrangeram poderosos CEOs levados ao Congresso para submeter-se a sabatinas podem ter aquecido o coração de usuários solitários, mas, na prática, pouco foi feito para limitar o poder das big techs.

Ao contrário do caso chinês, nos Estados Unidos, o poder econômico das corporações é capaz de influir —via lobby ou via financiamento de campanha— nas decisões do poder político, o que no final do dia, só mantém as empresas de tecnologia em posição de vantagem.

Nota-se, em ambos os casos, o grave desalento do cidadão comum, adestrado pelos algoritmos sobre o que consumir, pensar, compartilhar e desejar.

Em um caso ou em outro, embora reconheça-se que há poder excessivo nas mãos das big techs, há pouca esperança de vivermos uma vida menos planejada por terceiros.