PUBLICIDADE
Topo

Akin Abaz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cyberbullying: recebi ataques por ter aparência desfeminilizada no meu site

rawpixel.com/ Freepik
Imagem: rawpixel.com/ Freepik
Conteúdo exclusivo para assinantes
Akin Abaz

Akin Bakari D'Angelo dos Santos é fundador da InfoPreta e homem trans. Um curioso nato e um amante do desconhecido, sempre se interessou por montar, desmontar e entender o funcionamento dos eletrônicos. Fez cursos técnicos na adolescência e, aos 15 anos, já atuava na área da indústria com manutenção eletrônica de maquinário pesado. Em 2011, começou a consertar computadores em seu quarto e dois anos depois fundou a InfoPreta, empresa de serviços de manutenção que tem por objetivo inserir pessoas negras, LGBTQI+ e mulheres no mercado tech, aliando lucros a projetos sociais de grande impacto.

Colunista do UOL*

02/09/2021 04h00

Quando chega setembro, as redes sociais são infestadas com posts sobre saúde mental e suicídio. Inclusive, algumas pessoas costumam informar que suas caixas de mensagem estão abertas caso alguém precise conversar. Mas, ainda que a intenção seja boa, é necessário cuidado ao tratar desses temas, que não precisam necessariamente ser um tabu, mas devem ser debatidos e acompanhados por profissionais qualificados.

A campanha Setembro Amarelo foi adotada oficialmente em 2015 no Brasil, fruto de uma parceria entre o Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A iniciativa amplia o debate sobre a depressão e é uma das campanhas com mais engajamento, principalmente online, já que muitos usuários e empresas abordam o assunto nas redes sociais.

A tecnologia também é grande aliada do CVV, associação sem fins lucrativos que presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e a prevenção ao suicídio. O atendimento pode ser feito via telefone, chat ou e-mail, sendo uma alternativa de fácil acesso para quem precisa de ajuda.

Mas sabemos que a tecnologia e a internet também podem ser nocivas.

Muita gente se apega às telas e esquece das relações offline, diminuindo o contato físico com familiares e amigos da vida real.

Além disso, para algumas pessoas, acompanhar a vida "perfeita" de famosos e influenciadores pode trazer uma sensação de fracasso.

A falsa felicidade que muita gente demonstra nas redes sociais pode gerar sentimentos de cobrança, nos fazendo correr atrás de uma rotina que não é nossa para alcançar uma satisfação que pode nem ser real.

A depressão é uma doença que pode ter diversas causas que nem podem ser contabilizadas em um só texto. Mas, se formos falar de tecnologia, é muito provável que você saiba de alguém que desenvolveu alguma doença mental ao ser ridicularizado e perseguido na Internet. Infelizmente, não são poucos os casos de pessoas que cometeram suicídio devido aos ataques sofridos em redes sociais.

O cyberbullying nada mais é que um assédio virtual que envolve tecnologias de informação e comunicação para hostilizar um indivíduo ou um grupo de pessoas. Com o aumento de usuários de redes sociais, infelizmente se tornou muito comum e difícil de conter.

Muita gente aproveita a possibilidade de criar perfis falsos para destilar seu ódio, isso porque as vítimas podem não saber se podem e como devem denunciar.

Quando a InfoPreta começou em 2013 e eu criei a página da empresa, recebemos vários ataques. Na época, eu ainda não havia passado pela transição e recebi várias críticas, principalmente na foto de divulgação, por ter uma aparência desfeminilizada.

O cyberbullying pode ser pessoal, diretamente direcionada a um desafeto ou uma pessoa conhecida. Ou pode envolver preconceito racial contra negros e indígenas, LGBTQIAP+fobia, gordofobia ou preconceito contra pessoas com deficiência.

As pessoas às vezes parecem esquecer que por trás das telas existe outro indivíduo real. Alguém com receios, medos e inseguranças e que pode não estar bem para lidar com comentários negativos e depreciativos.

A internet é um ambiente de interação social, assim como a vida real, e se alguém não sai atacando pessoas na rua, também não deveria se sentir à vontade para fazer isso online.

Atualmente, a maioria das redes sociais possui mecanismos de alerta que identificam e apagam automaticamente mensagens que envolvem xingamentos, mas sabemos que é relativamente fácil publicar frases com caracteres especiais que enganam os algoritmos.

Se você encontrar um comentário de ódio, dependendo do caso, pode denunciar diretamente à rede social. Mas, se for algo mais sério, você pode salvar mensagens e imagens ofensivas e registrar um boletim de ocorrência. Outras provas como endereço das páginas, perfis e publicações também podem ser utilizadas e ajudar nas investigações.

O Setembro Amarelo traz o debate de temas que precisam ser tratados o ano inteiro. A saúde mental é uma questão muito importante e deve receber o devido cuidado, envolvendo tratamento médico com psicólogos ou psiquiatras.

Se você sente que precisa de ajuda, pode procurar o Centro de Valorização da Vida ou atendimento psicológico online ou presencial. Existem algumas plataformas seguras com profissionais de diferentes abordagens e com experiência em diferentes assuntos.

E se está tudo bem com você, sua parte é tornar a internet um lugar agradável para si e para os outros. Pensando sempre antes de postar algo que possa ser negativo ou ofensivo e denunciando publicações de ódio, mesmo que elas não estejam direcionadas a você.

* Colaborou Rhayssa Souza, jornalista e redatora de conteúdo da InfoPreta

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL