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Além do Android e iOS: guerra comercial dá origem a 3º sistema operacional

Harmony OS é apresentado ao público: sistema operacional deve ser usado por 500 milhões de smartphones a cada ano - Divulgação/Huawei
Harmony OS é apresentado ao público: sistema operacional deve ser usado por 500 milhões de smartphones a cada ano Imagem: Divulgação/Huawei
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.doras e compreender a ascensão da nação pobre que se tornou potência mundial em menos de três décadas.

30/09/2020 04h00

Usuários mais jovens talvez não se lembrem, mas a enfadonha discussão entre fanboys do iOS e do Android já contou com (muitos) mais atores à mesa. Há pouco mais de uma década, Nokia, HP, Microsoft e a "inovadora" BlackBerry brigavam por nacos de market share do mercado de serviços móveis. Uma disputa que terminou em duopólio, para alegria dos desenvolvedores, que não precisam mais criar versões de seus apps para múltiplos sistemas.

Vencer esta briga foi uma batalha fundamental na história recente de Apple e Google. A cada transação in-app, venda de conteúdo ou comércio de aplicativo pago, os donos da plataforma mordem, em média, 30% do que ganham os desenvolvedores ou criadores de conteúdo. Segundo um relatório, publicado pelo serviço AppAnie, 10,5% da bilionária receita do Google, em 2019, veio dos serviços mobile, como o Google Play. No caso da Apple, este percentual sobe para 17,8%.

A disputa pelo terreno mobile parecia pacificada até o governo americano iniciar, há dois anos, uma agressiva campanha contra a Huawei, a quem acusa de espionagem. As restrições impostas à fabricante de produtos telecom chinesa incluem até a proibição de embarcar Android, um sistema desenvolvido por uma empresa americana, em seus dispositivos.

A saída óbvia da Huawei foi criar seu próprio sistema, o Harmony OS, que deve equipar seus telefones já a partir de janeiro de 2021. O Harmony existe há três anos e, originalmente, era usado apenas nas smarTVs e smartwatches da marca. Agora, porém, vão para os celulares.

Esta seria uma decisão sem nenhuma relevância, não fosse a Huawei a maior fabricante mundial de smartphones, com 19,7% de participação neste mercado, no mundo. Para efeito de comparação, a Samsung, número 2 no ranking, tem 19,6%. Isso segundo um ranking publicado em julho pela consultoria Counterpoint.

Para nós, brasileiros, a disputa pode parecer distante, já que a Huawei não é uma marca popular no país, ao menos no segmento de celulares para o consumidor final. Mas, no mundo, ela vende 500 milhões de unidades todos os anos e é muito popular na Ásia, África e mesmo nos vizinhos na América do Sul.

O surgimento de um novo sistema operacional, fomentado pela maior fabricante de dispositivos do tipo no mundo, além de ser uma dor de cabeça adicional para criadores de apps e conteúdos, é um problema, sobretudo, para o Google, já que uma fatia enorme de consumidores que se encaminharia naturalmente para o Android, não mais deve fazê-lo.

O dilema da guerra comercial em um mundo globalizado é justamente este: ao tentar prejudicar os interesses de uma companhia chinesa, a medida americana, em última análise, afeta negativamente os interesses de uma de suas mais brilhantes empresas de tecnologia, o Google.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL