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Após covid, China tem boom de investimentos em soluções digitais para saúde

Funcionárias em escritório da JD Health, empresa que busca captar US$ 1 bilhão na bolsa de Hong Kong - JD Press
Funcionárias em escritório da JD Health, empresa que busca captar US$ 1 bilhão na bolsa de Hong Kong Imagem: JD Press
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.doras e compreender a ascensão da nação pobre que se tornou potência mundial em menos de três décadas.

24/09/2020 04h00

Consultas pela internet, algoritmos que analisam exames e robôs que fazem triagem de pacientes. As variadas tecnologias que podem ser aplicadas ao setor de saúde viveram uma acelerada transformação digital em todo o mundo, mas em nenhum outro mercado empresas iniciantes de tecnologia para saúde receberam tantos investimentos quanto na China.

A informação foi apresentada, esta semana, pela consultoria Mergermarket, que contabilizou US$ 3,9 bilhões transferidos de fundos de capital de risco em Hong Kong para startups de saúde baseadas na China.

A justificativa para a onda de investimentos em soluções digitais para saúde se deve, sobretudo, ao maior desejo dos cidadãos chineses em gastar parte maior de sua renda com seguros e cuidados com a saúde.

O movimento é previsível e se verifica no mundo todo. Afinal, após meses de noticiários sobre doenças, mortes e epidemias, a reação mais natural dos cidadãos é buscar formas de proteger-se de crises de saúde.

Na China, no entanto, o cenário é particularmente profícuo, uma vez que o país com a maior população mundial não possui um serviço público e gratuito de assistência médica, como o SUS, no Brasil. Mesmo as clínicas e hospitais construídos e operados pelos governos municipais e de províncias cobram valores, com algum subsídio, das pessoas que atendem.

A explicação mais comum ouvida na China para a ausência de um sistema público de saúde é o fato de, contabilmente, não ser possível assegurar tratamento gratuito para uma população tão numerosa.

Plataformas de tecnologia, automação e uso de inteligência artificial (IA), no entanto, têm permitido otimizar a sempre cara e escassa mão de obra dos profissionais de saúde e reduzir o uso da igualmente dispendiosa infraestrutura hospitalar.

O serviço AliHealth, por exemplo, do grupo Alibaba, oferece soluções baseadas em IA que permitem a máquinas lerem e interpretarem exames clínicos. Este tipo de ação libera médicos laboratoriais da rotina de ler e aprovar exames, permitindo que sua expertise seja usada onde é mais valiosa, na lida com os pacientes.

Já empresas como WeDoctor e PingAn lideram no país o fenômeno dos "hospitais de internet", espécie de planos de saúde de baixo custo em que os primeiros níveis de contato entre profissionais de saúde e pacientes se dão por videoconferência, cabines de teleconferência operadas por enfermeiros e os pedidos de exame e dispensação de medicamentos controlados são feitos remotamente por plataformas digitais.

Na prática, estas camadas de tecnologia reduzem em até 80% as visitas de pacientes com sintomas simples a hospitais e postos de saúde, aliviando a infraestrutura médica do país.

Esta semana, um quarto player de soluções tech para saúde, a JD Health, que pertence ao grupo JingDong, um dos pioneiros no e-commerce e indústria de internet na China, anunciou que realizará uma abertura de capital na bolsa de Hong Kong, onde espera captar, ao menos, US$ 1 bilhão. Os recursos devem ser usados para disseminar a plataforma, competidora de WeDoctor e PingAn, no interior da China, especialmente em províncias do Oeste do país, região menos desenvolvida.

Se em muitos países o debate sobre adição de tecnologia na saúde avança em ritmo moderado, em função da pressão das corporações médicas, que temem ver seus ganhos reduzidos, ou em consequência de normas regulatórias conservadoras, na China o cenário é oposto.

As autoridades locais são constantemente pressionadas a encontrar formas de universalizar o acesso à saúde e reduzir seu custo para o cidadão final.

Em uma China que enriqueceu vertiginosamente nos últimos 30 anos, é um incômodo contrassenso que parte significativa de sua população não tenha acesso facilitado a um direito humano fundamental, como o cuidado médico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL