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Felipe Zmoginski

Criptomoedas dão mais poder e liberdade, diz CEO de gigante do blockchain

Ex-balconista do McDonalds,CZ é fundador de um unicórnio de blockchain - Divulgação
Ex-balconista do McDonalds,CZ é fundador de um unicórnio de blockchain Imagem: Divulgação
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

09/09/2020 04h00

O fundador da maior plataforma de troca de criptomoedas do mundo em volume negociado, Chanpeng Zhao, simboliza o sonho de muitos imigrantes que deixam sua terra natal em busca de sucesso. Com uma diferença fundamental: CZ, como é conhecido, precisou retornar a seu país de origem para fazer fortuna.

Nascido em Jiagsu, no interior da China, CZ emigrou ainda adolescente para o Canadá com os pais. Nos primeiros anos de vida na América, entregou jornais e trabalhou no McDonalds para ajudar nas contas de casa. Formou-se em ciências da computação, em Vancouver, e retornou à Ásia para trabalhar no mercado financeiro. E fazer fortuna.

Em Xangai, criou a Binance para depois muda-lá de endereço um sem número de vezes em busca de um país que tivesse uma legislação favorável às criptomoedas. Aos 43 anos, o CEO da Binance lidera uma empresa avaliada em US$ 1,3 bilhão e mantém sua operação espalhada por 60 países, entre eles, Canadá, Brasil, Japão, Taiwan e Cingapura, de onde conversou com a coluna.

Você está vivendo em Cingapura? Este é o melhor país para sediar uma empresa de blockchain?
Na verdade, eu estava passando por Cingapura quando estourou a crise do covid e, então, fiquei de certa forma "preso" aqui, já que o tráfego aéreo está muito limitado. Aqui não é minha casa, nem da Binance. Nossa casa é qualquer um dos 60 países em que atuamos, já que o blockchain pode ser operado de qualquer local, para qualquer mercado.

Muitos usuários ainda não compreendem com clareza como funcionam as criptomoedas e grande parte das pessoas considera arriscado usar dinheiro de verdade para comprar moedas virtuais, sem lastro. Esta realidade não limita o crescimento da Binance?
Toda nova tecnologia tem um tempo de maturação, mas o que nós registramos é um crescimento muito rápido da adoção de uso de criptomoedas, especialmente neste ano de 2020, em que os mercados foram abalados pela crise do covid. Muitos novos usuários são pessoas que, por causa da crise dos mercados, passaram a pesquisar novas formas, mais promissoras, de investir suas economias.

E por que deveríamos colocar nossos recursos em criptomoedas?
Em primeiro lugar porque esta é uma tendência sem volta. As criptomoedas já se estabeleceram como um meio confiável para transações financeiras. Aqui em Cingapura, você pode ir à rua, comprar um café, ir ao supermercado, comprar um smartphone novo e pagar tudo com criptomoedas. Em segundo lugar porque esta tecnologia é mais segura, barata e confiável que métodos financeiros convencionais. Uma transferência entre bancos ou o uso de um cartão de crédito, por exemplo, é uma operação complexa, que às vezes leva dias para compensação e gera muitas taxas para o consumidor. Com as criptomoedas, a vida financeira das pessoas se torna mais simples, segura e econômica.

O uso massivo de criptomoedas não pode gerar instabilidade financeira para as economias nacionais?
Em outros momentos da história houve este mesmo temor. Como funcionaria a economia se abolíssemos escravidão, questionava-se nos séculos 17 e 18. Como as pessoas vão obedecer às leis se houver liberdade de expressão e de imprensa? Todas estas "liberdades" foram adicionadas ao nosso dia a dia, com a melhora da qualidade de vida das sociedades. As criptomoedas vão dar mais poder e liberdade às pessoas. Se você quer comprar um bem de uma pessoa que está em outro país, quer trocar mercadorias com alguém do outro lado do mundo, por que isso precisa ser tão caro, em termos de taxas financeiras, e tão burocrático, em termos de processos? Com a criptomoeda, duas partes se entendem, acertam valores e fecham negócios. Há maior produtividade, eficiência e geração de riqueza para as sociedades.

No caso da Binance, desde 2018, vocês são a plataforma que mais transaciona recursos para compra e venda de criptomoedas e, recentemente, abriram uma operação no Brasil que, em tese, é um mercado que poderia ser atendido remotamente. Por que quiseram ter uma presença local?
Como empresa digital, de fato, podemos oferecer nossos serviços sem estar localmente nas regiões que atuamos. A razão de termos um time e um registro no Brasil se deve à importância estratégica deste mercado, uma das maiores economias do mundo e um dos países com mais pessoas conectadas à internet. Naturalmente, com presença local, também é mais fácil compreender a regulação do seu país e atendê-la mais adequadamente.

O fato de as origens da Binance estarem na China não pode prejudicar a expansão global da empresa, já que há uma crescente pressão americana contra empresas de tecnologia deste país?
Bem, se você olha para mim vê um chinês. Mas eu sou um cidadão canadense, nossa comunidade de investidores e compradores é internacional e a Binance, definitivamente, não opera a partir da China. Logo, acho que este fato não nos afeta, de modo algum.

Desde o início do ano, a China tem ampliado os testes e o uso de uma criptomoeda soberana, com lastro garantido pela autoridade monetária local. Esta é uma tendência que deve se replicar em outros países?
Sim, creio que este movimento iniciado pela China é inevitável, em função da segurança e economia gerada pelas moedas digitais. No caso específico chinês, avalio que o uso de blockchain está ligado ao forte comércio internacional feito pela economia chinesa. Ao criar o renminbi digital, cria-se uma alternativa de transação financeira internacional para compra e venda de bens chineses no exterior que escapa ao padrão dólar. Na prática, isto diminui a força dos Estados Unidos no mercado financeiro global.