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Ricardo Feltrin

Entrevista: "Globo não é só pagadora de impostos, é um ecossistema"

Diretor de Comunicação e Financeiro dão entrevista exclusiva ao UOL  - Reprodução/Internet
Diretor de Comunicação e Financeiro dão entrevista exclusiva ao UOL Imagem: Reprodução/Internet
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

19/08/2020 00h18

Para o diretor de Comunicação da Globo, Sergio Valente, o total de impostos que uma companhia paga aos poderes públicos é um bom indicador financeiro e social, mas nem de longe mostra o real impacto que um grupo —como o da família Marinho— tem no país.

Em entrevista concedida com exclusividade à coluna, na semana passada, pela internet, Valente e o diretor Financeiro da Globo, Manuel Belmar, comentaram os tributos pagos pela emissora, falaram sobre faturamento, sobre os ataques bolsonaristas, gastos federais em publicidade e o impacto social da empresa.

A cúpula da emissora também respondeu, mais uma vez, sobre a denúncia do doleiro Dario Messer (condenado a mais de 13 anos de prisão), de que teria levado quantias de dólar em espécie nos anos 90 à sede da emissora —e que seriam destinadas a integrantes da família Marinho.

O doleiro não apresentou provas (veja resposta dos acionistas no final do texto).

"A Globo, o Grupo Globo, é muito mais que apenas uma empresa pagadora de impostos", diz Sergio Valente.

"A Globo é um verdadeiro ecossistema e não apenas funcionários, mas outras empresas, outros segmentos socioeconômicos vivem dela e do seu entorno."

O diretor de Comunicação enumera cinco atributos intrínsecos (que ele chama de "drives") na natureza e na existência da Globo como pessoa jurídica:

1 - O impacto direto e indireto dela na chamada economia criativa, cultural, audiovisual, de inovação e de design;

2 - O impacto derivado do pagamento de impostos diretos e também os indiretos, como os que são pagos por seus funcionários, parceiros e empresas prestadoras de serviço que ela contrata; afinal, o dinheiro pago por ela vira novos impostos;

3 - A existência de um ecossistema que acaba representado e representando a si mesmo por meio da TV e do grupo: os anunciantes (inclusive o próprio governo), entidades, organizações civis; representantes da sociedade;

4 - O impacto que o Grupo Globo tem como contribuinte social direto, seja por meio da Fundação Roberto Marinho, por exemplo, seja pelo Criança Esperança;

5 - O apoio e exposição de projetos sociais, como o Todos Pela Saúde; a divulgação de shows e peças de teatro sem contrapartida financeira; e o apoio a outras entidades que prestam serviços sociais à população etc.

É possível incluir até um sexto "drive" no catálogo de Valente: a exportação para o mundo de conteúdo, cultura, arte e valores nacionais por meio dos produtos Globo.

Como contraparte o grupo também é voraz consumidor de conteúdo e cultura internacionais por meio de seus muitos canais e plataformas.

Dívida zero com governo

Outro assunto que os bolsonaristas sempre sobem em "hashtags" contra a emissora fala de uma suposta dívida "bilionária" que estaria sendo cobrada pelo governo.

Essa seria, em tese, a segunda "mamata" que acabou: "a Globo vai ter de pagar o que deve", dizem.

A resposta da Globo é a mesma já dada em novembro do ano passado a esta coluna, diante de ameaças reiteradas do presidente Jair Bolsonaro de não renovação de sua concessão no futuro:

"Não temos um centavo em dívidas com qualquer banco público ou com o próprio governo", diz o diretor Financeiro, Manuel Luis Belmar da Costa.

Sobre a irregularidade apontada pela Receita Federal na aquisição dos direitos de exibição da Copa da Ásia em 2002, o que resultou numa multa de mais de R$ 270 milhões (valores de 2013), a Globo afirma que, apesar de discordar da interpretação do caso, decidiu pagar a dívida, e que a mesma já foi inteiramente quitada.

Sobre a suposta dependência da emissora do governo, Belmar minimiza:

"Historicamente o nível de gastos de publicidade federal na TV Globo não passa de 4%. Ou seja, R$ 400 milhões, R$ 500 milhões. Se faz falta? Claro que faz falta, mas não somos sustentados por isso."

Dados obtidos pela coluna mostram que em 2013, no governo Dilma, a emissora chegou a receber cerca de R$ 800 milhões em publicidade federal, o que chegaria a 8% do faturamento publicitário naquele ano.

Todo esse faturamento se refere a empresas como a TV Globo, a ex-Globosat, o GloboPlay e a Globo.com.

Não estão incluídos dados de empresas exclusivas dos acionistas, como a Globo Ventures e a corretora Órama.

O Doleiro Dario Messer

A emissora também acabou citada na semana passada pelo doleiro Dario Messer, que afirmou que na década de 90 entregou em "várias ocasiões" quantias entre US$ 30 mil e US$ 300 mil a integrantes da família Marinho.

No entanto, ele admitiu que nunca se encontrou com os Marinho e que não tinha provas dos fatos.

Sobre isso a assessoria de Roberto Irineu Marinho e João roberto Marinho responderam

"A respeito de notícias divulgadas sobre a delação de Dario Messer, vimos esclarecer que Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho não têm nem nunca tiveram contas não declaradas às autoridades brasileiras no exterior. Da mesma maneira, nunca realizaram operações de câmbio não declaradas às autoridades."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL