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Ricardo Feltrin

Sem F1, Carnaval e com menos futebol, Globo vê "evaporar" mais de R$ 1 bi

Logo da TV Globo - Divulgação
Logo da TV Globo Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

09/09/2020 00h09

Notem no título que eu usei o simbólico verbo "evaporar" mais de R$ 1 bilhão, e não "perder".

Isso porque dizer que a Globo vai perder todo esse montante seria matemática e contabilmente errado.

No ano que vem a Globo já tem vários desfalques históricos para administrar em sua grade de programação.

Primeiro, a emissora anunciou que não vai renovar o contrato da F1 (ainda há uma remota possibilidade, porém).

Também abriu mão e perdeu a Libertadores da América, que pode ficar para o SBT.

Antes já havia perdido o estadual do Rio e está ameaçada em outras praças.

Por fim, os Carnavais do Rio e de São Paulo devem ficar suspensos até segunda ordem.

E a coluna nem está citando a Copa de 2022, que a Globo também corre risco de perder. Nesse caso a "evaporação" pode passar de R$ 1,5 bilhão ou até mais.

A emissora comentou as mudanças e desistências de exibição de conteúdo em sua grade, como a da F1 (veja nota oficial ao fim deste texto).

Vamos às cifras

Ok, mas o que significam esses cancelamentos ou rompimentos em números para a Globo?

Bem, agora voltamos ao primeiro parágrafo desta coluna. Vamos explicar por que a Globo não está necessariamente perdendo ou tendo um prejuízo de R$ 1 bi (ou mais) sem esses eventos.

No caso da F1, a Globo chegava a amealhar até R$ 500 milhões anuais com a venda de cotas em publicidade.

Para os que estão atônitos com o valor, lembrem-se que não é apenas um evento domingo sim, domingo não, que eles estão pagando.

Não, quem compra uma cota da F1 aparece quase que diariamente, o ano todo, no noticiário não só da TV Globo, mas de todos os seus veículos. No caso da TV, boa parte disso em horário nobre.

Só que aí começamos a fazer os descontos: para ter a F1 a Globo pagava US$ 20 milhões pela exclusividade. Arredondando, menos R$ 100 milhões.

Ao menos outros 20% desses R$ 500 milhões voltam para as agências publicitárias. Menos outros R$ 100 milhões, portanto.

Sobre isso a Globo ainda paga o chamado BV (bônus por volume, uma espécie de "recompensa" para agências que investiram nela, além de impostos e comissões de venda para seus próprios funcionários, que pode variar e passar de 10%).

Então, dos tais R$ 500 milhões que a Globo faturava só com a F1, no fim das contas a emissora ficava, líquido, com talvez, no máximo, R$ 150 milhões. Se muito.

O mesmo raciocínio vale para a Libertadores, que custava US$ 60 milhões anuais (R$ 300 milhões); ou o Carnaval (R$ 200 milhões no país).

Fora o Campeonato Carioca e o de outras praças que podem sair da rede global de transmissão.

Ou seja, a Globo está deixando de faturar uma fortuna em publicidade sem esses eventos, que ultrapassariam R$ 1 bilhão.

No entanto está deixando de gastar uma outra fortuna também, não muito menor que isso.

Se está certa ou errada em abrir mão desses eventos e dos milhões que rendiam líquidos?

Bem, isso é uma decisão dos acionistas e dirigentes da emissora.

Como esta coluna já publicou, anos atrás houve a decisão de investir em outros meios que não só a TV, o que gerou o projeto "Uma Só Globo".

O Grupo Globo está deixando de investir em conteúdo para TV aberta, mas está investindo milhões em outros projetos de longo prazo, como o novo complexo de estúdios no Rio, ou o Globo Play.

Todos perdem

Dito tudo isso, não será apenas a Globo que verá esse bilhãozinho ou mais "evaporar", mas também a economia em geral.

Agências, profissionais da publicidade, de audiovisual, da área de vendas, setores comerciais de empresas, editores, redatores, bancos, enfim, toda uma cadeia que integra o chamado "ecossistema" ao redor da maior emissora do país e uma das maiores do mundo sairá perdendo.

Inclusive os governos federal, estadual e municipal, pois todos faturam com esses negócios seja em impostos ou em arrecadação comercial "orgânica".

Mesmo que outra emissora aberta comprasse os direitos da F1, por exemplo (o valor pedido está em cerca de US$ 25 milhões), inevitavelmente o novo "ecossistema" não teria o mesmo tamanho que tem na Globo. Seria uma fração disso.

Por quê? Por causa do ibope diminuto das concorrentes: a soma de todas as TVs abertas do país não chega à audiência da Globo sozinha.

Essa realidade vai ser difícil mudar. Se é que um dia mudará.

Outro lado

Procurada para comentar o assunto, a Globo, por meio de sua Central de Comunicação, enviou a seguinte nota:

"A Globo não abre os valores de suas negociações comerciais, mas é importante contextualizar os movimentos citados.

Primeiro, vamos separá-los: há casos, como o do Campeonato Carioca, que foram motivados por quebra do nosso contrato de exclusividade, algo que não podemos aceitar passivamente.

Outros, sim, têm a ver com os efeitos causados pela pandemia, que 'desbalanceou' diversos acordos e nos levou a uma natural necessidade de revisar todo o nosso portfólio de direitos, um dos maiores entre emissoras de TV do mundo.

Assim, como parte dessa revisão de portfólio, a Globo optou por não renovar os direitos de transmissão da Fórmula 1 a partir de 2021. Mesmo sem a transmissão das corridas, a Globo continuará a fazer a cobertura da categoria em suas diversas plataformas.

O mundo está vivendo um dos seus momentos mais desafiadores, inclusive no campo econômico.

Isso tem obrigado as empresas dos mais variados mercados e setores a reverem seus custos e acordos. Esta não é uma realidade exclusiva do Brasil nem mesmo da Globo; ocorre também com outros players e em outros mercados, todos impelidos a buscar uma revisão de seus compromissos, adequando-os a este novo momento. Central Globo de Comunicação - CGCom".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL