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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ausente da COP26, China usa tecnologia para ser um futuro país ecológico

Pesquisadores trabalham na instalação do reator de fusão nuclear Tokamak, apelidado de "sol artificial chinês"  - Xinhua
Pesquisadores trabalham na instalação do reator de fusão nuclear Tokamak, apelidado de "sol artificial chinês" Imagem: Xinhua
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

07/11/2021 04h00

Diz uma regra não escrita da política que, quando seu adversário erra, é seu dever "magnificar" sua falha. O presidente americano, Joe Biden, seguiu à risca o mandamento e bateu duro na China, que não enviou à conferência climática COP26 seu líder máximo, o presidente Xi Jinping. Ponto para Biden.

Após 5 mil anos de história, pode-se acusar os chineses de muitas coisas, mas não de ingenuidade. Nação que ascende à liderança mundial, a China sabe que não será respeitada se não cumprir uma estrita agenda ambiental e está disposta a fazê-lo, mas em um ritmo que preserve sua prioridade máxima: manter-se relevante na economia mundial.

Há ao menos uma década a China é o país que mais investe em energias renováveis.

Lá está Três Gargantas, a hidroelétrica que tirou de Itaipu o título de "maior do mundo". A maior fazenda de energia solar do planeja também está lá, com 4 milhões de painéis.

O país lidera, por larga vantagem, a produção e uso de carros e ônibus movidos a eletricidade.

Ocorre que, o apetite chinês por energia é tanto que, tudo isso acima listado, embora seja mais que o feito por qualquer outro país, ainda é pouco, muito pouco.

O discurso ambiental chinês, no entanto, não é hipócrita. Ao menos não totalmente.

Há um esforço legítimo em diminuir as emissões de CO2, o que efetivamente vem ocorrendo.

Quem esteve em Pequim há uma década, por exemplo, mal pôde ver o brilho do Sol, realidade totalmente distinta da registrada atualmente.

Com o progresso e o avanço das energias limpas, no entanto, veio o enriquecimento da população que, para usar uma linguagem dos manuais maoístas, "aburguesou-se". Quem tem mais renda, quer (mais) aquecimento em casa no inverno, mais ar-condicionado no verão, usar mais transporte privativo, compras mais gadgets.

O resultado deste fenômeno econômico é a alta na demanda por energia e, consequentemente, emissão de CO2.

No inverno de 2021, apesar dos megaprojetos de infraestrutura do país, houve apagão em muitas cidades chinesas e, adivinhe, muitas termoelétricas a carvão foram ligadas.

A China conhece bem seus desafios, sabe que um céu poluído afeta a popularidade de seus governantes e reduz oportunidades para seus produtos, além de oferecer um flanco para ataques diplomáticos americanos.

O cálculo do país, no entanto, é de que é preciso "saber sofrer" e suportar os golpes por não aderir a metas mais agressivas no momento. Por isso, não enviou Xi Jinping a Glasgow, poupando-o (parcialmente) do desgaste.

O país avalia que, em 10 anos, será capaz de transformar sua matriz energética, banindo a queima de carvão e implementando formas inovadoras de geração de energia.

O dínamo da economia local também deve se deslocar da indústria pesada e de bens de consumo (muito poluidora) para a exportação de itens de alta tecnologia embarcada, mais limpos.

Um dos ousados projetos do país —já em testes na província de Anhui— é um reator de fusão nuclear (o contrário da "fissão", tipo de tecnologia usada em usinas nucleares convencionais) capaz de gerar energia abundante e não poluente.

Enquanto faz sua lição de casa, a China tenta "ganhar tempo" em eventos como a COP26 para aparecer, no futuro próximo, como nação ecológica e tecnológica, um "gap" que espera preencher com mais tecnologia.

Enquanto apanha aos olhos do mundo, a China lembra que o título de "nação mais poluidora do mundo" (sozinha, responde por 28% das emissões de CO2 no planeta, ante 21% do segundo colocado, os Estados Unidos) só é válido quando se observam os dados "absolutos".

Se levado em conta o tamanho das populações (poluição per capta) a China sai-se muito melhor. Mesmo concentrando grande parte das indústrias do mundo, o país aparece em 13º no ranking de maiores poluidores, atrás de países como África do Sul e Polônia, por exemplo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL