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Opinião: Boni deixou grande legado (e fardo) na TV aberta

Entrevista de Boni ao "Roda Viva" fez parte das comemorações aos 70 anos da TV no Brasil                              - Reprodução
Entrevista de Boni ao 'Roda Viva' fez parte das comemorações aos 70 anos da TV no Brasil Imagem: Reprodução
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

23/09/2020 00h18

Começo este texto dizendo que tenho absoluta compreensão e deferência pelo trabalho e significado de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para a história da TV brasileira.

Eu o coloco em qualquer lista das 10 pessoas mais essenciais em 70 anos de TV aberta no Brasil.

Nunca falei com Boni. Só o vi pessoalmente em alguns eventos públicos nestes 23 anos que cubro TV (ou seja, um terço do septuagenário veículo).

No entanto, acompanhei, cobri e publiquei sobre sua obra como executivo, além de ter lido (e ainda ler) com interesse inumeráveis entrevistas e matérias com ele. Além de sua autobiografia.

Boni, 84 anos, é um gênio da TV, sim. Ponto.

Mas, isso não significa nem de longe que seja tão perfeito ou "incritícável" como querem fazer muitos entrevistadores e jornalistas ao longo dos últimos anos.

É um fofo

Todos dizem que Boni de bom humor é afável. Até por seu poder, sempre foi cheio de amigos. Todos dizem que é um fofo no trato. Acredito.

Com o "entertainer" Ricardo Amaral, o ex-chefão da Globo patrocinou por anos uma feijoada cheia de celebridades no Rio.

Bem, o evento estava mais para "beija-mão" do que boca-livre. Para muitos jornalistas, era praticamente a glória, o "topo da carreira" ser convidado para essa "feijuca".

Mesmo em sua autobiografia (ed. Casa das Palavras, 2011, 400 págs.), Boni faz um grande apanhado de melhores momentos históricos da Globo, de si próprio e de colegas contemporâneos de TV.

Crítica zero

Para meu senso crítico, porém, sempre achei que o livro tem momentos positivos demais, e enfrentamentos, irritações, explosões e brigas de menos.

Ora, é impossível que uma pessoa em seu cargo não tenha histórias desagradáveis (e muito interessantes) para contar.

Nada sobre rancores, como o que ele praticou contra Jô Soares quanto este trocou a Globo pelo SBT no final dos anos 80.

Ok, fizeram as pazes, Jô até retornou para a Globo, hoje eles se amam, mas, passar por cima de algo tão sério e que foi algo público e notório? Mas, vá lá, o livro é dele.

Você assistiu ao "Roda Amiga"?

Só que, como eu disse antes, isso se dá também com a mídia em geral quando entrevista Boni.

Por isso quando antecipei aqui no UOL, no último dia 28 de agosto, que ele havia aceitado ser entrevistado na TV Cultura, não fiquei pessoalmente empolgado.

Embora esse pioneiro e lendário executivo da TV brasileira sempre seja relevante e suas declarações quase sempre sejam notícia de qualquer homepage (ou primeira página, como se dizia), do ponto de vista da crítica eu sabia o programa seria mais do mesmo.

Eu estava certo. Zero crítica e nada de questionamentos desconfortáveis.

Porque, convenhamos, basta ter um mínimo de conhecimento de TV para saber que, apesar da reconhecida grandeza em sua profissão, Boni também esteve à frente, apoiou ou participou de graves erros corporativos, quando não de atitudes que podem ser consideradas péssimas, seja quando avaliadas no passado ou no presente.

Por que nunca questioná-lo sobre isso?

Por exemplo: Boni estimulou que a Globo fizesse uma "reserva de mercado" de profissionais de todas as áreas, especialmente na dramaturgia.

Pagava salários nababescos e inimagináveis, aprovava contratos de imensa duração; dava benesses extras a estrelas de todas as áreas, e as impedia de fazer quase tudo que não fosse dentro da Globo (exceto teatro e cinema).

Fora isso, quantos seriados, filmes e programas a Globo comprou e jamais exibiu, com o objetivo apenas impedir que outra TV comprasse?

Quanto monopólio a emissora (com Boni à frente) manteve por décadas não só no futebol, mas em praticamente todas as competições esportivas relevantes no mundo?

Além dessa exclusividade nociva, a Globo (leia-se Boni e Roberto Marinho) chegou a dificultar que seus artistas aparecessem até em propagandas na concorrência.

Sabe-se que alguns anunciantes até eram "aconselhados" a não exibir comerciais em outras TVs.

A lista de vetos e represálias era extensa: se um cantor, por exemplo, se apresentasse na Record, podia ser banido da Globo (foi assim até pouco tempo atrás, aliás).

Se um artista/celebridade dava exclusividade do novo clipe para o "Fantástico" já podia esquecer o "Domingão".

E assim por diante...

Vá lá, uma vez por ano a Globo liberava um ou dois "gatos pingados" do elenco para aparecer no Troféu Imprensa do SBT.

E as pessoas ainda falavam "Ohhh, meu Deus, como a Globo foi generosa!".

Não, não foi

O Cade (Conselho de Administração e Desenvolvimento Econômico) nasceu em 1962, mas é "curioso" como sempre pareceu fechar os olhos para esse comportamento que hoje sabemos ser predatório e, principalmente, inviável economicamente.

Duvido que hoje o Cade ou as demais TVs ficariam quietos diante de tal massacre corporativo.

Só agora, após décadas, podemos ver, por exemplo, as demais TVs abertas irem atrás de seus próprios eventos esportivos e de terem chance até de exibir a próxima Copa do Mundo, no Qatar.

Demorou mais de 50 anos para assistirmos à Globo diminuir de tamanho na TV aberta. Talvez seja tarde, já que outros veículos estão surgindo, como o streaming (e o próprio YouTube, onde qualquer um pode ser astro, seja amador ou profissional).

Um legado & um fardo

Sim, Boni é um dos idealizadores e criadores do famoso "horário nobre"; um dos pais de produtos de sucesso e imitados como "Fantástico", "Domingão", "Jornal Nacional", novelas de primeira etc; é também um dos idealizadores do (até certo ponto) hoje ainda vigente "padrão Globo de qualidade".

Enfim, um verdadeiro colosso para a TV brasileira

Por outro lado, ajudou a sufocar a concorrência; a concentrar todos os esportes na sua empresa.

Isso sem falar que parece ter sido bem condescendente e acrítico com os governos militares que em contrapartida ajudaram e ajudavam a Globo a se tornar a maior rede do país.

Enfim, ajudou (e muito) a impedir o resto do "ecossistema" de disputar o mercado em condições justas.

De um lado Boni deixa uma herança inestimável para a TV, isso é uma grande verdade. Ajudou o criar um enorme e saudável "ecossistema" corporativo que está aí empregando dezenas de milhares de pessoas e pagando anualmente bilhões de impostos à União.

Um ecossistema exportador de produtos e da cultura do Brasil. Se tem uma coisa onde o Brasil (ainda) está bem na foto são as produções que a Globo vende para o mundo. Há o dedão do Boni aí.

Por outro ele deixou um grande fardo em termos de gestão e sustentabilidade econômica que se mostrou inviável no longo prazo.

Fardo esse que a Globo está se livrando agora.

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook, Instagram e site Ooops

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL