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Akin Abaz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Colocar a bandeira LGBTQIA+ nas redes sociais não basta; veja o que fazer

Trey Musk/ Pixabay
Imagem: Trey Musk/ Pixabay
Akin Abaz

Akin Bakari D'Angelo dos Santos é fundador da InfoPreta e homem trans. Um curioso nato e um amante do desconhecido, sempre se interessou por montar, desmontar e entender o funcionamento dos eletrônicos. Fez cursos técnicos na adolescência e, aos 15 anos, já atuava na área da indústria com manutenção eletrônica de maquinário pesado. Em 2011, começou a consertar computadores em seu quarto e dois anos depois fundou a InfoPreta, empresa de serviços de manutenção que tem por objetivo inserir pessoas negras, LGBTQI+ e mulheres no mercado tech, aliando lucros a projetos sociais de grande impacto.

Colunista do UOL*

24/06/2021 04h00

Imagine que seu nome é Fernanda e você namora a Cecília há 2 anos. Você acabou de começar um emprego novo, é a semana do Dia dos Namorados e seus colegas estão conversando sobre a data e contando o que irão fazer. Até que alguém te pergunta sobre seus planos e você fica dividida entre afirmar que tem uma namorada, contar os planos como se fosse com um namorado mesmo ou tentar disfarçar e fugir do assunto.

Falar sobre orientação sexual ou sobre o gênero com o qual se identifica no ambiente de trabalho ainda é um desafio para muitas pessoas. Existe o medo de ser excluído(a), de como o chefe lida com a diversidade na prática e até de ser demitido(a).

Esse receio não é à toa. Um estudo no LinkedIn afirma que 35% dos entrevistados LGBTQIA+ já sofreram algum tipo de discriminação velada ou direta no ambiente de trabalho. E, ainda que tenham ocorrido muitas conquistas em relação aos direitos da comunidade LGBTQIA+, elas são muito recentes e o preconceito não se restringe apenas à área profissional.

Foi só em 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças. Já a transexualidade deixou de ser considerada doença apenas em 2018.

Para quem não é LGBTQIA+: já imaginou ver a maneira como você ama e quem você é ser visto como patologia por tanto tempo?

Estar dentro de um grupo visto como padrão coloca o indivíduo em uma posição de privilégio e quem ela é não gera dúvidas ou estranheza.

Pessoas LGBTQIA+ ao longo dos anos precisaram conquistar direitos básicos que já eram uma realidade para pessoas heterossexuais e cisgêneras. E, na verdade, vários desses direitos ainda são negados em muitos lugares.

Junho é o mês escolhido para lembrar essas lutas e celebrar as conquistas desta comunidade. Isso devido a comemoração de 28 de junho, que em 1969 foi o dia no qual frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, nos Estados Unidos, se rebelaram contra a violência policial constantemente sofrida pela comunidade LGBTQIA+.

É necessário compreender a importância que tem as pessoas LGBTQIA+ se sentirem orgulhosas de fazerem parte desse grupo. Orgulho de existir, resistir, amar e se manter forte diante de todos os ataques sofridos ao longo dos anos e que ainda são vistos diariamente em forma de assédio moral, agressão física e até morte.

Diversidade no mercado de trabalho

Você provavelmente viu várias empresas fazendo inúmeras postagens sobre o Mês do Orgulho LGBTQIA+. Muitas delas alteraram seus logos incluindo a bandeira do arco-íris e mostrando apoio à comunidade.

Mas na realidade, o mercado de trabalho ainda precisa melhorar muito para se tornar acolhedor para a diversidade (e não apenas sexual).

É claro que as principais vítimas são as pessoas LGBTQIA+, mas você sabia que empresas com representatividade e cargos de liderança pautados na diversidade tendem a se sair melhor que outras companhias? Um grupo diverso é capaz de ter uma performance 61% melhor que empresas não diversas.

Isso porque uma empresa formada por pessoas diferentes consegue atender um público mais diverso, aumentando seu faturamento.

Além disso, o contato com pessoas diferentes estimula os funcionários a ampliar suas visões de mundo e de mercado.

Outro ponto interessante é que pessoas LGBTQIA+ geralmente são mais empáticas, uma característica importante na formação de bons líderes.

Tornar a sua empresa um ambiente acolhedor para pessoas LGBTQIA+ só traz benefícios para você, para a equipe e, claro, para a comunidade.

Você já pensou em quantos talentos foram perdidos porque um empregador decidiu que a orientação sexual ou identidade de gênero de alguém não se encaixava na empresa?

Tornar a sua empresa um lugar que respeita a diversidade não é difícil.

Para começar, é necessário reconhecer seus próprios preconceitos. Inclusive, isso pode ser pauta de treinamentos e ações de engajamento, levando a equipe a debater o assunto.

Outro passo simples que pode ser dado por todos da empresa é excluir expressões preconceituosas do vocabulário. Também é importante criar um ambiente seguro e acolhedor, traçando estratégias para, em caso de uma atitude homofóbica ou transfóbica, respeitar a vítima e repreender o ato.

Pessoas LGBTQIA+ não precisam se encaixar, a nossa existência é real e válida. Assim como todos os outros indivíduos, estamos em todos os lugares, afinal, vivemos em sociedade.

Excluir quem pertence a essa comunidade do âmbito profissional é decidir que essa pessoa não é capaz de exercer seu trabalho e isso não passa de preconceito.

Vivenciar e entender todas essas questões me fez querer lutar para que pessoas LGBTQIA+ tenham seu espaço no mercado de trabalho.

Esse é um dos pilares da InfoPreta e é algo que defendo todo dia. Quem somos, a maneira como nos vemos ou quem amamos não têm a ver com nossa capacidade de ser ótimos profissionais. São apenas alguns dos detalhes que nos formam e são naturais, assim como vários outros.

* Colaborou Rhayssa Souza, jornalista e redatora de conteúdo da InfoPreta

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL