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Felipe Zmoginski

QR code chinês seria útil para reduzir contágio de covid na virada do ano

Festa realizada nas areias da praia de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, gera aglomeração na madrugada do dia 31 de dezembro - João Gabriel Alves/Enquadrar/Estadão Conteúdo
Festa realizada nas areias da praia de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, gera aglomeração na madrugada do dia 31 de dezembro Imagem: João Gabriel Alves/Enquadrar/Estadão Conteúdo
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.doras e compreender a ascensão da nação pobre que se tornou potência mundial em menos de três décadas.

07/01/2021 04h00

O rigoroso lockdown que controlou a circulação do covid-19 na China iniciou-se quando ficou claro o potencial de transmissão do vírus, em fevereiro de 2020, na semana do Ano-Novo chinês. Como se sabe, o Ano-Novo lunar é o maior movimento migratório da Terra, com mais de 400 milhões de chineses retornando às suas províncias de origem para visitar a família.

De um dia para outro, 40 milhões de pessoas —o equivalente à população do Canadá— ficou ilhada na província de Hubei, onde fica a cidade de Wuhan. O que parecia uma medida radical, só possível em países de regime autoritário, acabou em diferentes graus sendo copiado no mundo todo, em especial na Itália e Espanha, como única forma de evitar uma tragédia ainda maior.

Após 60 dias de lockdown, a China aos poucos se abriu, o que não liberou viajantes que chegavam do exterior de passar ao menos 14 dias em quarentena. A partir daí, uma tecnologia bastante simples —o QR code— aliada à geolocalização dos smartphones de cada cidadão permitiu um dos mais eficientes controles de circulação de pessoas em tempos de pandemia.

Chamado de "QR de saúde", os códigos disponíveis nos apps integrados aos populares apps AliPay, do Alibaba, e WeChat, da Tencent, classificavam cidadãos em verde, amarelo e vermelho. Quem testava negativo e não reportava sintomas por 14 dias —e testes em massa foram conduzidos no país— recebia o QR verde. O código era uma exigência para entrar em shoppings, centros de eventos ou para sair de sua cidade para, por exemplo, visitar os pais.

Se os sistemas de big data que integravam os dados colhidos pelos apps em diferentes províncias detectasse, por exemplo, que você usou um carro por aplicativo no mesmo dia em que um passageiro que, dias depois, testou positivo, seu código ficava amarelo. Se alguém no seu prédio testasse positivo, seu QR ficaria vermelho, o que o obrigaria a confinamento de 14 dias, além de um teste de PCR.

Não há dúvidas de que a medida, implementada em todo o país, é controversa, uma vez que atribui a algoritmos e fórmulas matemáticas decidir quem pode ou não se locomover.

Motoristas de caminhão, por exemplo, passaram a evitar viagens entre províncias, pois temiam que o deslocamento os jogasse no QR vermelho, obrigando-os a 14 dias de "retiro". A decisão de muitos caminhoneiros impactou o abastecimento de várias cidades.

A restrição, no entanto, permitiu manter a epidemia sob controle, inexistindo segunda onda.

No Brasil, viagens no feriadão de Ano-Novo e festas de Réveillon causaram espanto em muitos países pela óbvia consequência que tal atitude tem.

Não por acaso, a média móvel de óbitos por covid em nosso país, que já esteve em 400, após lento declínio de um patamar de 1.000 vítimas fatais diárias, voltou a passar a marca dos 700 óbitos.

Especialistas estimam que o Brasil poderá voltar a registrar 1.000 mortes diárias a partir do final deste mês, quando se sentirá plenamente os desdobramentos das viagens de Ano-Novo.

Um sistema de QR de saúde, aliado a testes em massa, como houve na China, poderia ter impedido pessoas com "marcação vermelha", ou seja, aquelas que vivem em casas onde há pessoas que testaram positivo ou que já viajaram demais recentemente, de embarcar em portos, aeroportos ou mesmo em seus carros particulares, sendo bloqueadas pelas Polícias Rodoviárias.

Quem viajou e permaneceu isolado em seu destino, ao retornar, poderia circular pela cidade ou voltar aos escritórios. Já quem participou de aglomerações e, portanto, esteve por geolocalização próxima de outras pessoas que testarão positivo nos próximos dias, receberiam um alerta para testar a si, seus parentes mais próximos e, claro, se isolar. Do ponto de vista tecnológico, integrar dados não é um desafio difícil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL